Ética desportiva: um caminho para a transcendência

| 4 Fev 2022

Na quinta-feira, 3 de fevereiro, foi apresentado o livro Pensar à Frente – Corporeidade, Desporto, Ética, Cultura e Cidadania (ed. Afrontamento), que reúne vários estudos sobre Manuel Sérgio. Um deles é sobre a ética desportiva e a transcendência, da autoria de José Carlos Lima. O 7MARGENS publica aqui alguns excertos desse texto, numa versão preparada pelo próprio autor, e que pode ajudar à reflexão sobre este tema também no dia em que se inauguram os Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim.

 

Partindo do pensamento de Manuel Sérgio e da ideia de motricidade humana como movimento intencional para a transcendência, proponho que façamos um caminho dedicado, num primeiro momento, à ética como fundamento do desporto e, posteriormente, à ética desportiva como caminho para a transcendência. (…)

Manuel Sérgio centra todo o seu pensamento no Homem: este é o locus da sua reflexão. O humanismo marca a sua forma de ver e de pensar o Homem, a realidade que o envolve e, de forma particular, o desporto, afirmando que “não há chutos, há homens que chutam”. Porque, segundo Manuel Sérgio, não há desporto, há pessoas que o fazem! Sem valores, há golos e defesas, há passes e remates, há técnicas e táticas – mas não há Desporto! Da mesma forma que não há passes ou remates, há pessoas que rematam e pessoas que passam, isto é, o Homem ou o atleta enquanto sujeito axiológico. Por isso o desporto nasceu como ética, e sem ética não se entende a sua prática. (…)

O desporto é assim um campo fértil de aplicação de valores, uma escola paralela onde se aprende a jogar e a viver o jogo da vida. No desporto há o vencer (jogar para vencer) e o convencer (vencer com valores). Colocamos desta forma a axiologia no centro do jogo e da competição. Para a ética, o importante é o convencer; sem esta dimensão poderemos obter grandes resultados, mas, se não os atingirmos de modo verdadeiro, de nada servem. Isto é: podemos vencer por doping, corrupção e de maneira fraudulenta, tal como podemos obter uma boa nota copiando, mas jamais iremos convencer mais que não seja o reduto da nossa própria consciência. (…)

O conceito de transcendência está no centro da teoria da motricidade humana de Manuel Sérgio e pela sua mão ganha uma diversidade de significados. Se, por um lado, nos remete para a ideia de superação, de ir além dos limites, por outro, remete-nos para a ideia de elevação, realização e busca. No conceito de “superação” está presente a ideia de movimento, de progresso; no de “elevação”, a ideia predominante é a da “procura” constante que o Homem realiza na “busca” de um sentido para a sua vida — e, neste aspeto, o Homem é sujeito e fazedor da história, de tarefas a realizar. (…)

Numa perspetiva religiosa é curioso, ao contemplar o pensamento e o peregrinar de Manuel Sérgio, como Deus se faz cada vez mais presente, um Deus encarnado em Jesus Cristo, figura cimeira e exemplar para o Autor. Afirma-se um “agnóstico devoto”, mas é muito mais “devoto” que agnóstico. A “suspeita” é “detonador” no seu processo de busca, e não uma filosofia ou crença. Afirma: “Não sei quem é Deus, mas vivo como se O conhecesse” (…)

Para finalizar, em Manuel Sérgio a transcendência é o sentido da vida, pois viver é uma tentativa incessante de superação. O desporto é a mais bela metáfora desta afirmação. Concluo: se a transcendência é o sentido da vida e se entendemos que a finalidade da ética é que o homem promova o bem e se realize, então poderemos afirmar que o homem ao realizar-se encontra o seu sentido de vida. Desta forma, a ética, ao indicar o caminho para o bem, leva o homem a realizar-se; este, ao realizar-se, está a transcender-se, tornando-se assim a ética um caminho para a transcendência.

 

José Lima é coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto/Instituto Português do Desporto e Juventude

 

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