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Tolentino Mendonça na cerimónia de doutoramento honoris causa na Universidade de Aveiro, 15 dezembro 2023. Foto © UA (1)

Honoris causa de Tolentino Mendonça e de Céline Cousteau

“Estamos próximos e dependentes, mas desconhecemo-nos uns aos outros”

| 18/12/2023

Tolentino Mendonça na cerimónia de doutoramento honoris causa na Universidade de Aveiro, 15 dezembro 2023. Foto © UA (1)

Tolentino Mendonça propôs-se refletir sobre a palavra “paz”, que, disse, “constitui hoje uma tarefa indeclinável”. Foto © UA

 

“A paz não é uma realidade prévia e espontânea, um puro e garantido dado de facto, mas uma deliberada construção humana, uma escolha histórica e ética, um processo coletivo que requer a força de manter respeitadas e unidas as diferenças”. Quem o afirmou foi o cardeal José Tolentino Mendonça, no discurso de agradecimento do grau de doutor honoris causa que a Universidade de Aveiro lhe atribuiu no final da última semana.

Na cerimónia evocativa dos 50 anos da instituição, foi também agraciada a documentarista da biodiversidade e da sustentabilidade ambiental Céline Cousteau, que fez um discurso sobretudo testemunhal, em que procurou valorizar a ligação entre os humanos e a natureza.

Como os discursos das duas figuras distinguidas não foram divulgados, a não ser no vídeo da demorada cerimónia, em que também esteve o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vale a pena regressar a esse momento para sublinhar alguns aspetos das duas intervenções.

Tolentino Mendonça propôs-se refletir sobre a palavra “paz”, que, disse, “constitui hoje uma tarefa indeclinável”. Para ilustrar que ela é uma construção e uma escolha, recordou a origem do termo em grego (eirene), do verbo eírō, que significa entrançar, entretecer, ligar os fios diversos, indicativo de que “já os gregos pensavam a paz como uma espécie de aliança, o resultado de um processo de encontro das diversas partes”. De resto, explicou, também a palavra latina pax, pacis tem como raíz o verbo pango, de onde procede pactum.

 

“Vizinhos, mas não necessariamente solidários”

Aludiu, depois, a uma palestra do sociólogo Zigmunt Bauman sobre a história da humanidade a partir do pronome “nós”, na qual este sublinhava que, desde os tempos pré-históricos dos caçadores e recolectores até às cidades, estados e impérios dos tempos históricos, o número de envolvidos por aquele pronome foi sempre crescendo, mas com um elemento em comum: “formulava-se em contraposição aos outros, num regime de inclusão e de exclusão”.

Para Bauman, essa mentalidade diferenciadora “construiu a história do mundo que conhecemos”.  “Hoje, porém, explicou por sua vez Tolentino, habitamos um novo limiar. Num mundo cosmopolita e globalizado, o outro tradicional deixou de existir, porque nos descobrimos próximos e dependentes, interconectados uns com os outros. Podemos dizer que todos vivemos na mesma aldeia. Em nenhuma outra época da história estivemos tão próximos e partilhámos em simultâneo tantos acontecimentos”.

O novo honoris causa da Universidade de Aveiro voltou a Bauman para ajudar a compreender o “grande problema” que isto suscita. Esse grande problema é “vivermos numa época inédita da história, numa soleira nova do caminho humano, mas insistirmos ainda em utilizar as velhas antinomias de sempre. Continuamos a desconhecer as culturas uns dos outros, como se fôssemos irremediavelmente estranhos e distantes”.

Nas palavras deste cardeal português, “a globalização tornou-nos, é verdade, vizinhos, mas não necessariamente solidários”. E recorrendo a uma metáfora dos embarcadiços locais, acrescentou: Não nos sentimos companha do mesmo barco e locatários da mesma casa comum”.

É que, explica, “no mundo da comunicação ainda vigora tanta incomunicabilidade” que é, de facto, um limite, já que “faz-nos olhar para o outro como uma ameaça; inverte a hospitalidade na perpetuação de formas de uma hostilidade sempre mais despótica”.

