Estranho Mundo
Apetece sonhar com a liberdade de não ter de cumprir horários; desfrutar momentos simples, mas encantadores; descontrair sem medir todos os gestos e sem controlar todos os afetos que se querem exprimir e se inibem pelo melhor de cada um.
Refletir sobre tudo isto e identificar barreiras a cada passo. Sorrir sem ver as bocas, desinfetar as mãos momento a momento, esfregar os pés em tapetes desinfetantes, não poder caminhar, para nós mulheres, em espaços interiores, de maquilhagem visível…
Enfim este é o mundo tal como hoje se nos apresenta.
Ao mesmo tempo surgem as festas ilegais com centenas de pessoas, danças e bebidas sem restrições e sem proteções. Como se tudo estivesse a acontecer tal e qual era antes, como se a vida pudesse ser igual, sem as almejadas descobertas de vacinas.
Não gostamos de estar assim. É certo. Não supomos o que será da nossa vida se prosseguirmos escondidos atrás de objetos que nos encobrem boa parte das nossas feições. E, por isto, todos somos chamados a ser responsáveis. A cumprir o que nos dizem ser certo e protetor.
É difícil imaginar porque tantos negam a gravidade do momento atual. Sim. Pode ser uma defesa, conhecida aliás, ativada com a intenção de o desdramatizar. Contudo, não podemos perder de vista o horizonte de um futuro que queremos que seja melhor.
Estamos a assistir a casos graves de covid-19 em todas as idades. Os mais novos parecem ter deixado de estar protegidos dos riscos deste terrível vírus. E, então, porque será que essas iniciativas de maior risco são, sobretudo, desenvolvidas pelas camadas jovens? Porque se sentem eternas? Porque a sua forma de negação é mais intensa do que a dos outros? Ou porque a disciplina é algo que custa respeitar, nas quatro dimensões que, no dizer de Scott Peck, a integram?
E quais são elas?
– Capacidade de adiar a gratificação: confiar que primeiro tem de existir o esforço e só depois se alcança o benefício;
– Sentido da responsabilidade: exigência que, neste contexto, para ser eficaz, tem de ser coletiva e consistente, informada e persistente;
– Coragem da verdade: enfrentar o que muitos escondem, alguns com intenções politicamente incorretas, mas julgadas legítimas pelos que, mesmo em tempos pandémicos, querem comprar votos ou salvaguardar cargos e prestígio;
– Equilíbrio: respeito pelo centro das coisas; não adoção de atitudes extremas ou de comportamentos limite.
Neste estranho mundo que nos é dado viver é urgente sermos novos no pensar e no sentir, termos coragem de não nos deixarmos resvalar para o mais primário que há em nós, descobrirmos os meios de que dispomos para alcançarmos a melhor versão possível do nosso ser e do nosso existir…
Enfim, fazermos, no que estiver ao nosso alcance, aquilo a que poderíamos chamar a nossa parte. De facto, não me canso de insistir neste apelo.
Não restam dúvidas de que só com o contributo de todos nos tornaremos mais humanos, mais seguros, mais esperançosos. Não temos dúvidas que não nos sobram alternativas ao empenhamento, no desempenho saudável dos nossos atuais papéis. Não ficam dúvidas que tudo isto decorre de sermos os outros dos outros, pois, para os outros, os outros somos nós ou até, melhor dito – não há dúvidas que, para este vírus, talvez nunca vão existir outros.
Queremos ser rápidos na saída deste mundo estranho que nos é, atualmente, dado atravessar. Contudo, para isso, precisamos de ser serenos no caminho que fazemos.
Não teremos pressa de viver; não teremos desejo de inventar para além do permitido; não teremos dúvidas sobre o que nos cabe fazer se nos mantivermos informados e nos permitirem ser esclarecidos.
Devemos querer comprometer-nos.
Faz-nos falta liberdade; por isso, para já, temos de nos restringir. Faz-nos falta espontaneidade; por isso, para já, temos de nos conter. Faz-nos falta sair de nós; por isso, para já, precisamos de ficar dentro das regras, dentro de algumas portas, dentro das nossas fronteiras individuais e coletivas.
Muito se tem escrito sobre a importância de nos livrarmos do medo e, claro, esse caminho que não se escolhe, mas se consegue construir, é o trajeto certo e reconhecidamente valioso. Ainda assim, há limites para essa construção que tem de ser lúcida e responsável, talvez trocada por uma boa avaliação de riscos.
