“Onde pertence a festa de Jesus? Nas ruas dos pobres que seguem Jesus, ou na igreja dos baptizados, confirmados e estabelecidos? Eu decidi-me pela festa que está aberta a todos e para a qual são convidados os cansados e oprimidos. (…) A Ceia de Jesus não é uma refeição de igreja para pessoas que pertencem à própria denominação. É o banquete de Cristo crucificado, cujas mãos estão estendidas a todos.”
Jürgen Moltmann

Salvador Dali, O Sacramento da Última Ceia, Galeria Nacional de Arte, Washington, D.C.
A Igreja sempre teve problemas em relação ao que fazer com a Eucaristia, ou Ceia do Senhor, como é conhecida noutras denominações cristãs. Deixem-me dizer algo que talvez escandalize muitos: o epicentro do culto dos primeiros cristãos não era um púlpito, mas uma mesa eucarística. Os primeiros relatos que temos acerca da Eucaristia encontram-se nas cartas de Paulo. A kyriakon deipnon, ou seja, a Ceia do Senhor, era inicialmente uma verdadeira refeição (1 Coríntios 11:17-22), em alguns aspectos, muito semelhante aos banquetes comunitários ou ágapes do mundo helenístico, onde patronos de associações voluntárias ofereciam jantares formais, partilhando uma refeição (deipnon), uma libação de vinho ao deus, seguindo-se de um simpósio com discursos e outras actividades.
Porém, a ceia cristã distinguia-se dos banquetes helenísticos em alguns aspetos essenciais. Em primeiro lugar, realizava-se sob o senhorio de Cristo e não em honra de uma divindade pagã. Em segundo lugar, as comunidades cristãs caracterizavam-se por uma grande diversidade social, reunindo homens e mulheres, escravos e livres, judeus e gentios, ricos e pobres. Por fim, essas reuniões podiam também reflectir diferentes costumes culturais: no ambiente latino era habitual que homens e mulheres jantassem juntos, enquanto nos contextos gregos as mulheres tomavam a refeição separadamente e não se reclinavam à mesa. Esta Ceia era, de certo modo, revolucionária, pois, se na forma adoptava o modelo cultural helenístico, na essência transformava o seu significado e a sua dinâmica social à luz da nova identidade cristã, onde todos, sem excepção do seu estatuto, género, raça, estado social, eram convidados para a mesa do Senhor.[i]
No século II, sabe-se que a Eucaristia ou Ceia do Senhor começava já a ser restringida, essencialmente, aos membros aprovados por cada uma das diferentes comunidades cristãs, algo que, de certa maneira, não mudaria muito até ao presente. O autor da Didache, também conhecida por Instrução dos Doze Apóstolos, com base na hermenêutica que fazia do texto de Mateus 7:6, recomendava “que ninguém coma ou beba da vossa Acção de Graças (Eucaristia), senão aqueles que foram baptizados em nome do Senhor; pois a este respeito também o Senhor disse: Não dêem aos cães o que é santo”.
Uma opinião semelhante é a de Justino, o Mártir (100-150 d.C.), que defendia que ninguém podia participar da eucaristia “senão aquele que acredita que são verdadeiras as coisas que ensinamos, que foi lavado no banho que é para a remissão dos pecados e para a regeneração (baptismo), e que vive conforme Cristo ordenou.”[ii]
Posto isto, e tendo em conta que nos dois primeiros séculos da era cristã houve uma evolução gradual da prática e significado da Eucaristia, será justo indagar, ainda que sumariamente, se essa prática exclusivista da Ceia do Senhor estaria ou não de acordo com as práticas comensais de Jesus, incluindo a última que teve com os seus discípulos. Das muitas vezes que vemos Jesus à mesa – e Ele partilhou-a com uma variedade grande de pessoas –, não encontramos uma sequer em que O vejamos impor quaisquer limites ou restrições, tendo em conta que ceou com publicanos e pecadores (Mateus 9:10-11, Marcos 2:15-17); que comeu em casa de fariseus, sendo ungido por uma mulher pecadora (Lucas 7:36-50); e que, na última ceia, jantou e lavou os pés a um discípulo que sabia que o ia trair (João 13:2-30). Fora dos evangelhos, temos ainda aquele episódio descrito nos Atos dos Apóstolos, capítulo 10, em que Pedro fica perplexo ao ser compelido por Deus a partilhar a mesa como os gentios.

