“A Pessoa no Centro: Desafios Éticos do Século XXI” foi o título do ciclo promovido pela Pastoral de Cultura da Arquidiocese de Braga, cuja quarta sessão contou com uma intervenção do arcebispo José Cordeiro. É o texto dessa conferência, que teve lugar no Auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, que o 7MARGENS reproduz a seguir, com subtítulos da responsabilidade da Redação.
A justiça é uma das virtudes cardeais. A justiça é a inclinação constante e perene da vontade em dar a cada um o que lhe pertence. As nossas relações com os outros têm de ser vividas na fraternidade. Ninguém pode passar à vida cristã se não passar pelas virtudes cardeais ou naturais.
A justiça põe em ordem a vida. Não se trata de um presente ou oferta, mas do que devo fazer em relação ao outro. A justiça torna-se autenticidade. Temos de ser justos para sermos felizes.
A Bíblia canta a justiça e mostra-a aliada da paz: «A justiça caminhará à sua frente (…) abraçaram-se a paz e a justiça» (Salmo 84).
A justiça é virtude moral e conceito legal. Às vezes é representada com os olhos vendados. Todavia, é próprio da justiça estar atenta e vigilante, para garantir o equilíbrio entre direitos e deveres, e promover a partilha equitativa de ónus e benefícios. «A justiça restaura, não destrói; e, antes que impelir à vingança, reconcilia. Se se observa bem, a sua raiz última está situada no amor, que tem a sua expressão mais significativa na misericórdia. Por isso, a justiça, separada do amor misericordioso, torna-se fria e cruel. A justiça é virtude dinâmica e viva: defende e promove a dignidade inestimável da pessoa e preocupa-se pelo bem comum, sendo guardiã das relações entre as pessoas e os povos. O homem não vive sozinho; pelo contrário, desde o primeiro momento da sua existência está em relação com os outros, de tal modo que o bem dele como indivíduo e o da sociedade caminham lado a lado: entre os dois aspetos, perdura um delicado equilíbrio» (São João Paulo II).
No Catecismo da Igreja Católica, encontramos a compreensão inteira da virtude da justiça, nestes termos: «A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. A justiça para com Deus chama-se “virtude da religião”. Para com os homens, a justiça leva a respeitar os direitos de cada qual e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem comum. O homem justo, tantas vezes evocado nos livros santos, distingue-se pela retidão habitual dos seus pensamentos e da sua conduta para com o próximo. “Não cometerás injustiças nos julgamentos. Não favorecerás o pobre, nem serás complacente para com os poderosos. Julgarás o teu próximo com imparcialidade” (Levítico 19, 15). “Senhores, dai aos vossos escravos o que é justo e equitativo, considerando que também vós tendes um Senhor no céu” (Colossenses 4, 1)» (n. 1807).
Perfurar as barreiras do nosso egoísmo

“Jesus colocou o sinal da caridade como aquele que autentica a vida do seu discípulo.” Foto © Joaquim Félix.
Numa Oração Eucarística, a V/4, a Liturgia da Igreja intercede a Deus: «Fazei que a vossa Igreja seja o testemunho vivo da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que em todos os homens se renove a esperança do mundo novo».
Recordemos sempre que «a caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é “meu”; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é “dele”, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso “dar” ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é “inseparável da caridade”, é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, “a medida mínima” dela, parte integrante daquele amor “por ações e em verdade” (1 João 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João» (Bento XVI, Caritas in veritate 6).
A Igreja criou um Pontifício Conselho Justiça e Paz (agora designado Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, a partir de 17 de agosto de 2016) e em cada diocese existe uma Comissão Diocesana Justiça e Paz, que em articulação com a Comissão Nacional Justiça e Paz, privilegia na sua intervenção e programa de ação os seguintes domínios: o aprofundamento e a difusão da doutrina social da Igreja nas suas múltiplas vertentes; a defesa e promoção dos direitos humanos, incluindo a sua componente económica e social; a problemática contemporânea do emprego, desemprego e dos direitos laborais; a ética empresarial e a responsabilidade social das empresas; a denúncia das grandes desigualdades sociais, na Arquidiocese e no Mundo; o empenhamento na luta contra a pobreza e a exclusão social; a atenção devida à prossecução de uma globalização mais justa e um desenvolvimento sustentável para todos os povos; a denúncia das guerras e a promoção de uma cultura que privilegie as vias pacíficas de resolução de conflitos; a defesa e a promoção da dignidade da vida humana; a educação para o desenvolvimento; a sensibilização das gerações mais novas para o seu empenhamento na construção da justiça e da paz.
O Senhor Jesus colocou o sinal do amor mútuo, da caridade, o carimbo da caridade como aquele que autentica a vida do seu discípulo. Que a Sua Palavra perfure as barreiras do nosso egoísmo para que do nosso ser escorra a generosidade operosa, uma atenção solícita. Queremos aprender a lição do seu perdão e afeiçoar-nos ao seu exemplo de entrega incondicional. Queremos ser orientados na justiça e ser licenciados na construção da paz!
