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Ana Maria Bidegain, Foto Jorge Wemans

Presidente do ICMICA ao 7MARGENS

“Estamos num tempo de procura de como poderão ser as comunidades do futuro”

| 02/10/2024

Ana Maria Bidegain Foto Jorge Wemans

Ana Maria Bidegain falou ao 7MARGENS na sua passagem recente por Portugal. Foto © Jorge Wemans

“Estamos num tempo de procura de como serão, de como poderão ser, as comunidades do futuro”, afirma ao 7MARGENS Ana Maria Bidegain, uruguaia, 76 anos, presidente do Movimento Católico Internacional para os Assuntos Intelectuais e Culturais (ICMICA-Pax Romana), professora aposentada de religiões latino-americanas na Florida International University e autora de 19 livros e de uma multiplicidade de artigos e comunicações universitárias. Na sua recente estadia em Portugal, visitou grupos e pessoas ligadas ao Metanoia, movimento português associado do ICMICA, e faz nesta entrevista uma antevisão dos resultados do atual Sínodo da Igreja Católica, sublinhando a sua convicção de que “enquanto não existir um laicado formado e adulto não terminaremos com o clericalismo”.

 

 

7MARGENS – Apesar da diversidade de situações nacionais e continentais, enquanto presidente do ICMICA, consegues identificar preocupações comuns aos quadros profissionais e intelectuais católicos em todo o mundo?

Ana Maria Bidegain – Sim. Há temas como a paz e os direitos humanos que continuam a ser muito atuais em todo o mundo. Junto do Conselho da Europa trabalhamos a questão da imigração, procurando que se alargue a visão desta questão em dois sentidos: dialogando e convergindo com organizações que têm valores próximos dos nossos; e introduzindo o ponto de vista dos países de origem dos imigrantes no debate sobre a imigração. Ao mesmo tempo, há movimentos nacionais como o da Catalunha que dedicou um ano inteiro à reflexão sobre o acolhimento destes estrangeiros, tentando superar os estereótipos e preconceitos que as pessoas têm. E no trabalho junto do Conselho da Europa temos tido presente a situação de outros países, como por exemplo os Estados Unidos, em que a imigração é também um assunto muito importante e desafiante.

O tema da paz continua a ser fonte de muitas preocupações e de imensos desafios. Vivemos num mundo em que a proliferação das armas atingiu níveis incríveis. Por outro lado, no pensamento católico há algo de novo: na Encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco pôs termo ao conceito de guerra justa que durante séculos fez parte do ensinamento católico e que hoje não tem mais lugar. É uma mudança muito importante!

 

7M – A atenção a esses temas do mundo de hoje influencia a vida de fé dos membros de ICMICA?

Essas são as interrogações que estamos a trabalhar com vista ao nosso próximo encontro mundial: que significa hoje seguir a Jesus no meio dessas tensões que emergem em situações muito diversas pelo mundo fora?; como se vive esse caminho em sociedades profundamente secularizadas?

Cada vez mais nos parece ser necessário repensar as formas de encontro, reunião e partilha entre os nossos membros. Muitos deles participaram no processo sinodal a partir das suas comunidades locais e mais claro ainda se tornou que é preciso pensar novas formas de participação e encontro.

 

7M – O ICMICA, enquanto movimento, enviou contributos para o Sínodo sobre a Sinodalidade?

Sim, sim. Enviámos contributos em duas ocasiões diferentes. E mais recentemente enviámos uma carta ao Secretariado do Sínodo sintetizando alguns elementos da experiência dos nossos movimentos que podem ajudar a Igreja no seu todo a concretizar o objetivo de “caminhar juntos”. De facto, refletindo sobre a história e a experiência dos nossos movimentos, ficamos convencidos de que ela foi e é uma experiência forte de sinodalidade. Seguramente com muitas limitações e imperfeições, mas não será por acaso que em muitos sítios e por parte de muitos responsáveis eclesiais ela é reconhecida como uma experiência de forte sinodalidade. Tendo tudo isto em conta, pensámos que devíamos enviar esse contributo ao Sínodo.

 

O clericalismo: preocupação fundamental do Papa

O Papa numa mesa de trabalho da primeira sessão do Sínodo, em 28 de outubro de 2023. Foto © Ricardo Perna

O Papa numa mesa de trabalho da primeira sessão do Sínodo, em 28 de outubro de 2023. Foto © Ricardo Perna

7M – Não está este Sínodo, ainda que abordando o tema da missão, demasiado centrado nas questões internas da organização eclesial?