Que as máscaras que temos de usar não sirvam para evidenciar o que elas permitem ver. Não mostramos sorrisos; não pomos a descoberto a sensualidade dos lábios; nós, mulheres, deixamos os batons nas gavetas porque também não fica bem colocá-los já sentadas nas mesas dos restaurantes ou em qualquer outro espaço público. Mas, com máscara, o sorriso não se vê, embora as lágrimas possam correr bem visíveis. Por isso, façamos a nossa parte para evitar essa denúncia do mais triste que pode emergir em nós. Protejamo-nos e protejamos os nossos sem perder e sem abdicar da genuína e desejável vontade de viver.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.
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Breves
José Allamano e a Consolata
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Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
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Bíblia da CEP
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A comissão coordenadora da tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa acaba de divulgar as propostas de texto para o Livro de Naum e o Livro de Malaquias e aguarda agora o contributo dos leitores para melhorar a compreensibilidade dos textos.
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Boas notícias
Apelo de Metz
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Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
[Mãos à Obra]
Projeto da Escola Básica e Secundária de Vialonga distinguido
Quando a tecnologia está nas bocas do mundo não pelas melhores razões, nada melhor para do que descortinar sinais de esperança que nos levam a ter uma outra visão sobre a mesma. As boas notícias, mesmo as tecnológicas, também fazem parte do nosso quotidiano. Hoje queremos dar-vos a conhecer o CDI – Center of Digital Inclusion através de algumas das suas iniciativas, nomeadamente o projecto Apps for Good Portugal.
Aos leitores
Problemas na “newsletter” do 7MARGENS
Desde o início desta semana que a newsletter enviada por correio eletrónico aos leitores do 7MARGENS tem chegado tarde ou com problemas de leitura.
Sondagem nos EUA revela
Pandemia não provocou a anunciada “recessão religiosa”
A percentagem de adultos americanos que dizem frequentar serviços religiosos pelo menos uma vez por mês caiu três pontos percentuais (passou de 33% para 30%) entre 2019 e 2022, não sustentando os receios de que a pandemia produzisse uma “recessão religiosa”.
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Treze anos depois da onda de violência que varreu o Estado de Orissa, na Índia, provocando mais de 100 mortos, a justiça é ainda uma miragem, denuncia a Fundação AIS. Desde 2016 que é celebrado pela Igreja em Orissa o dia dos Mártires.
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Padre haitiano morto a tiro
Um padre que dirigia um orfanato no Haiti foi morto a tiro, Andrè Sylvestre, de 70 anos de idade, foi assassinado na tarde de segunda-feira, 6 de setembro, durante uma tentativa de assalto, revelou a Fundação AIS.
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Joana Lopes: 88 cravos à sua memória
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
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Guerras e mudanças de regime
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].
Cultura e artes
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Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
Cinema
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É um feito inédito: uma produção realizada em colaboração com o Vaticano está a iniciar o processo de qualificação para os prémios da Academia de Hollywood. Trata-se de Green Lava, documentário de 39 minutos realizado por Lia Beltrami e Ali Aksu, que acompanha a vida de Giacomo Mattivi, um jovem italiano com distrofia muscular de Duchenne.
Em 17 de outubro
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Arquitetos, engenheiros, artistas, presbíteros, responsáveis de comunidades paroquiais e todos os envolvidos na construção e adequação de espaços litúrgicos estão convidados a participar no I Encontro Diocesano de Arquitetura e Artes para a Liturgia, que se realiza no próximo dia 17 de outubro, em Braga.
a importância que uma farda tem (1)
“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.
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Evangelhos em rock, Salmos em jazz, Apocalipse em hip-hop: chegou a Bíblia cantada
Toda a Bíblia pode agora ser ouvida em modo cantado, num novo projeto que recorre à Inteligência Artificial (IA) para reproduzir os textos em 16 estilos musicais diferentes.
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas novidade
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Aquele que habita os céus sorri
[Entre o quadro e o mundo (31)]
Como pode a escola construir pontes num mundo de muros?
O novo episódio do podcast Entre o Quadro e o Mundo parte da metáfora da ponte para pensar o papel da escola num tempo marcado pela polarização, pelas diferenças culturais e geracionais e pela crescente presença da inteligência artificial.
Agenda
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