2021-2022, marcas do tempo (4)

Esther e a orquestra feminina de Auschwitz: Passagem de testemunho

| 30 Dez 2021

Esther Bejarano numa sessão em 27 de janeiro de 2018, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Foto © Sven Teschke / Creative Commons CC-by-sa-3.0 de

O ano de 2021 foi o ano de 2021 que todos já conhecemos. O ano em que a pandemia não deu tréguas, o ano da vacinação, o ano de novos negacionismos e de novas, tão velhas, desigualdades, o ano das máscaras que permanecem e o ano dos abraços que se continuam a adiar. 

Mas o ano de 2021 foi, também, uma manhã de sábado em que a mão amiga de Rita Dantas me escreveu trazendo a triste notícia da morte de Esther Bejarano, uma das últimas sobreviventes de Auschwitz e da sua Orquestra Feminina. Esther Bejarano tinha 96 anos e morreu no dia 10 de julho de 2021. Na manhã desse sábado, relembrei, com profunda comoção, o encontro que eu e alguns alunos do Projeto N.O.M.E.S. tivemos com Esther, na Escola Alemã de Lisboa, a 18 de fevereiro de 2020, pouco antes de o mundo fechar, mas continuar a ser palco de tantos ódios e extremismos. 

No dia 19 de fevereiro de 2020, nove alunos que frequentavam o Projeto N.O.M.E.S. (Nomes e Olhares para a Memória e o Ensino da Shoá), da Escola Secundária da Maia, e estavam a estudar a Orquestra Feminina de Auschwitz e a história de vida de algumas das mulheres que nela participaram, acompanhados por mim e por uma encarregada de educação, deslocaram-se até à Escola Alemã de Lisboa para um emotivo encontro com a sobrevivente daquela orquestra, Esther Bejarano.

Chegado à Escola Alemã, o grupo foi recebido pela Rita, elemento do Departamento de Comunicação desta instituição de ensino, e a principal responsável por ali nos encontrarmos. Pelas dez horas, fomos conduzidos ao grande auditório da Escola e só então percebemos que iríamos ter o privilégio de assistir a praticamente todo o espetáculo que havia decorrido na noite anterior naquele mesmo espaço. Primeiro visionámos o espetáculo “Circo. Liberdade. Gleichschaltung”, do Circo CiNS, baseado na história de Irene Bento, uma artista de circo judia, que foi perseguida pelos nazis, tendo sido proibida de trabalhar. Irene esteve escondida num circo ariano durante todo o período nazi, escapando assim à deportação e sobrevivendo com parte da sua família. Como escreveu a Mariana, já este espetáculo “deu a entender que a perseguição aos judeus foi um processo gradual”, referindo ainda a aluna que começou a questionar-se “como é que tanta gente, ao ver as medidas cada vez mais extremas serem tomadas consentiu com o processo ou preferiu fingir que nada estava a acontecer!”

Este espetáculo terminou e Esther Bejarano chegou ao palco. E quem era aquela mulher tão franzina? Que história estava ela ali a contar? Esther Bejarano era uma sobrevivente de Auschwitz. Foi membro da sua Orquestra Feminina, para onde entrou fingindo saber tocar acordeão (sabia tocar piano, mas não havia pianos em Auschwitz). Esther explicou que sobreviveu a Auschwitz, para onde foi deportada em 1943 e onde passou sete meses, devido à música. Na Orquestra, apesar de várias doenças que contraiu, foi sempre salva pela música. Passou a tocar flauta quando, após um internamento, foi substituída por uma célebre acordeonista e aprendeu a tocar guitarra por indicação da chefe de orquestra, depois de ter desenvolvido tosse convulsa, para não ter que abandonar as melhores condições de que usufruíam as prisioneiras que pertenciam a este conjunto musical.

Esther Bejarano em Lisboa, em 18 de fevereiro de 2020, com os estudantes e a professora Sandra Costa, da Escola Secundária da Maia. Foto: Direitos reservados.

 

Por ser considerada “mestiça” (tinha uma avó cristã), Esther teve a possibilidade de se inscrever num envio de prisioneiras para o campo de Ravensbrück. Hesitou por não querer abandonar as suas amigas da Orquestra, mas foram estas que a convenceram a ir, pois em Auschwitz nunca ninguém estaria a salvo, mesmo pertencendo à Orquestra, e a probabilidade de ela sobreviver noutro campo e contar a história daquelas mulheres seria muito maior. 