Creio que Francisco olha para o problema do clericalismo como o elemento fundamental de onde provêm todos os abusos. Clericalismo na sua dupla dimensão: clericalismo dos padres formados por esta estrutura clerical; e clericalismo de muitos leigos que aceitam este estado de coisas…

 

7M – Do teu ponto de vista, quais seriam os dois aspetos mais importantes para superar o clericalismo atual?

Enquanto não existir um laicado formado e adulto não terminaremos com o clericalismo. Este processo sinodal tem-se focado muito nas estruturas internas da Igreja, na formação dos padres e deixou um pouco de lado o tema da formação do laicado. Mas creio que teremos de trabalhar nas duas vertentes: na formação e participação do laicado e na formação dos sacerdotes.

Não creio que o Sínodo sobre a Sinodalidade seja um ponto final neste tema, mas será antes o início para procurarmos novos caminhos. A mudança histórica, a mudança de época que estamos a viver, ainda não a entendemos totalmente, é difícil percebermos quais são as suas grandes linhas de mudança. Contudo, mesmo não podendo desenhá-la na perfeição, creio que vai determinar alterações muito significativas. E na Igreja vamos seguramente encontrar na memória, na tradição, aspetos que podemos retomar para viver num contexto novo e diferente.

A preocupação de Pio XI quando afirmava que a Igreja do século XX necessitava de leigos organizados e formados continua atual, mas já não pode ser respondida com a tradicional organização por idade, sectores de atividade e etc… Hoje temos de pensar em organizações muito mais intergeracionais, mais comprometidas com a resposta à crise ambiental, aos efeitos da inteligência artificial… Creio que tudo isto nos está a convocar a um esforço para repensar novas formas de comunidades em que a mensagem de Jesus continue a ser o eixo fundamental, mas em que o modo de encontro possa ser diferente do que temos vivido até agora.

Não duvido de que a vitalidade da Igreja vai estar determinada pela existência de um laicado participativo e ativo. Sem participação dos leigos a todos os níveis não haverá futuro. De qualquer modo a estrutura da Igreja não tem sentido sem fiéis! (risos)

 

O Sínodo não vai responder a todas as expectativas

Assembleia do Sínodo 2023

“É muito difícil prever quais serão os resultados deste Sínodo”, reconhece a presidente do ICMICA. Foto © Vatican Media

7M – Depois de três anos de percurso sinodal, que expectativas tens quanto às mudanças que este Sínodo vai introduzir no modo de ser Igreja?

É muito difícil prever quais serão os resultados deste Sínodo. Creio, mas não sei se é mais um desejo do que uma expectativa real, que a formação dos seminaristas vai mudar. É um tema que vai estar muito presente na assembleia sinodal que agora começa. Mas neste ponto, como em todos os outros que o Sínodo venha a determinar, a questão é sempre a mesma: uma coisa é o que se escreve nos documentos, outra é até que ponto a comunidade segue e concretiza essas decisões.

Já o vimos com o Concílio Vaticano II: a receção dos seus documentos e do seu espírito não foi a que se esperava, nem foi homogénea. Como historiadora, falo das correntes que se formam no interior da Igreja – correntes que são muito fortes – e creio que todas elas estão desafiadas a renovarem-se. Mesmo as que mais profundamente trataram de seguir as linhas inovadoras traçadas pelo Concílio, também enfrentam hoje o desafio da renovação, pois as formulações e as formas a que chegaram já não são atrativas para os tempos de hoje.

 

7M – A força dessas correntes no interior da Igreja e o antagonismo de algumas das posições que defendem não vão impossibilitar que este Sínodo termine com resultados significativos?

