Celmira Macedo, autora da metodologia de ensino EKUI

“Estamos a transformar uma geração de crianças” através da empatia e da inclusão

| 4 Nov 2022

celmira macedo, autora da metodologia EKUI foto c Ekui

Celmira Macedo, autora da metodologia EKUI (ao centro), estudou cientificamente a razão pela qual muitas crianças não conseguiam aprender a ler, a escrever ou a falar. Foto © Ekui.

 

Quando Luana, de seis anos, passou por um grupo de pessoas surdas num centro comercial de Famalicão, largou a mão da mãe para ir ter com elas e apresentar-se. Naturalmente, perguntaram-lhe se também era surda, ao que ela respondeu rapidamente: “Não, mas aprendi que as minhas mãos falam”. É que Luana é uma das já milhares de crianças portuguesas que começaram a aprender com a EKUI, uma metodologia criada pela professora e empreendedora social Celmira Macedo, e que acaba de ser considerada pela organização finlandesa Hundred Research como uma das cem metodologias educativas mais inovadoras e com mais impacto no mundo inteiro.

Para Celmira, a atitude de Luana e o prémio atribuído pela Hundred têm muito em comum: são a prova de que “o trabalho que iniciámos já em 2003 está certo”, e funcionam como uma “enorme motivação” para continuar a dinamizar esta metodologia e levá-la ainda mais longe.

Mas o que é, afinal, a metodologia EKUI? A sigla é construída a partir das palavras Equidade, Knowledge (conhecimento), Universalidade e Inclusão, e Celmira Macedo gosta de recorrer a uma metáfora para explicar: “Para que um edifício com escadas se torne inclusivo, temos de construir uma rampa ou um elevador. A EKUI é essa rampa ou elevador, mas para o ensino. Permite que todas as crianças, independentemente das suas habilidades ou dificuldades, aprendam tudo, da forma mais confortável que têm para aprender”.

E como é que isso acontece? De uma forma “multissensorial e inclusiva”. Às letras do alfabeto, a EKUI associa não só os sons e a forma de os produzir (alfabeto fonético), mas também a representação da letra em língua gestual, e ainda o código Braille. Tendo por base um conjunto de cartas ilustradas, este processo ativa diferentes canais sensoriais, que por sua vez ativam diferentes áreas do cérebro, tornando a aprendizagem da escrita e da leitura mais eficiente e motivadora.

Mas, mais do que isso, esta metodologia “está a criar uma geração de crianças, pais e professores mais empáticos, e mais conscientes das barreiras de aprendizagem e comunicação”. Uma geração de crianças “que aprende mais depressa, mas que sobretudo vai olhar para o lado e ajudar o outro a aprender”, sublinha Celmira Macedo, em entrevista ao 7MARGENS.

 

Uma metodologia eficaz com todos

A metodologia EKUI aproxima toda a turma, fomentando a empatia e novas relações entre as crianças. Foto © Ekui.

 

Celmira Macedo nasceu em Angola e, quando aos cinco anos se mudou para Portugal, sofreu na pele a discriminação em ambiente escolar. Nessa altura, decidiu que seria advogada, para lutar contra as injustiças “e defender os mais vulneráveis”. Devido aos recursos financeiros limitados da sua família, acabou por não poder estudar Direito, e tornou-se uma professora “apaixonadamente dedicada a ajudar crianças com dificuldades de aprendizagem”.

Mas, quando chegou ao ensino, viu como milhares de crianças estavam a ficar para trás devido a metodologias padronizadas de “tamanho único”. Fez então o doutoramento em Educação na Universidade de Salamanca para estudar cientificamente a razão pela qual muitas crianças não conseguiam aprender a ler, a escrever ou a falar, e como esta questão estava a ser abordada. Quando descobriu que não existiam metodologias inclusivas para resolver o problema, decidiu criar a EKUI. No início, concentrou-se apenas nas crianças com dificuldades de aprendizagem e ficou, desde logo, surpreendida ao descobrir como a sua metodologia estava a ser eficaz com todas as crianças (com e sem deficiências). Mais importante ainda, a metodologia EKUI estava a aproximar toda a turma, fomentando a empatia e novas relações entre as crianças.

Depois, quando Celmira teve um AVC e durante algum tempo foi incapaz de comunicar verbalmente, teve ainda mais certezas da necessidade do seu trabalho. Aí, percebeu verdadeiramente o que 650 milhões de pessoas em todo o mundo sentem todos os dias, e as suas frustrações. Foi a partir desse momento que decidiu dedicar a sua vida a mitigar as “dores” destas pessoas, marcando a diferença a partir da escola.

 

Da sala de aula para os palcos e livrarias

metodologia EKUI a ser implementada no pre escolar foto c Ekui

Há também alguns educadores no ensino pré-escolar, que começam desde logo a “trabalhar a consciência dos sons de uma forma multissensorial”, com base num conto e jogo criados por Celmira. Foto © Ekui.

 

Lançada oficialmente em 2015, a EKUI começou por ser implementada em nove turmas do agrupamento de escolas D. Pedro I, em Vila Nova de Gaia, zona onde Celmira Macedo residia. “Depois, foi o ‘passa-palavra’. E se no início éramos nós que íamos bater à porta das escolas, hoje já são os professores que nos vêm pedir formação”, conta.

Até agora, já receberam formação e implementaram a metodologia em Portugal “pelo menos 500 professores” primários e “há já professores lá fora, em pelo menos 11 países, a aplicar também”. Além disso, há também alguns educadores no ensino pré-escolar, que começam desde logo a “trabalhar a consciência dos sons de uma forma multissensorial”, com base no jogo e conto criados por Celmira, que tem como protagonista o super-herói Ekui, um duende que luta contra o monstro das barreiras.

A história deu entretanto origem a uma peça de teatro, “EKUI e o Monstro das Barreiras”, escrita por Celmira Macedo, com encenação de João Reis e representação do grupo de teatro intergeracional Anel de Pedra, que irá estrear no próximo dia 12 de novembro, pelas 21 horas, no Auditório Municipal do Sabugal.

O conto “está neste momento a ser ilustrado e espero que até ao Natal possa chegar às bancas”, revela a professora ao 7MARGENS. Em cima da mesa está também a possibilidade de a metodologia EKUI ser incluída nas aulas de Cidadania do segundo ciclo, avança, sem esconder o seu desejo para o futuro: “ver a metodologia EKUI implementada em todas as escolas portuguesas” e, quem sabe, do mundo inteiro.

 

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