No final da guerra, Esther foi obrigada, ainda, a participar numa marcha da morte e descreve assim o momento da sua libertação: “Estávamos numa marcha da morte, em Mecklenburg, eu e sete mulheres que também tinham vindo de Auschwitz para Ravensbrück. Não sabíamos para onde nos levavam e, ao fim de cinco dias de marcha, ouvimos um SS dizer a outro que já não podiam atirar. Decidimos fugir do grupo e seguir sozinhas. Escondemo-nos atrás de árvores ou arbustos, uma de cada vez, quando o grupo passou por uma floresta. Esperámos algum tempo, até nos parecer que estávamos em segurança. Não havia nenhum SS à vista. Tirámos as roupas de prisioneiro e deitámo-las fora. Juntámo-nos às muitas pessoas de Berlim e arredores que estavam na estrada, com malas, em fuga do exército vermelho. Não sabíamos para onde iam. Quando chegámos a uma aldeia, um agricultor deixou-nos dormir no seu celeiro. Não dizíamos a ninguém que vínhamos dos campos de concentração, tínhamos demasiado medo. A guerra ainda não tinha terminado, as SS ainda lutavam. No dia seguinte, o agricultor acordou-nos e disse-nos: ‘Se forem para a esquerda, encontram os americanos. Se forem para a direita, encontram os russos.’ Mas não tivemos de tomar nenhuma decisão, porque nesse momento apareceram dois tanques americanos. Mostrámos aos soldados os números tatuados no braço. Os soldados içaram-nos para os tanques e levaram-nos para Lübz, onde nos convidaram para ir a um restaurante. Eu e uma amiga minha sabíamos inglês e contámos o que t

Esther Loewi (depois Bejarano) ainda criança.

ínhamos vivido – inclusivamente sobre a orquestra de raparigas de Auschwitz. Daí a pouco entrou um soldado com um acordeão e disse que era altura de cantar. A seguir ouvimos uma grande barulheira na rua: soldados do Exército Vermelho tinham entrado na aldeia e anunciavam que o Hitler estava morto e a guerra tinha terminado. Os soldados americanos e russos festejaram juntos e queimaram uma grande fotografia do Hitler, enquanto eu tocava acordeão. Foi fantástico.”

Depois do seu extraordinário testemunho, Esther respondeu ainda a várias questões colocadas pelo público estudantil presente. Tendo o nosso grupo tido a oportunidade de colocar apenas uma questão, os alunos escolheram aquela que lhes pareceu mais importante entre as muitas que tinham elaborado: “Auschwitz mudou a forma como acredita em Deus?” Esther, como relatou a aluna Mariana Almeida, explicou que “nem sequer vinha de uma família ortodoxa, ou seja, não era muito religiosa, o que é irónico tendo em conta que era o facto de ser judia a razão pela qual fora presa! Referiu também que depois da trágica experiência que viveu deixou de acreditar em Deus”, o que na opinião da aluna “é compreensível”. Já o Lourenço considerou aquela “resposta bastante interessante, visto que […] achava que Esther ia responder exatamente o oposto, uma vez que tinha sobrevivido poderia ainda mais confiar em Deus”.

Após este período de perguntas, fomos ainda alegremente surpreendidos pela notícia de que Esther iria dar um breve concerto em conjunto com o grupo de música Microphone Mafia. Como refere o Lourenço, “uma das canções interpretadas pelo grupo foi Du hast Glück bei den Frauen Bel Ami (“Tens sorte com as mulheres, Bel Ami”) uma música popular no tempo da guerra e também a música que Esther tocou nos testes para entrar na Orquestra Feminina de Auschwitz. 

Quando soube disto, admirei ainda mais a coragem e a força de Esther, porque estava a tocar uma música que provavelmente lhe trazia memórias terríveis e, portanto, muito sofrimento” e estava ali a cantá-la com grande alegria. 

No final, tivemos o privilégio de nos encontrarmos brevemente com Esther no palco. 

Esther Bejarano em Lisboa, em 18 de fevereiro de 2020, com os estudantes e a professora Sandra Costa, da Escola Secundária da Maia. Foto: Direitos reservados.

 

Como referiram vários alunos, “fomos entregar-lhe o nosso presente, um ramo de rosas e uma espécie de acordeão, que tinha sido elaborado com muito esforço” e que “ilustrava vários episódios marcantes da sua vida. Esse foi sem dúvida o momento mais emocionante do dia”. “Podíamos ver a emoção nos olhos de todos. As lágrimas de muitos olhos caíram quando ela disse: Don’t forget. No to war. (“Não se esqueçam. Não à guerra”). Disse-o numa voz muito querida e calma”, pelo que senti necessidade de lhe dizer Dear Esther, you don’t believe in God, but you believe in good (“Querida Esther, não acredita em Deus, mas acredita no bem”), ou não estaria ali, naquela sala, a falar com centenas de alunos portugueses pedindo-lhes que eles não esquecessem e dissessem não à guerra. Como escreveu, ainda, a Mariana, “naquele momento todos nós percebemos que era nossa obrigação para com toda a gente que sofreu com o Holocausto, para com Esther e com nós mesmos fazer tudo o que está ao nosso alcance para não esquecer e para não deixar outra guerra assim acontecer!” Ou, como salientou o Lourenço, “no final do dia apercebi-me que somos nós, os jovens, que temos o poder de impedir que isto aconteça outra vez”; ou ainda, como concluiu a Maria Teixeira, que deve lutar contra “o crescimento da extrema-direita no mundo e contra o racismo”. Como referimos todos na viagem de regresso, “não nos vamos esquecer nunca”.

