Estende a tua mão ao pobre

| 14 Nov 20

Voluntário dos Mensageiros da Paz, na Igreja de San Antón, em Madrid, a servir o pequeno-almoço, dentro da igreja, a pessoas sem-abrigo. Foto © António Marujo/7Margens

 

É esse o lema para o IV Domingo Mundial do Pobres que neste domingo, 15, se assinala. Estou convencido de que não foi por mero ajustamento de calendário que o Papa Francisco marcou como último ato celebrativo do Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia um grande encontro com os pobres que responderam ao seu convite para se deslocarem a Roma, a fim de que ele pudesse estar com eles para ouvir as suas histórias de vida e, sobretudo, os abraçar.

Tive a graça de estar presente. Foi impressionante ouvir alguns, em nome de todos, dizerem ao Papa: “Obrigado! Tu és a nossa voz. Tu és a nossa força. Tu és o nosso defensor. Não nos abandones”. No dia a seguir a este grande encontro, realizou-se o encontro maior para os cristãos católicos que é a Eucaristia. Os pobres ocuparam os primeiros lugares junto ao altar. Alguns integraram mesmo o cortejo litúrgico. Não se tendo feito memória do ato que antecedeu a instituição da refeição sagrada, tudo apontava para o mesmo simbolismo que Jesus quis dar, ao lavar os pés aos seus apóstolos.

Sempre que participo na missa, é raríssimo lembrar-me que antes da primeira acontecer, Jesus se ajoelhou diante dos seus amigos e lhes lavou os pés. Seria bom que, este gesto não se realizasse apenas em dia de Quinta-Feira Santa, mas que pudesse servir, algumas vezes, como rito penitencial. Foi durante a celebração da Eucaristia com os pobres que o bispo de Roma anunciou que, a partir do ano seguinte (2017), o XXXIII Domingo do Tempo Comum passaria a ser, para os cristãos católicos e demais pessoas que entendessem abraçar esta iniciativa, o Dia Mundial dos Pobres.

Será que a grande parte dos católicos portugueses, passado quatro anos, já saberão que o Papa teve esta iniciativa e dedicam esse domingo, com alguma atividade, às pessoas pobres residentes na área geográfica da sua paróquia? Como gostaria que todos os sacerdotes, que presidam às eucaristias que neste domingo se celebrarem em todo o país, fizessem alguma referência a situações de injustiças que levam o número escandaloso de pessoas a viver em situação de pobreza. Seria tão benéfico que nas homilias utilizassem alguns trechos da mensagem que Francisco escreveu para este dia.

Deixo dois pequenos trechos que proponho à reflexão dos leitores cristãos católicos: “São inseparáveis a oração a Deus e a solidariedade com os pobres e os enfermos. Para celebrar um culto agradável ao Senhor, é preciso reconhecer que toda a pessoa, mesmo a mais indigente e desprezada, traz gravada em si a imagem de Deus” (n.º 2). Será que temos consciência disto sempre que nos referimos aos pobres? Temos em conta o respeito pela sua dignidade, quando lhe damos esmolas e nos esquecemos de reivindicar direitos que lhes pertencem por serem pessoas? “‘Estende a tua mão ao pobre’ faz ressaltar, por contraste, a atitude de quantos conservam as mãos nos bolsos e não se deixam comover pela pobreza, da qual frequentemente são também cúmplices, também eles. A indiferença e o cinismo são o seu alimento diário” (n.º 9).

Alguém se pode identificar cristão se vive, permanentemente, neste estado de indiferença? Se todos os que nos dizemos cristãos católicos – a começar por mim – estendêssemos mais vezes as mãos para levantar os que estão caídos nas valetas da vida e fazer com que reergam dignidades espezinhadas e não passássemos ao lado com as mãos nos bolsos onde guardamos a indiferença, os preconceitos, as suspeições infundadas, o nosso país não teria mais de dois milhões de pobres.

Grande responsabilidade a nossa. Por isso, recordo muitas vezes a pergunta que, algumas vezes, ouvi fazer o saudoso prof. doutor Alfredo Bruto da Costa: Com tantas respostas sociais dirigidas pela Igreja Católica, tantas iniciativas caritativas, tantos sermões enaltecendo a fraternidade, tantos grupos sociocaritativos, como temos ainda tantos pobres em Portugal?

Encontro em mais um trecho da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial dos Pobres a iluminação para aprofundar a questão que atormentava o meu amigo Alfredo: “O encontro com uma pessoa em condições de pobreza não cessa de nos provocar e questionar. Como podemos contribuir para eliminar ou pelo menos aliviar a sua marginalização e o seu sofrimento? Como podemos ajudá-la na sua pobreza espiritual? A comunidade cristã é chamada a coenvolver-se nesta experiência de partilha, ciente de que não é lícito delegá-la a outros. E, para servir de apoio aos pobres, é fundamental viver pessoalmente a pobreza evangélica. Não podemos sentir-nos tranquilos, quando um membro da família humana é relegado para a retaguarda, reduzindo-se a uma sombra. O clamor silencioso de tantos pobres deve encontrar o povo de Deus na vanguarda, sempre e em toda a parte para lhes dar voz, defendê-los e solidarizar-se com eles perante tanta hipocrisia e tantas promessas não cumpridas, e para os convidar a participar na vida da comunidade (n.º 4).

[Texto integral da mensagem do Papa para o Dia Mundial dos Pobres 2020]

Eugénio Fonseca é presidente da Cáritas Portuguesa

 

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