Creio que existem dificuldade reais. Há desde Pio XI (pelo menos) um grande receio de dar origem a um cisma. Neste processo sinodal há avanços e recuos. O facto de se ter adotado uma metodologia de escuta, fez com que muitos temas até então escondidos tenham visto a luz do dia, o que obrigou a que fossem objeto de reflexão. Todos sabemos que na primeira assembleia geral em algum círculo a reação do cardeal presente foi a de que a questão da participação das mulheres e do seu acesso ao diaconato não era assunto a tratar. Mas que os restantes membros disseram que iam falar sobre o tema e assim fizeram. Consta que no final o cardeal agradeceu as aportações e reconheceu que a sua visão do problema era, agora, diferente. Se todos se dispuserem a escutar os outros, podem suceder coisas novas…

Mas os que trabalhamos sobre a história, sabemos que estas mudanças são processos longos. O Sínodo não vai responder a todas as expectativas que se criaram nestes anos. Longe disso! Alguns dos temas que foram muito falados inicialmente vão ficar sem resposta. Porém, noutros aspetos houve avanços significativos. Vejamos o que aconteceu depois do Sínodo sobre a Amazónia: não se criou mais uma conferência episcopal, mas sim uma Conferência Eclesial da Amazónia (CEAMA) presidida por um cardeal, com quatro vice-presidentes: dois leigos (que vivem na Amazónia), uma religiosa e um sacerdote. É uma experiência de organização da Igreja muito diferente daquelas a que estamos habituados. Pode ser um sinal de que, paulatinamente, possa haver grandes mudanças noutros campos.

 

Como criar comunidades cristãs?

Ana Maria Bidegain Foto Jorge Wemans

“Hoje há novos desafios à manutenção das comunidades no tempo, por causa de vidas profissionais que exigem frequentes mudanças de local”, sublinha Ana Maria Bidegain. Foto © Jorge Wemans

7M – Essa será uma das grandes interrogações atuais: como pensas que será preenchido o vazio criado pelo esgotamento das propostas de organização típicas dos movimentos de ação católica especializada (pequenos grupos de ação-reflexão)?

Quando iniciei o meu mandato no ICMICA, o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM) pediu-nos para utilizar a sua plataforma de comunicação em ordem a recolher a experiência dos nossos movimentos para responder à pergunta: como é que o método da revisão de vida(1) pode ajudar a organizar comunidades? Na América Latina, a revisão de vida tornou-se paulatinamente, com todas as sua dificuldades e limites, na metodologia mais presente em muitos trabalhos da vida da Igreja e na reflexão teológica. O que procurávamos era também perceber como a revisão de vida é uma espiritualidade e um caminho de conversão de vida permanente.

Mais de 200 pessoas participaram nessa plataforma de intercâmbio a nível latino-americano. Surgiram dificuldades para formar comunidades de reflexão por ausência de padres que as pudessem acompanhar, dado que os padres mais jovens nunca de tal tinham ouvido falar, mas isso não impediu que nos déssemos conta de como a metodologia da reflexão-ação contribui para a participação dos leigos na Igreja e dos católicos no mundo.

Hoje estamos confrontados com a Inteligência Artificial, a comunicação à distância e a realidade virtual. Neste contexto vemos o nascimento de comunidades cristãs virtuais, isto é, não presenciais.

 

7M – Mantendo-nos ainda no campo da espiritualidade da revisão de vida. Crês que essa proposta será válida noutros continente fora da América Latina?

Na Europa e nos Estados Unidos penso que sim. A experiência católica nos EUA está muito marcada pelos migrantes hispânicos junto dos quais a Igreja desenvolveu o movimento dos encontros baseado no conceito das comunidades de base. Noutros continentes, com adaptações várias, o método da ação-reflexão mais ou menos inspirado nos princípios enunciados por Cardijn(2) também está presente, pelo menos nos nossos movimentos.

Mas a questão não é apenas de método, é também de forma. Hoje há novos desafios à manutenção das comunidades no tempo, por causa de vidas profissionais que exigem frequentes mudanças de local. É verdade que a Internet ajuda a manter algum tipo de conexão entre as pessoas, mesmo estando elas longe umas das outras, mas estamos num tempo de procura de como serão, de como poderão ser, as comunidades do futuro.

 

Notas:
(1) e (2) A revisão de vida é uma metodologia (e também uma espiritualidade) desenhada pelo padre belga Joseph Cardjin (1882 – 1967), a quem o Papa Paulo VI fez cardeal no ano de 1965. O método do ver-julgar-agir esteve na base do desenvolvimento da Juventude Operária Católica em todo o mundo (e posteriormente dos restantes movimentos da Ação Católica). Através dessa metodologia, os grupos de base dos movimentos católicos viviam uma dinâmica de reflexão-ação-reflexão procurando analisar os problemas existentes no seu meio, tomar posição sobre eles a partir de uma perspetiva cristã e agir com outros em ordem a superá-los.

 

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