Lorna May Wadsworth, A Santa Ceia, catedral anglicana de St Albans, Reino Unido.
Ao longo dos muitos anos que já levo de caminhada cristã, tenho pensado várias vezes em como a Ceia do Senhor tem sido frequentemente objecto de divisões e conflitos. É que, não obstante o significado que a mesma tenha para cada tradição cristã – para os católicos e ortodoxos, ela é entendida como um verdadeiro sacramento, onde o pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e sangue de Jesus, enquanto para a maioria das igrejas protestantes, é entendida como um memorial –, esquecemo-nos do facto essencial de que a mesa não é pertença de ninguém, nem sequer organizada por uma igreja ou denominação específica: ela é a mesa e a Ceia do Senhor.
Um grande teólogo recentemente falecido, Jürgen Moltmann, afirmava que, embora a mesa esteja no centro da vida e, portanto, exista como evento unificador, ela continua a ser também fonte de divisão entre irmãos de diferentes tradições, seja através dos vários cismas, seja através de conflitos denominacionais.[iii] Mas, continua Moltmann, a Igreja deve a sua vida ao Senhor, e a sua comunhão à sua Ceia, e não o contrário. O seu convite dirige-se a todos aqueles a quem ele é enviado a convidar. Se uma igreja limitasse, por iniciativa própria, a abertura do seu convite, estaria a transformar a Ceia do Senhor na ceia da igreja, e a colocar a sua própria comunhão no centro, e não a comunhão com o Senhor.[iv] E isso coloca-nos novamente perante a questão incontornável: quem convidaria Ele?
Temos de reconstituir a mesa do Senhor como elemento central do culto da Igreja. Primeiro, porque ali está reunida toda a Sua Igreja, sem quaisquer marcas divisórias ou de identidade. Segundo, porque a mesma é o sacramento por excelência de comunhão, onde o próprio Senhor, e não nós, é quem convida e acolhe. E por último, porque a mesa é lugar de acolhimento e alimento, e, portanto, de partilha. Na mesa do Senhor, o Seu Corpo, que também somos todos nós (1 Coríntios 12:14-31), é partido por muitos. Nesse sentido, a Igreja não é apenas uma comunidade que comunga ou participa do Corpo de Jesus, mas também uma comunidade que se deixa partir em serviço, reconciliação entre os irmãos e o mundo, e missão.
Assim, enquanto verdadeiros agentes do Reino, levamos soluções concretas de sustento aos mais vulneráveis e necessitados, proclamamos a gratuidade da mesa de Jesus — lugar de verdadeira comunhão e cura — e tornamos o Reino visível como uma hospitalidade radical que tudo transforma. Tudo por amor d’Ele. Esta mesa, a meu ver, deveria ser então esta festa que Moltmann tão bem soube idealizar, nas suas memórias, “onde pertence a festa de Jesus? Nas ruas dos pobres que seguem Jesus, ou na igreja dos baptizados, confirmados e estabelecidos? Eu decidi-me pela festa que está aberta a todos e para a qual são convidados os cansados e oprimidos. (…) A Ceia de Jesus não é uma refeição de igreja para pessoas que pertencem à própria denominação. É o banquete de Cristo crucificado, cujas mãos estão estendidas a todos.”[v]
[i] Para um melhor estudo acerca da Kyriakon Deipnon (Ceia do Senhor), recomenda-se um dos melhores estudos feitos através dos comentários a 1 Coríntios feito pelo padre Raymond F. Collins and Daniel J. Harrington, First Corinthians, Sacra pagina series, (Collegeville, Minn.: Liturgical Press, 1999).
[ii] Primeira Apologia de Justino, o Mártir, capítulo 66. URL: https://www.liriocatolico.com.br/padres_igreja/view/sao_justino_martir/primeira_apologia/
[iii] Jürgen Moltmann, The Church in the Power of the Spirit: A Contribution to Messianic Ecclesiology (London: SCM Press, 1977), 244.
[iv] Moltmann, The Church in the Power of the Spirit: A Contribution to Messianic Ecclesiology, 244-55.
[v] Jürgen Moltmann, A Broad Place: An Autobiography, 1st Fortress Press ed. (Minneapolis: Fortress Press, 2008), 164.
Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
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