Mostrar a Misericórdia das obras

Crianças numa fila para receber comida em Gaza: “Onde quer que haja homens carecidos de alimento, roupa, casa, remédios, trabalho (…) aí deve procurá-los e encontrá-los a caridade cristã.” Foto © UNRWA
A fé sem a caridade não pode dar fruto. O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular até à Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado.
A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um» (Atos 2, 44-45). Lucas conta-nos isto no quadro duma espécie de definição da Igreja, entre cujos elementos constitutivos enumera a adesão ao «ensino dos Apóstolos», à «comunhão» (koinonia), à «fração do pão» e às «orações» (cf. Atos 2, 42).
O elemento da «comunhão» (koinonia), que aqui ao início não é especificado, aparece depois concretizado nos versículos anteriormente citados: consiste precisamente no facto de os crentes terem tudo em comum, pelo que, no seu meio, já não subsiste a diferença entre ricos e pobres (cf. Atos 4, 32-37). Com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunhão material – verdade se diga – não pôde ser mantida. Mas o núcleo essencial ficou: no seio da comunidade dos crentes não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguém os bens necessários para uma vida condigna.
Com efeito, «nos dias de hoje, a ação caritativa pode e deve abarcar hoje a todos os homens e a todas as necessidades. Onde quer que haja homens carecidos de alimento, roupa, casa, remédios, trabalho, instrução, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana, ou atingidos pela infelicidade ou pela falta de saúde, ou sofrendo o desterro ou a prisão, aí deve procurá-los e encontrá-los a caridade cristã, consolá-los com diligente cuidado e ajudá-los com a prestação de auxílios» (Apostolicam Actuositatem 8)
A Igreja, ao praticar as obras de Misericórdia, existe para mostrar a Misericórdia das obras – Cristo crucificado e ressuscitado. A Páscoa é a passagem das obras de Misericórdia à Misericórdia das obras, ou seja, é a passagem do fazer ao ser em Deus Rico de misericórdia, «Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo – é pela graça que vós estais salvos – com Ele nos ressuscitou e nos sentou no alto do Céu, em Cristo. Pela bondade que tem para connosco, em Cristo Jesus, quis assim mostrar, nos tempos futuros, a extraordinária riqueza da sua graça» (Efésios 2, 4-7).
A caridade e a misericórdia como arte do encontro

Ao encontro de um tu: “Recordar a tradição das obras de misericórdia significa apreender a caridade e a misericórdia como arte da relação.” Ilustração © Cláudio Louro (2025)
Cada um de nós é filho muito amado de Deus. «Deus amou-nos primeiro» (1 João 4,19) e esta confiança em Deus e na Palavra da Sua Graça (Atos 20, 32) abre-nos à Misericórdia sem medida.
O mistério pascal é a vitória do bem sobre o mal, da vitória da vida sobre a morte. A Páscoa é um dia eterno de misericórdia. O mundo continua marcado pela força diabólica do mal, do qual a pessoa humana é artífice e vítima, mas o seu limite «é em definitivo a divina misericórdia» (João Paulo II, Memória e Identidade).
Hoje, precisamos todos de reaprender a gramática elementar da Misericórdia. Recordemos as 14 obras de Misericórdia:
As sete obras de misericórdia corporal: 1. Dar de comer a quem tem fome 2. Dar de beber a quem tem sede 3. Vestir os nus 4. Dar pousada aos peregrinos 5. Visitar os enfermos 6. Visitar os presos 7. Enterrar os mortos.
As sete obras de misericórdia espiritual: 1. Dar bons conselhos 2. Ensinar os ignorantes 3. Corrigir os que erram 4. Consolar os tristes 5. Perdoar as injúrias 6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo 7. Rezar a Deus por vivos e defuntos.
O Novo Testamento distinguiu sete obras de misericórdia corporal e sete obras de misericórdia espiritual, que o Catecismo da Igreja Católica, explicita no nº 2447:
«As obras de misericórdia são as ações caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar, são obras de misericórdia espirituais, como perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporais consistem nomeadamente em dar de comer a quem tem fome, albergar quem não tem teto, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, sepultar os mortos. Entre estes gestos, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos, faça o mesmo» (Lucas 3, 11). «Dai antes de esmola do que possuis, e tudo para vós ficará limpo» (Lucas 11, 41). «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: “Ide em paz; tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes der o que é necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?» (Tiago 2, 15-16)».
Nestes tempos difíceis, recordar a tradição das obras de misericórdia significa apreender a caridade e a misericórdia como arte do encontro, como arte da relação, como arte de viver, mas significa sobretudo novo impulso de humanidade, para não permitir que o cinismo, a corrupção, a mentira, a ambição do poder e do domínio sobre os outros, a barbárie e a indiferença levem a melhor.
São Bento, o padroeiro da Europa, na sua Regra, desenvolveu o elenco das 14 obras de misericórdia no capítulo IV, a que intitulou: os instrumentos das boas obras. E, ao concluir afirmou: «Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos. Voltar à paz, antes do pôr do sol, com aqueles com quem teve desavença. E nunca desesperar da misericórdia de Deus».
