O Papa Leão XIV desafiou a Europa a perguntar-se se está verdadeiramente a procurar caminhos novos para a paz ou se se limita a preparar-se para as guerras que poderão vir. “Estamos realmente a envidar ‘esforços criativos’ para promover a paz mundial ou estamos simplesmente a tentar ‘conter a hemorragia da guerra’?”, questionou, durante o encontro “Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade”, realizado ao final da manhã desta segunda-feira, 28, no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz.
A pergunta surgiu no momento central de um discurso dedicado à figura de Robert Schuman e à construção europeia, no qual o Papa apresentou a paz não como uma realidade que possa ser garantida apenas pela capacidade militar, mas como uma tarefa ativa que exige diálogo, coragem política, respeito pelo direito internacional e capacidade de construir solidariedades concretas.
Ao evocar Schuman, um dos fundadores da construção europeia, Leão XIV recordou a experiência de uma Europa marcada pelas guerras e pelas fronteiras em permanente mudança e sublinhou a atualidade da sua Declaração de 9 de maio de 1950. Para o Papa, a lição fundamental daquele projeto continua a ser a procura de uma Europa onde os povos escolham o diálogo em vez do confronto e onde a partilha de recursos torne a guerra não apenas “impensável”, mas também “materialmente impossível”.
“Cuidado com a ilusão do rearmamento”
Depois de afirmar que a procura da paz não pode ser confundida com um “irenismo ingénuo”, o Papa recuperou a afirmação de Schuman segundo a qual a paz exige “esforços criativos” à altura dos perigos que a ameaçam. E acrescentou um alerta para “a ilusão do rearmamento”, citando a sua própria mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, na qual já tinha chamado a atenção para os apelos ao aumento das despesas militares.
Para Leão XIV, a questão não é apenas como responder às guerras existentes, mas que tipo de esforço político está a ser feito para impedir novas guerras. A paz exige, afirmou, “um diálogo paciente”, coragem nas negociações e disponibilidade para abdicar de algumas posições em nome do bem maior da paz.
O Papa associou esta visão ao respeito pelo direito internacional e ao multilateralismo, que considerou essenciais para contrariar a vontade de domínio que está na origem dos conflitos. Num diagnóstico particularmente severo, afirmou que “o valor da palavra dada é desprezado” e contrapôs a esta tendência uma Europa capaz de fazer conviver interesses e reivindicações diferentes através do diálogo.
Uma Europa com raízes e aberta ao outro

O Papa durante o encontro, ladeado por Emmanuel Macron e pelo cardeal Jean-Marc Aveline, presidente da Conferência Episcopal Francesa. Foto © Vatican Media
Esta segunda-feira, em Metz, Leão XIV procurou apresentar a Europa como uma realidade cultural e histórica, formada por encontros entre povos e culturas e não apenas como uma realidade geográfica.
Nesse percurso, destacou o papel do cristianismo e, em particular, de São Bento, proclamado por Paulo VI como Padroeiro da Europa. O Papa associou a tradição beneditina a uma longa obra de educação, assistência aos pobres e doentes, desenvolvimento das ciências, direito, organização das cidades e construção de uma cultura europeia assente na fraternidade, comunhão e partilha.
Leão XIV defendeu que a herança cristã ajuda a compreender uma dimensão constitutiva da pessoa humana e uma fonte da cultura europeia. Ao mesmo tempo, insistiu na necessidade de abertura ao outro e de diálogo num continente cada vez mais multicultural.
O Papa recuperou também o artigo 17 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que prevê um diálogo “aberto, transparente e regular” entre as instituições europeias e as Igrejas. Para Leão XIV, a laicidade não deve significar ausência de diálogo, mas respeito pela autonomia das Igrejas e colaboração entre as diferentes partes da sociedade.
Migrantes: acolher é integrar
A questão migratória surgiu como outra expressão deste desafio europeu. Leão XIV recordou a sua recente visita às Canárias e a defesa de vias legais e seguras, assistência, proteção das vítimas, combate aos traficantes e políticas que permitam às pessoas viver com dignidade nas suas próprias terras.
E lembrou que acolher não é apenas receber. “Acolher uma pessoa significa integrá-la como se fosse da própria família”, afirmou, defendendo que o encontro entre povos e culturas deve conduzir simultaneamente a uma redescoberta das próprias raízes e a uma escuta atenta do outro.
Esta capacidade de conciliar identidade e abertura é, para o Papa, uma das condições para que a Europa possa agir em favor da paz e de um mundo reconciliado.
“Jovens, sede construtores de comunidade”