Esther à esquerda a tocar acordeão. Foto: Direitos reservados.

De facto, Esther Bejarano dedicou a sua vida a manter visível a memória do Holocausto, testemunhando. Aos 95 anos continuava em digressão, especialmente pelas escolas alemãs e, no dia 3 de maio de 2021, 76 anos após ter sido libertada, fez o seu último discurso público, em Hamburgo, deslocando-se já em cadeira de rodas, mas continuando com uma voz clara e um discurso pleno de intenção. Nesse dia, começou por citar o poeta alemão de origem judia, Heinrich Heine, e a sua crença de que tinha chegado “o tempo […] em que as nações já não serão contadas por cabeças, mas por corações”; evocou o momento da sua libertação na pequena cidade de Mecklenburg, o convívio através da música com as tropas americanas e soviéticas, a celebração da paz; recuperou exigências que tinha escrito, em conjunto com o Comité Internacional de Auschwitz, numa carta aberta dirigida ao Governo alemão; afirmou que “a saúde não é uma mercadoria”, no contexto da luta contra a pandemia; lembrou o campo de refugiados de Moria (Grécia) e se alguma vez nos poderemos perdoar se olharmos indiferentemente para o que se passa com os refugiados; exigiu demarcações claras contra o crescimento da extrema-direita e do antissemitismo na Alemanha; afirmou: “Precisamos de recordar mais, não menos. Tornar diferentes experiências visíveis. O legado colonial do império alemão, a tematização da violência policial pelo movimento Black Lives Matter – na sociedade pós-migrante, os afetados pelo racismo exigem visibilidade não só no presente, mas também para o passado”; e, finalmente, como em Lisboa, em 2020, como em todos os palcos onde falou, apelou a que não fiquemos calados quando assistirmos a injustiças, apelou a que lutemos por uma sociedade diferente, melhor, sem discriminações, apelou à resistência contra o fascismo, à solidariedade, à coragem, confiando na juventude que, como Esther, gritará NUNCA MAIS À GUERRA.

Esther Bejarano dedicou a sua vida a manter visível a memória do Holocausto. Foto: Jwh at Wikipedia Luxembourg, CC BY-SA 3.0 LU, via Wikimedia Commons.

É, afinal, esta passagem de testemunho que é preciso continuar a fazer, porque virá o dia, mais cedo do que tarde, em que não haverá mais sobreviventes do Holocausto. É preciso continuar a proporcionar aos nossos jovens experiências de proximidade com os testemunhos na primeira pessoa, ou já na segunda pessoa (filhos, netos de sobreviventes), para que eles possam também ser testemunhos na terceira, quarta pessoa, não por “uma religião civil do Holocausto”, perigo em que se pode incorrer, como escreve Enzo Traverso, não porque os sobreviventes sejam heróis, como tão bem descreveu Primo Levi em Os que sucumbem e os que se salvam, mas porque as “testemunhas completas” foram aqueles que “não regressaram, ou a sua capacidade de observação foi paralisada pelo sofrimento e pela incompreensão” e alguém tem de testemunhar, de não os deixar esquecer. “Os sobreviventes puderam testemunhar a sua experiência, um fragmento do acontecimento histórico em que tinham estado envolvidos” escreve Traverso, interpretando Primo Levi e, agora que também estes partem, emudecendo-se as vozes que eram já de si pedaços de memória, há que dar continuidade à passagem de testemunho, entregando a estafeta aos mais novos, para que o mundo nunca se esqueça de que somos todos capazes do bem, do mal e da indiferença, e que mesmo que não acreditemos em Deus, como Esther Bejarano, acreditemos todos, como ela, no nosso poder para transformar o mundo num mundo melhor.

26 de dezembro de 2021

 

[Com os testemunhos dos alunos do Projeto N.O.M.E.S. – Afonso Teixeira, Lourenço Pacheco, Maria João Pereira, Maria Teixeira, Mariana Almeida, Renata Ferreira, Tomás Biscaia e Tomás Miranda, do 9.º C, e Teresa Cunha, do 9.º D, da Escola Secundária da Maia, ano letivo 2019/2020]

Um vídeo de Esther Bejarano com o grupo Microphone Mafia pode ser visto a seguir:

 

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