Esther Mucznik apresenta queixa por “ofensa antissemita” na mesa de voto

| 12 Mar 2024

Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa, no colóquio sobre “A Democracia e a Liberdade Religiosa”, na Assembleia da República, em junho de 2023. Imagem captada da transmissão da AR-TV.

 

Foi no momento e no lugar em que menos esperava. Esther Mucznik, uma das figuras mais conhecidas da comunidade israelita em Portugal, garante que nunca tinha sido alvo de atos de ódio antissemitas no país onde nasceu, há 77 anos… até este domingo, 10 de março.

Quando se dirigiu à assembleia de voto, em Lisboa, para exercer o seu direito cívico, o membro da mesa a quem entregou o cartão de cidadão, atirou-lhe um seco “Não gosto!” após ter lido o seu nome. Espantada, Esther questionou: “Não gosta de quê?”. “Não gosto do nome e dos massacres que andam para lá a fazer” foi a resposta. Que não deixava margem para dúvidas: “Ele percebeu imediatamente que eu era judia, e relacionou-me com o que se passa em Gaza…”, conta ao 7MARGENS a fundadora e presidente da Associação Memória e Ensino do Holocausto – Memoshoá, para concluir: “Nós, judeus, somos reféns desta guerra, porque acabam por nos culpar por ela”, e situações como esta precisam de ser denunciadas.

Perante o silêncio e a inação das restantes pessoas na mesa de voto e na fila para votar, Esther Mucznik manteve a calma e afirmou: “Eu sou portuguesa, voto como portuguesa e como o senhor está a infringir a Lei num espaço e num dia em que a neutralidade política é uma regra, vou apresentar uma queixa a quem de direito”, dirigindo-se depois ao local indicado para preencher o seu boletim. Quando regressou para colocá-lo na urna, o membro da mesa voltou a dirigir-lhe a palavra: “Mas não tenho direito de não gostar de um nome ou pessoa?”. A antiga vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa respondeu: “Claro que tem o direito de não gostar, mas também a obrigação, em especial neste dia e aqui, de guardar para si”. E voltou a sublinhar que iria fazer uma queixa.

“Nunca me tinha acontecido uma coisa destas e nunca pensei que iria acontecer, muito menos nestas circunstâncias”, confessa Esther Mucznik ao 7MARGENS. “Vim embora magoada e a pensar com que direito é que ele podia dizer o que disse… Se me pedirem para caracterizar o que ele disse e a forma como falou, não posso afirmar outra coisa senão que se tratou de uma manifestação de antissemitismo, e que isto pode ser considerado um crime de ódio”, sublinha.

Esther Muczik partilhou o sucedido nas suas redes sociais, acrescentando que, face ao aumento do antissemitismo na sequência da guerra em Gaza, “a solidariedade de todos é fundamental”. Para a investigadora de temas judaicos, que acaba de publicar um livro onde conta a história da sua família, é essencial que as pessoas compreendam que “há muitos judeus contra a guerra e que, muito antes do dia 7 de outubro [de 2023, quando aconteceu o ataque do Hamas], milhares de israelitas saíam à rua todas as semanas para lutar pela democracia, e que muitos continuam a pedir a demissão do [primeiro-ministro de Israel] Netanyahu”.

Para isso, os meios de comunicação social, sobretudo as estações televisivas, “precisam de mostrar tudo, e não apenas o que se passa na Faixa de Gaza”, defende Esther Mucznik. “Vejo muitas vezes imagens repetidas do sofrimento em Gaza, o que não diminui em nada a tragédia que os palestinianos estão a viver ali – e eu estou solidária com eles –, mas ninguém fala nas mulheres israelitas que foram violadas, mutiladas e assassinadas pelo Hamas ou que ainda estão todos os dias à mercê dos terroristas, ou do sofrimento das famílias dos reféns”, assinala, considerando que “o facto de se ignorar deliberadamente o que aconteceu no 7 de outubro é, em si, um ato antissemita”.

Este “desequilíbrio” na informação veiculada por muitos média pode, na perspetiva de Esther Mucznik, ser um dos fatores que explicam o aumento do antissemitismo em vários países. “Em Portugal, ainda não temos números, mas eu acho que sim, que os atos antissemitas também aumentaram no nosso país”, afirma a investigadora, que regularmente assina textos de opinião no jornal Público e verifica que, “independentemente do que escreva, há cada vez mais comentários negativos”. “E eu até escrevo muitas vezes contra o Governo de Netanyahu… mas mesmo assim muitos acusam-me de ser uma sionista e há comentários verdadeiramente horríveis”, lamenta, acrescentando: “Quando leio aqueles comentários, a conclusão é que eu sou culpada da guerra que está a destruir Gaza.”

Precisamente a mesma acusação que pode ser inferida dos comentários que escutou quando foi votar no passado domingo. “Por isso, tal como disse ao senhor que os proferiu, estou a preparar a queixa à Comissão Nacional de Eleições e vou também à Junta de Freguesia, para identificar claramente as pessoas em causa”, adianta Esther Mucznik ao 7MARGENS. “Tenho algumas dúvidas sobre a eficácia destas queixas, mas espero sinceramente que haja consequências”, conclui.

 

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