 

Carecemos de “um nós polifónico”

Tolentino Mendonça na cerimónia de doutoramento honoris causa na Universidade de Aveiro, 15 dezembro 2023. Foto © UA

“É precisamente nos momentos históricos de maior escassez e crise que aquilo que a universidade representa como sociedade de ciência e de conhecimento deve ser visto como bússola e motor para o caminho humano”, afirmou Tolentino Mendonça. Foto © UA

 

O orador defendeu, neste quadro, ser “urgente trabalhar a consciência de que somos um nós polifónico, sempre mais amplo”, promovendo um diálogo para o qual a universidade pode contribuir com “a imaginação e o pensamento”, de forma a “identificar aquelas alianças que sustentarão um futuro mais humano e melhor”.

“A universidade, acentuou Tolentino Mendonça, recorda-nos que a ciência e a cultura representam recursos essenciais para o reconhecimento uns dos outros e para a construção de uma hermenêutica operativa da paz. E é precisamente nos momentos históricos de maior escassez e crise que aquilo que a universidade representa como sociedade de ciência e de conhecimento deve ser visto como bússola e motor para o caminho humano”.

O também prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano convocou a poeta Sophia de Mello Breyner Andersen, quando escreveu: “mesmo que se fale somente de pedras ou de brisas, o importante é recordar que não somos apenas seres acossados na luta por uma sobrevivência, mas que somos todos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser”.

Tolentino Mendonça encerrou o discurso com a encíclica Fratellli Tutti, para sublinhar uma ideia do Papa Francisco de que “a paz precisa urgentemente de arquitetos e de artesãos”: os primeiros para cuidar dos aspetos macro e estruturais da realidade, como quadros normativos e acordos institucionais; e os segundos, os artífices, que podem ser todos, de cujo contributo e criatividade a paz também necessita.

 

Criação de pontes entre pessoas e lugares

Céline Cousteau na cerimónia de doutoramento honoris causa na Universidade de Aveiro, 15 dezembro 2023. Foto © UA

A filha e continuadora do comandante Cousteau deu igualmente muita importância à criação de pontes entre as pessoas e os lugares e à consciência dessas ligações. Foto © UA

 

Quanto a Céline Cousteau, a intervenção que fez, em grande parte de improviso, teve um caráter testemunhal, que incluiu, por exemplo, os encontros e aprendizagens com comunidades indígenas.

Uma dessas aprendizagens foi a acalmar-se, perante os ímpetos que lhe vinham de intervir em situações de injustiça e de querer mudar o mundo. “Calma!”, repetiam-lhe os indígenas da Amazónia, por exemplo. “O que demorou muito tempo a formar-se não vai ser mudado só por ti nem de um dia para o outro; portanto, sossega”, observavam eles, não para a desmoralizar, mas para a fazer ligar à terra, e para ter a perspetiva do tempo, de “sete gerações”.

A filha e continuadora do comandante Cousteau deu igualmente muita importância à criação de pontes entre as pessoas e os lugares e à consciência dessas ligações – nomeadamente através do corpo e, em especial, da respiração, que disse ser “o que nos liga à natureza (chegou mesmo a fazer uma proposta de exercício de respiração profunda e repetida com as pessoas do auditório, que a escutavam).

A síntese final que fez dá a noção da sua mundivisão:

“Ser corajoso é falar com o coração. Isto significa estar aberto e vulnerável para dizer a sua verdade. Por isso, sejam corajosos, falem com o coração, todos têm um dom para partilhar.  E lembrem-se de que somos seres humanos, não somos fazedores humanos (human beings, not doing beings)”.

E ainda:

“Não há brilho que seja demasiado intenso; por isso, brilhem o mais que puderem: iluminarão o caminho para os outros. E não se esqueçam de dar um passo atrás para fazer uma pausa [e ganhar momentum, perspetiva]; olhem para o vosso interior para se curarem e, de vez em quando, façam cinco respirações para se ligarem a tudo isto. E lembrem-se: não estão separados da natureza, fazem parte da natureza”.

 

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