Estarão os árabes a virar as costas à religião?

| 19 Jul 19 | Entre Margens, Últimas

O senso comum no Ocidente é que a religião é inamovível no mundo árabe por ser entranhadamente cultural. Mas há notórios sinais de refluxo.

 

Segundo um estudo realizado no Médio Oriente e Norte de África pela Arabe Barometer (rede de investigação baseada na Universidade de Princeton) e citado pela BBC, os árabes estão a afirmar-se cada vez mais como não-religiosos. Estarão mesmo os árabes a virar as costas à religião? A investigação – que não incluiu os estados árabes do Golfo, por recusarem o acesso aos investigadores – avaliou onze países, concluindo que o abandono da identificação religiosa é mais acentuado no Norte de África, em especial na Tunísia, Líbia e Marrocos. Devido à guerra não foi possível desenvolver a recolha de dados na Síria.

No curto período de cinco anos, e por contraste com os dados recolhidos em 2013, o abandono da identificação religiosa mais do que duplicou na Tunísia, Líbia e Argélia (Tunísia: de 15% para mais de 30%; Líbia: de pouco mais de 10% para cerca de 25%; Argélia: de 7% para 15%). Embora com variações mais baixas, Marrocos e Egipto também seguiram a tendência de duplicação da percentagem de descrença. A excepção é o Iémen, que contrariou a tendência ao ver aumentar a filiação religiosa no mesmo período. Já no Líbano, Iraque e Territórios Palestinianos a variação é insignificante.

O objectivo desta investigação era consultar as populações árabes relativamente a uma ampla gama de questões como filiação religiosa, condição feminina, migrações, segurança e sexualidade. A população consultada foi na ordem dos 25.000 indivíduos em 10 países e Territórios Palestinianos entre finais de 2018 e a Primavera deste ano. Os dados recolhidos mostraram que, desde 2013, o número de pessoas em toda a região que se identificam como “não religiosas” subiu de 8% para 13%, sendo predominante nos menores de 30 anos.

Quanto ao direito das mulheres na vida pública, a maioria dos inquiridos declarou apoiar a eventualidade de uma mulher se tornar primeira-ministra ou presidente, à excepção da Argélia, onde menos de metade aceitou a ideia. Já quanto à relação familiar, a maioria – incluindo as mulheres – atribui aos maridos a palavra final nas decisões, excepto em Marrocos.

A metodologia utilizada incluiu entrevistas de 45 minutos, em grande parte baseadas em tablets, conduzidas por investigadores a indivíduos em espaços privados.

A inevitável ocidentalização das sociedades árabes pela mão dos fluxos migratórios, da globalização e da universalização dos meios de comunicação social, sem esquecer a internet e as redes sociais, terão dado certamente o seu contributo para a presente tendência caracterizada por um pendor mais secular e laico. Por outro lado, a demografia nestes países resulta em quadros populacionais de idades mais baixas, dados os níveis de natalidade, e os jovens manifestam sempre abertura ao novo, apelo pela aventura e atracção pelo desconhecido, sendo menos fiéis à transmissão dos costumes e tradições pelas gerações anteriores.

O nível de vida na Europa e Estados Unidos é muito mais apelativo, a oferta cultural diversificada, assim como os altos níveis de conforto quando comparados com tais sociedades, bem como as possibilidades do lazer. O facto é que aumentou o número de pessoas que partem para os Estados Unidos e, embora a Europa seja menos popular do que era, continua a ser a melhor escolha para as pessoas que pensam deixar a região. Em todos os países e territórios do estudo se concluiu que pelo menos uma em cada cinco pessoas pensava emigrar, essencialmente por razões económicas, mas no Sudão esse desejo representa metade da população. A propaganda oficial contra Israel, a América e o Ocidente em geral, em boa parte desses países e territórios, não consegue anular a atracção que tais destinos exercem na juventude.

Apesar de tudo ainda se conservam laivos de mentalidade medieval em parte da população, em particular em sete destes países onde o conceito de homicídio de honra, isto é, matar alguém por supostamente ter desonrado a família, é considerado mais aceitável do que a homossexualidade.

Embora se tenha acabado por revelar quase um fiasco político, a verdade é que a chamada “primavera árabe” funcionou como uma janela de esperança para as camadas mais jovens, que assumiram serem possíveis outros amanhãs nunca antes por eles experimentados. Sobretudo terão integrado que existe uma outra forma de organização social que dispensa os rígidos ditames religiosos impostos às populações, remetendo assim a religião para o domínio das escolhas e opções individuais.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

 

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