Estudos de José Augusto Ramos reunidos

“Estudar os textos antigos como quem estuda as grandes perguntas da actualidade”

| 14 Mai 2024

José Augusto Ramos, Bíblia, História das Religiões

José Augusto Ramos, biblista e professor de História das Religiões. Foto: Direitos reservados

Olhar, revisitar e estudar textos antigos “como quem está a estudar as grandes questões e interrogações da actualidade”. É esse o sentido dado por José Augusto Ramos, biblista, tradutor e um dos grandes historiadores portugueses da Antiguidade e da História do Judaísmo, à publicação de dois volumes de estudos reunidos da sua autoria, com o título genérico Textos em Diáspora. O primeiro volume é dedicado a O Tempo e o Homem enquanto o segundo tem como foco Os Deuses e a Hermenêutica.

A sessão de apresentação da obra decorre nesta quarta-feira, 15 de Maio, a partir das 17h30, no Anfiteatro I da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com intervenções dos também professores universitários Arnaldo do Espírito Santo e Francisco Caramelo. A entrada é livre.

“São trabalhos e meditações concentrados nas grandes semânticas e no meu mundo das culturas orientais”, resultado de uma “produção de dezenas de anos” que estava distribuída por dezenas de revistas, explica José Augusto Ramos ao 7MARGENS. “É uma maneira de os fazer convergir”, a partir das semânticas, definições de ideias e conceitos” do mundo representado pela Bíblia ou em torno dela. O mundo das religiões e religiosidades daquela região do planeta, estudada desde há muito pelo professor e investigador, e que têm a ver “com a complexidade e transcendência”.

Precisamente sobre uma das zonas daquela região, a antiga Mesopotâmia e actual Iraque, José Augusto Ramos escreveu no 7MARGENS um texto em forma de pequeno guia, publicado a propósito da viagem do Papa Francisco ao Iraque, em 2021, uma das mais importantes do pontificado. “O conteúdo das memórias que sobem das profundezas deste Oriente traz consigo muito das memórias e vivências do mundo judaico-cristão das origens. O mundo da Mesopotâmia, representado agora pelo Iraque, foi realmente um espaço onde judaísmo e cristianismo deram alguns dos primeiros passos na difusão para fora da Palestina e onde por mais tempo conservaram entre si as cumplicidades da origem. Formas mistas de judaísmo e cristianismo, como os restos do movimento batista e os mandeus, mantiveram-se ali vivos durante séculos e são visíveis ainda nos dias de hoje”, escreveu na ocasião José Augusto Ramos.

 

Tradutor da Bíblia em vários projectos

Pormenor da Porta de Ishtar, atualmente no Museu Pérgamo, em Berlim. Foto © Francisco Anzola/Wikimedia Commons

Pormenor da Porta de Ishtar, no Museu Pérgamo (Berlim): A Mesopotâmia foi um espaço onde judaísmo e cristianismo por mais tempo conservaram entre si as cumplicidades da origem.” Foto © Francisco Anzola/Wikimedia Commons

Na apresentação dos dois volumes, José Augusto Ramos explica: “Os textos aqui recolhidos foram sendo escritos e publicados de forma dispersa ao longo de mais de trinta anos, ao sabor de circunstâncias e em condições sociais, institucionais e pessoais que condizem bem com os matizes e o horizonte epistemológico característicos de uma diáspora. Estão neste horizonte as interrogações que constituem o motor de busca bem explícito em alguns deles e se encontram implicitamente presentes e eficientes por dentro de quase todos.”

Essa diáspora “é um espaço de permanentes interrogações e desafios inesperados”. E acrescenta: “Pelo facto de significar saída e dispersão, a diáspora acaba por intensificar um estado de concentração no fluxo interior de conteúdos provenientes das raízes que geram identidade. É um movimento de saída que vai despoletando momentos de reencontro e valorização relativamente ao património de identidade que qualquer migrante carrega consigo como bagagem interior.”

Foi esse “caminho de diáspora” que o autor considera que sem­pre foi “percorrendo, como se fosse a atitude mental que mais naturalmente” lhe ocorre accionar e que acaba “por não significar impulsos de fuga ou traição nem sequer vontade obsessiva de heterodoxia”. Ramos admite, ainda no texto de apresentação da obra, que esse “movimento de diáspora implica e provoca, por norma, alguma sensação de afastamento com os consequentes incómodos”. Mas, acrescenta, “estes avanços de­rivados do processo hermenêutico também podem representar momentos pri­vilegiados de criatividade, momentos em que o nível de fidelidade ao núcleo essencial anterior se pode manter e até se pode acentuar”.

A hermenêutica, acrescenta o tradutor e biblista, in­tegra de forma dialéctica “a fidelidade e a inovação” e é nesse “fio sequencial de hermenêutica que se vive e se constrói a história real” e que se afirma também “a linha de continuidade das religiões”. Conclui: “Podemos dizer de modo especial que, na sequência do judeo­cristianismo, é no dinamismo intenso da hermenêutica que se encontra a verdadeira chave do crescimento e da vitalidade. Mais do que uma entrega rígida e mecânica, a parádosis ou tradição é, ela mesma, um processo hermenêutico que acontece com o radicalismo e com a naturalidade com que se processa a mudança de uma geração para outra.”

Autor de uma extensa obra publicada, José Augusto Ramos desenvolveu também uma intensa actividade de investigação e de docência da História e das línguas antigas ao longo de mais de 50 anos, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, bem como em outras universidades portuguesas e estrangeiras. Além da actividade de ensino e investigação universitária, tem sido também, nas últimas décadas, um dos tradutores mais importantes da Bíblia para português, em vários projectos. Destacam-se a Bíblia dos Capuchinhos, na qual foi também um dos coordenadores das equipas, a tradução interconfessional da Bíblia e o projecto em curso de tradução promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa.

 

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