Após o discurso, o Papa foi aplaudido de pé pelos presentes. Foto © Vatican Media
No final, Leão XIV dirigiu-se especialmente aos jovens, a quem atribuiu a responsabilidade de construir a Europa de hoje e de amanhã. Pediu-lhes que não se submetam “à lógica da violência e da opressão” e que assumam a construção da paz desde as relações pessoais até à vida das comunidades e dos países.
“Não tenhais medo de formar uma família, de ter filhos, de defender a dignidade de cada pessoa”, disse, acrescentando um apelo ao envolvimento na vida das comunidades, incluindo através da participação política.
“Sede construtores de comunidade!”, pediu-lhes, antes de concluir com a esperança de que uma Europa “solidamente enraizada” possa continuar a florescer e a inspirar o mundo.
Na Catedral, a paz como “trabalho de construção”

O Papa Leão XIV apresentou os vitrais da Catedral — a “Lanterna do Bom Deus” — como símbolo de uma Europa que não precisa de apagar as diferenças para construir a unidade. Foto © Vatican Media
Mais tarde, na Catedral de Santo Estêvão, onde celebrou a missa que encerrou a sua visita de quatro dias a França, Leão XIV retomou a reflexão sobre a paz a partir das imagens do deserto, do jardim e da casa, presentes na primeira leitura. O deserto, explicou, recorda a importância do essencial e da simplicidade; o jardim é o lugar da beleza e da realização; e a casa, lugar de paz, exige um “esforço partilhado” dos homens. A paz, afirmou, é dom de Deus, mas requer também um verdadeiro “trabalho de construção”, feito de partilha, encorajamento e perdão.
Perante uma cidade e uma região marcadas por conflitos e mudanças de fronteiras, o Papa insistiu então que o perdão e a reconciliação não são sinais de fraqueza. “Não é verdade que quem se vinga é mais forte do que quem perdoa. Não é verdade que quem não cede é mais forte do que quem procura a reconciliação”, afirmou, antes de sublinhar que “a reconciliação só é possível quando se tem a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento”. Perante a injustiça, acrescentou, “o único caminho de salvação para o homem é o amor que cuida do outro”.
Na homilia, Leão XIV voltou ainda às raízes espirituais da Europa, apontando como pilares da sua herança a primazia da pessoa, o caráter inviolável da vida humana, a liberdade, a família, a atenção aos pobres e necessitados, o acolhimento do estrangeiro e o respeito pelos idosos. E apresentou os vitrais da Catedral — a “Lanterna do Bom Deus” — como símbolo de uma Europa que não precisa de apagar as diferenças para construir a unidade: “o futuro da Europa não reside na uniformidade, mas na harmonia das diferenças, onde a ferida do passado se torna uma fresta por onde a luz pode entrar”.
Ao terminar a celebração, o Papa deixou à comunidade de Metz uma missão que prolonga a mensagem de toda a sua viagem: ser “um farol de esperança para este país, para a Europa e para o mundo”. A missa foi o último encontro público da visita ao país, que Leão XIV encerrou agradecendo a todos os que a tornaram possível e convidando a Igreja a continuar a caminhar unida “para o serviço do seu Reino de amor, justiça e paz”.






![Apelo de Metz [texto integral]](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/09/O-Papa-no-encontro-no-Centro-de-Congressos-Robert-Schuman-em-Metz.-Foto-Vatican-Media-1080x630.jpg)



