Estranho Mundo

| 31 Jul 20

Chegou o Verão. Como todos os anos apetece ir de férias, descansar, parar, encontrar os que nem sempre estão perto, cruzar corações que se querem bem, quem sabe, até viajar.

Apetece sonhar com a liberdade de não ter de cumprir horários; desfrutar momentos simples, mas encantadores; descontrair sem medir todos os gestos e sem controlar todos os afetos que se querem exprimir e se inibem pelo melhor de cada um.

Refletir sobre tudo isto e identificar barreiras a cada passo. Sorrir sem ver as bocas, desinfetar as mãos momento a momento, esfregar os pés em tapetes desinfetantes, não poder caminhar, para nós mulheres, em espaços interiores, de maquilhagem visível…

Enfim este é o mundo tal como hoje se nos apresenta.

Ao mesmo tempo surgem as festas ilegais com centenas de pessoas, danças e bebidas sem restrições e sem proteções. Como se tudo estivesse a acontecer tal e qual era antes, como se a vida pudesse ser igual, sem as almejadas descobertas de vacinas.

Não gostamos de estar assim. É certo. Não supomos o que será da nossa vida se prosseguirmos escondidos atrás de objetos que nos encobrem boa parte das nossas feições. E, por isto, todos somos chamados a ser responsáveis. A cumprir o que nos dizem ser certo e protetor.

É difícil imaginar porque tantos negam a gravidade do momento atual. Sim. Pode ser uma defesa, conhecida aliás, ativada com a intenção de o desdramatizar. Contudo, não podemos perder de vista o horizonte de um futuro que queremos que seja melhor.

Estamos a assistir a casos graves de covid-19 em todas as idades. Os mais novos parecem ter deixado de estar protegidos dos riscos deste terrível vírus. E, então, porque será que essas iniciativas de maior risco são, sobretudo, desenvolvidas pelas camadas jovens? Porque se sentem eternas? Porque a sua forma de negação é mais intensa do que a dos outros? Ou porque a disciplina é algo que custa respeitar, nas quatro dimensões que, no dizer de Scott Peck, a integram?

E quais são elas?

– Capacidade de adiar a gratificação: confiar que primeiro tem de existir o esforço e só depois se alcança o benefício;

– Sentido da responsabilidade: exigência que, neste contexto, para ser eficaz, tem de ser coletiva e consistente, informada e persistente;

– Coragem da verdade: enfrentar o que muitos escondem, alguns com intenções politicamente incorretas, mas julgadas legítimas pelos que, mesmo em tempos pandémicos, querem comprar votos ou salvaguardar cargos e prestígio;

– Equilíbrio: respeito pelo centro das coisas; não adoção de atitudes extremas ou de comportamentos limite.

Neste estranho mundo que nos é dado viver é urgente sermos novos no pensar e no sentir, termos coragem de não nos deixarmos resvalar para o mais primário que há em nós, descobrirmos os meios de que dispomos para alcançarmos a melhor versão possível do nosso ser e do nosso existir…

Enfim, fazermos, no que estiver ao nosso alcance, aquilo a que poderíamos chamar a nossa parte. De facto, não me canso de insistir neste apelo.

Não restam dúvidas de que só com o contributo de todos nos tornaremos mais humanos, mais seguros, mais esperançosos. Não temos dúvidas que não nos sobram alternativas ao empenhamento, no desempenho saudável dos nossos atuais papéis. Não ficam dúvidas que tudo isto decorre de sermos os outros dos outros, pois, para os outros, os outros somos nós ou até, melhor dito – não há dúvidas que, para este vírus, talvez nunca vão existir outros.

Queremos ser rápidos na saída deste mundo estranho que nos é, atualmente, dado atravessar. Contudo, para isso, precisamos de ser serenos no caminho que fazemos.

Não teremos pressa de viver; não teremos desejo de inventar para além do permitido; não teremos dúvidas sobre o que nos cabe fazer se nos mantivermos informados e nos permitirem ser esclarecidos.

Devemos querer comprometer-nos.

Faz-nos falta liberdade; por isso, para já, temos de nos restringir. Faz-nos falta espontaneidade; por isso, para já, temos de nos conter. Faz-nos falta sair de nós; por isso, para já, precisamos de ficar dentro das regras, dentro de algumas portas, dentro das nossas fronteiras individuais e coletivas.

Muito se tem escrito sobre a importância de nos livrarmos do medo e, claro, esse caminho que não se escolhe, mas se consegue construir, é o trajeto certo e reconhecidamente valioso. Ainda assim, há limites para essa construção que tem de ser lúcida e responsável, talvez trocada por uma boa avaliação de riscos.

Que as máscaras que temos de usar não sirvam para evidenciar o que elas permitem ver. Não mostramos sorrisos; não pomos a descoberto a sensualidade dos lábios; nós, mulheres, deixamos os batons nas gavetas porque também não fica bem colocá-los já sentadas nas mesas dos restaurantes ou em qualquer outro espaço público. Mas, com máscara, o sorriso não se vê, embora as lágrimas possam correr bem visíveis. Por isso, façamos a nossa parte para evitar essa denúncia do mais triste que pode emergir em nós. Protejamo-nos e protejamos os nossos sem perder e sem abdicar da genuína e desejável vontade de viver.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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