Este país ainda não é para velhos

| 28 Out 2020

A pandemia só veio tornar evidente o abandono social dos mais velhos. Colocar um familiar num lar de idosos tornou-se potencialmente perigoso, por isso há que apostar num novo modelo de respostas sociais para os seniores.

Foto Misericórdia de Bragança - covid-19; Idosos

Foto Misericórdia de Bragança – covid-19; Idosos. Foto: Misericórdia de Bragança

 

Se esta pandemia provou alguma coisa foi que o sistema dos lares de idosos está desenquadrado da realidade e precisa urgentemente de uma revolução. O sistema de saúde chiou mas tem-se aguentado e respondido às necessidades, o ensino adaptou-se, assim como o sector dos serviços, do comércio e a indústria, embora com perdas significativas. Mas tem havido uma razia entre os mais velhos que se encontram institucionalizados e com um estado de saúde mais frágil ou vulnerável.

Como é previsível que as pandemias se venham a tornar mais frequentes, caso os seres humanos não ganhem juízo na sua relação com o ambiente e os recursos naturais, é bom que as sociedades se preparem para o pior, pois ficou claro que a forma como temos lidado com os mais velhos não responde às necessidades. Colocar uma pessoa de família num lar de idosos tornou-se potencialmente perigoso. Sabe-se hoje que dois em cada cinco mortos residiam em lares, pelo que essa resposta social regista 40% dos óbitos por covid-19 em Portugal.

Já não bastava o fenómeno do idadismo, isto é, a discriminação de cidadãos em função da idade mais avançada, que leva a desconsiderá-los, tratando-os como um peso morto da sociedade, em especial depois de abandonarem a vida activa. Foi no tempo da troika, de má memória, que se promoveu tal injustiça, quando se passou a considerar as cãs brancas como uma chatice e um entrave à afirmação dos jovens no mercado de trabalho. Entretanto, S. Paulo dizia ao seu discípulo Timóteo: “Não repreendas asperamente o ancião, mas admoesta-o como a um pai (…) As mulheres idosas, como a mães” (1 Timóteo 5:1,2).

A cegueira do mundo ocidental é atroz, quando noutras sociedades os mais velhos são considerados repositórios de sabedoria, uma espécie de guias da comunidade. Não esqueçamos que as cidades da antiguidade eram dirigidas normalmente por um colectivo de anciãos, que se reunia habitualmente junto às portas, de entrada de modo a receberem em primeira mão as novas trazidas pelos viajantes e mercadores que ali chegavam.

Cerca de quarenta organizações em todo o mundo lançaram a Old Lives Matter contra o idadismo, pois a vida dos idosos também importa, vale como todas as vidas. A Sociedade Francesa de Geriatria e Gerontologia já veio dizer que o idadismo é “a discriminação mais universal e aumentou durante a pandemia, sobretudo pela ausência de diálogo com os interessados e as suas famílias quanto às medidas tomadas, em particular no quadro das instituições. Acrescentam os investigadores que os mais velhos discriminados vivem, em média, menos sete a oito anos.”

A pandemia só veio tornar evidente o abandono social dos mais velhos. Temos hoje, como resposta social mais significativa, os lares de idosos, muitos deles ilegais e outros que não dispõem dos recursos humanos mínimos para responder às necessidades. Nem todos dispõem de médico, enfermeira, massagista, nutricionista ou de uma técnica de animação social que dinamize as muitas horas de ócio e tristeza que os utentes passam, inertes e absortos, sem nada para fazer.

Há que apostar num novo modelo de respostas sociais para os seniores, desde um apoio domiciliário muito mais generalizado, de modo a manter os utentes nas suas casas, sempre que possível, até à cedência de quartos de pessoas idosas que vivam sozinhas, a jovens estudantes do ensino superior, resolvendo assim dois problemas – a falta de residências universitárias e a solidão dos idosos. Mas também as aldeias seniores, que ajudam a preservar a autonomia e a privacidade, mas que oferecem todos os serviços necessários, de modo a que as pessoas se sintam parte da comunidade e combatam a solidão e o desenraizamento. E com alguma imaginação o modelo das aldeias seniores pode e deve ser reproduzido nos centros urbanos.

Se a solidão é um problema comum e geral do nosso tempo, nos mais velhos pode tornar-se uma verdadeira doença. Um estudo concluiu que pessoas cujos cônjuges morreram têm uma maior probabilidade de morrer nos três primeiros meses seguintes.

Os serviços de segurança social carecem frequentemente de flexibilidade. Dificilmente revelam imaginação para esboçar novas respostas sociais. Mas porque a sociedade está a mudar rapidamente, tudo tem que mudar. Acontece até o caricato de a Segurança Social rejeitar apoio a projectos válidos que lhe são apresentados, apenas porque não se enquadram nas valências já existentes, mas depois as suas técnicas de serviço social contactam essas instituições que se recusaram antes a apoiar, a pedir soluções para os seus utentes, visto não encontrarem respostas dentro do sistema…

É de esperar que as verbas que virão da UE sirvam para lançar uma revolução inovadora na forma como o Estado trata os seus idosos. Se não for agora, quando será?

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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