Estar com a Irmã Maria Domingos

| 17 Fev 21

Dança da Paz, Pablo Picasso

“Desfiando a partilha dos seus gostos, apontou para a reprodução emoldurada de Picasso – a Dança da Paz – e o postal dos amigos de Emaús…”

 

À saída, acompanhava-me quase sempre para lá da porta do mosteiro. Pisava a rua e era nessa altura que, habitualmente, me contava algumas das suas aventuras em busca do Amor, desde a adolescência, à passagem pelo mosteiro em Fátima, onde iniciou a vida de monja, até ao mosteiro em França, lugar de que me falava com entusiamo sobre descobertas que considerava fundamentais: viver o silêncio, a escuta (obediência) e o despojamento (pobreza) e a vida contemplativa como uma janela escancarada ao mundo e à vida de cada pessoa concreta. Uma forma de viver a vida em Jesus.

Não escondia a sua relação com os afetos, e interrogava-me sobre os meus – fossem eles ligados a fragilidades e feridas, ou de tonalidade mais serena e alegre. Nestas conversas aprendi com ela a descobrir a riqueza espiritual de José Augusto Mourão e de Mateus Peres.

E pude partilhar a energia de um caminho numa comunidade de mulheres (a Louise; a Mary John; a Teresa) que de forma resiliente e persistente, na relação com várias pessoas e instâncias da Igreja, procurou, com humildade e determinação, afirmar uma maneira de estar e de acolher vidas de pessoas transportando todo o tipo de vivências, as mais inesperadas que fossem. Numa conversa onde lhe contei das minhas inquietações e desafios e de como era importante ter presente a tentação do poder, do domínio, nas relações humanas e, em especial na relação médico-doente, abordou com solenidade e olhar sereno a questão de ser mulher procurando com discrição a autonomia da Palavra que dialogava com as exigências de mundos em que as vertentes de poder, nomeadamente eclesiais, eram difíceis de ultrapassar.

Um tempo antes, tínhamos percorrido o Jardim, lugar onde permaneceu até ao limite das suas forças, cuidando das flores, da cor e das cores, numa harmonia de respiração para os corações encantados e sombrios que ali passavam.

Sentadas no banco do jardim, ouvi-a discorrer sobre os comportamentos das tulipas, das violetas… e do imenso trabalho e dos “segredos” para as cuidar, tal como se sentia cuidada, com carinho, pelas suas irmãs e por tantos… Chorou a morte da Louise, como Jesus chorou a morte do amigo Lázaro. E aí falou-me do Mistério e disse: “de Deus não sabemos nada…”, “mas é, como dizia Frei Mourão, na ’soleira do instante”’, feito de luz e obscuridade “que floresce o reino / e os seus fiéis de amor se encontram”.

Ainda houve tempo para estarmos na casinha dos doces, dos ícones e quadros, dos postais e dos livros. Aí, a Irmã Maria Domingos falou-me da alegria que era a presença assídua do então padre Tolentino Mendonça, a sua ajuda para a comunidade prosseguir o caminho de abertura ao mundo, permanecendo fiel ao cuidar de tantos e “rasgando” horizontes, fazendo pontes entre isso, o silêncio, a escuta e o despojamento. Desfiando a partilha dos seus gostos, apontou para a reprodução emoldurada de Picasso – a Dança da Paz – e o postal dos amigos de Emaús. Expressou a sua afeição pela irmã Mary John e, de forma particular pela irmã Teresa e meteu-me na mão para eu ler O Vidente de Manoel de Barros. Por troca… deixo-lhe aqui outro poema do mesmo autor que lembra no meu coração a vida em abundância de Deus, da irmã Maria Domingos.

Livro de Nada

Não é por me gavar mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação, o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre-diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.”

Lisboa, 17/2/2020

Emília Leitão é médica psiquiatra

 

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