
Tolentino Mendonça propôs-se refletir sobre a palavra “paz”, que, disse, “constitui hoje uma tarefa indeclinável”. Foto © UA
“A paz não é uma realidade prévia e espontânea, um puro e garantido dado de facto, mas uma deliberada construção humana, uma escolha histórica e ética, um processo coletivo que requer a força de manter respeitadas e unidas as diferenças”. Quem o afirmou foi o cardeal José Tolentino Mendonça, no discurso de agradecimento do grau de doutor honoris causa que a Universidade de Aveiro lhe atribuiu no final da última semana.
Na cerimónia evocativa dos 50 anos da instituição, foi também agraciada a documentarista da biodiversidade e da sustentabilidade ambiental Céline Cousteau, que fez um discurso sobretudo testemunhal, em que procurou valorizar a ligação entre os humanos e a natureza.
Como os discursos das duas figuras distinguidas não foram divulgados, a não ser no vídeo da demorada cerimónia, em que também esteve o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vale a pena regressar a esse momento para sublinhar alguns aspetos das duas intervenções.
Tolentino Mendonça propôs-se refletir sobre a palavra “paz”, que, disse, “constitui hoje uma tarefa indeclinável”. Para ilustrar que ela é uma construção e uma escolha, recordou a origem do termo em grego (eirene), do verbo eírō, que significa entrançar, entretecer, ligar os fios diversos, indicativo de que “já os gregos pensavam a paz como uma espécie de aliança, o resultado de um processo de encontro das diversas partes”. De resto, explicou, também a palavra latina pax, pacis tem como raíz o verbo pango, de onde procede pactum.
“Vizinhos, mas não necessariamente solidários”
Aludiu, depois, a uma palestra do sociólogo Zigmunt Bauman sobre a história da humanidade a partir do pronome “nós”, na qual este sublinhava que, desde os tempos pré-históricos dos caçadores e recolectores até às cidades, estados e impérios dos tempos históricos, o número de envolvidos por aquele pronome foi sempre crescendo, mas com um elemento em comum: “formulava-se em contraposição aos outros, num regime de inclusão e de exclusão”.
Para Bauman, essa mentalidade diferenciadora “construiu a história do mundo que conhecemos”. “Hoje, porém, explicou por sua vez Tolentino, habitamos um novo limiar. Num mundo cosmopolita e globalizado, o outro tradicional deixou de existir, porque nos descobrimos próximos e dependentes, interconectados uns com os outros. Podemos dizer que todos vivemos na mesma aldeia. Em nenhuma outra época da história estivemos tão próximos e partilhámos em simultâneo tantos acontecimentos”.
O novo honoris causa da Universidade de Aveiro voltou a Bauman para ajudar a compreender o “grande problema” que isto suscita. Esse grande problema é “vivermos numa época inédita da história, numa soleira nova do caminho humano, mas insistirmos ainda em utilizar as velhas antinomias de sempre. Continuamos a desconhecer as culturas uns dos outros, como se fôssemos irremediavelmente estranhos e distantes”.
Nas palavras deste cardeal português, “a globalização tornou-nos, é verdade, vizinhos, mas não necessariamente solidários”. E recorrendo a uma metáfora dos embarcadiços locais, acrescentou: Não nos sentimos companha do mesmo barco e locatários da mesma casa comum”.
É que, explica, “no mundo da comunicação ainda vigora tanta incomunicabilidade” que é, de facto, um limite, já que “faz-nos olhar para o outro como uma ameaça; inverte a hospitalidade na perpetuação de formas de uma hostilidade sempre mais despótica”.
Carecemos de “um nós polifónico”

“É precisamente nos momentos históricos de maior escassez e crise que aquilo que a universidade representa como sociedade de ciência e de conhecimento deve ser visto como bússola e motor para o caminho humano”, afirmou Tolentino Mendonça. Foto © UA
O orador defendeu, neste quadro, ser “urgente trabalhar a consciência de que somos um nós polifónico, sempre mais amplo”, promovendo um diálogo para o qual a universidade pode contribuir com “a imaginação e o pensamento”, de forma a “identificar aquelas alianças que sustentarão um futuro mais humano e melhor”.
“A universidade, acentuou Tolentino Mendonça, recorda-nos que a ciência e a cultura representam recursos essenciais para o reconhecimento uns dos outros e para a construção de uma hermenêutica operativa da paz. E é precisamente nos momentos históricos de maior escassez e crise que aquilo que a universidade representa como sociedade de ciência e de conhecimento deve ser visto como bússola e motor para o caminho humano”.
O também prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano convocou a poeta Sophia de Mello Breyner Andersen, quando escreveu: “mesmo que se fale somente de pedras ou de brisas, o importante é recordar que não somos apenas seres acossados na luta por uma sobrevivência, mas que somos todos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser”.
Tolentino Mendonça encerrou o discurso com a encíclica Fratellli Tutti, para sublinhar uma ideia do Papa Francisco de que “a paz precisa urgentemente de arquitetos e de artesãos”: os primeiros para cuidar dos aspetos macro e estruturais da realidade, como quadros normativos e acordos institucionais; e os segundos, os artífices, que podem ser todos, de cujo contributo e criatividade a paz também necessita.
Criação de pontes entre pessoas e lugares

A filha e continuadora do comandante Cousteau deu igualmente muita importância à criação de pontes entre as pessoas e os lugares e à consciência dessas ligações. Foto © UA
Quanto a Céline Cousteau, a intervenção que fez, em grande parte de improviso, teve um caráter testemunhal, que incluiu, por exemplo, os encontros e aprendizagens com comunidades indígenas.
Uma dessas aprendizagens foi a acalmar-se, perante os ímpetos que lhe vinham de intervir em situações de injustiça e de querer mudar o mundo. “Calma!”, repetiam-lhe os indígenas da Amazónia, por exemplo. “O que demorou muito tempo a formar-se não vai ser mudado só por ti nem de um dia para o outro; portanto, sossega”, observavam eles, não para a desmoralizar, mas para a fazer ligar à terra, e para ter a perspetiva do tempo, de “sete gerações”.
A filha e continuadora do comandante Cousteau deu igualmente muita importância à criação de pontes entre as pessoas e os lugares e à consciência dessas ligações – nomeadamente através do corpo e, em especial, da respiração, que disse ser “o que nos liga à natureza (chegou mesmo a fazer uma proposta de exercício de respiração profunda e repetida com as pessoas do auditório, que a escutavam).
A síntese final que fez dá a noção da sua mundivisão:
“Ser corajoso é falar com o coração. Isto significa estar aberto e vulnerável para dizer a sua verdade. Por isso, sejam corajosos, falem com o coração, todos têm um dom para partilhar. E lembrem-se de que somos seres humanos, não somos fazedores humanos (human beings, not doing beings)”.
E ainda:
“Não há brilho que seja demasiado intenso; por isso, brilhem o mais que puderem: iluminarão o caminho para os outros. E não se esqueçam de dar um passo atrás para fazer uma pausa [e ganhar momentum, perspetiva]; olhem para o vosso interior para se curarem e, de vez em quando, façam cinco respirações para se ligarem a tudo isto. E lembrem-se: não estão separados da natureza, fazem parte da natureza”.