A Misericórdia é o autêntico nome de Deus

Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo: “Todos os dias temos uma oportunidade para reavivarmos o amor aos outros.”
É esforço diário a superação da autorreferencialidade, do egoísmo e do orgulho. Hoje temos tantas formas de pobreza: a económica e material, a cultural e social, a espiritual e afetiva. Todavia, a misericórdia não se pode limitar à pobreza material, sobretudo em tempos de crise. O nosso compromisso tem de ser integral, para salvar o todo da pessoa e toda a pessoa que mais precisa da nossa ajuda.
Às vezes abusa-se da misericórdia e da religião, porque a misericórdia e a religião aparecem como uma espécie de amaciador para a moral cristã. Hoje, parece que tudo se mascara. Uma forma de pseudo-misericórdia a de tutelar mais o agressor que a vítima e da postura do laissez-faire, laissez passer, para não nos incomodarmos com os filhos, com os pais, com os outros.
O afeto com os nossos pais, os nossos avós, os mais idosos, as crianças, os jovens, os adultos, faz da nossa comunidade uma família de famílias. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no trabalho e no descanso, a Misericórdia vem ao encontro da nossa miséria.
Segundo a famosa “regra de ouro” transversal a todas as religiões – que façamos aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito a nós – ou como dizia Gandhi: «não vos posso fazer mal sem me ferir a mim mesmo», temos de ser testemunhas da misericórdia. Todos os dias temos uma oportunidade para reavivarmos o amor aos outros: aos pais, aos irmãos, aos familiares e aos parentes, aos vizinhos, aos colegas de escola ou de trabalho, aos amigos, o rosto da humanidade angustiada e ferida em países em guerra ou vítimas da fome e catástrofes naturais, que a comunicação social traz às nossas casas.
Nunca nos rendamos ao mal. O mal não pode ter nunca a última palavra. Como o salmista possamos viver a misericórdia e rezar com a vida: «cantarei eternamente as misericórdias do Senhor» (Salmo 89,2).
A Misericórdia é o modo de amar de Deus, ou melhor a Misericórdia é o autêntico nome de Deus!
A Declaração Universal dos Direitos Dumanos de 10 de dezembro de 1948, diz no seu Preâmbulo: «Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo» Para afirmar no artigo 1: «Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade».
Amor é talvez a palavra mais abusada e desgastada na nossa cultura O amor da Igreja chama-se charitas, uma palavra latina com extensa e complicada história. Era usada na linguagem comercial (o que é caro, vale) e tornou-se a palavra que os primeiros cristãos latinos escolheram para traduzir ágape. Eros e philia (amor de amizade), não conseguiram exprimir na sua revolucionária novidade. O ágape, de facto, diferentemente do eros, é amor de gratuidade, ama também aquilo que não é desejável e ama também o não amigo, ou seja, os inimigos e todos os temos, às vezes sem o sabermos, nem fazermos nada para isso.
É esta grande mensagem de Bento XVI, contida na sua primeira encíclica Deus caritas est e a cuja luz deve ser lida também a Caritas in veritate, que nos diz que o dom não se opõe ao mercado, nem a gratuidade ao contrato.
Valores para este tempo
Cardeal Carlo Maria Martini: uma reflexão sobre quatro valores Foto © Vatican Media
O Papa Francisco e a leitura do livro Il vescovo do cardeal Martini, outro jesuíta, e ambos de saudosa memória, inspiraram esta simples reflexão acerca de quatro valores adaptados a este tempo da net generation, que já supõem a fé, esperança e caridade e ainda as virtudes cardeais (justiça, prudência, temperança e fortaleza) e são eles: 1) a integridade, 2) a lealdade, 3) a paciência e 4) a misericórdia.
- Integridade
Ser uma pessoa íntegra e honesta é ser uma pessoa atual: «Não digas: “Porque foram os dias antigos melhores que os de agora”? Pois não é a sabedoria que te inspira essa pergunta» (Eclesiastes 7, 10). O grande Fernando Pessoa, sabiamente escreveu: «Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive».
- Lealdade
Dizer a verdade, significa não mentir e por nenhum motivo. Ser honesto é ser simples, isto é, ‘sem dobra ou vinco’ que não transpareça da sua vida alguma atitude de escondimento acerca das regras e das normas a observar.
- Paciência
Um dia o cardeal Giuseppe Siri aconselhou aos bispos cinco virtudes, ao que eu acrescento mais duas: 1. Paciência; 2. Paciência; 3. Paciência; 4. Paciência; 5. Paciência; 6. Paciência; 7. Martírio da paciência.
Há que ter paciência também com aqueles que nos convidam a ter paciência.
- Misericórdia
A Igreja tem de exercitar ainda mais a sua função de mãe amável e atenta no acompanhamento de todas as pessoas, para que seja capaz de oferecer motivos de esperança a todos os que «jazem nas trevas e nas sombras da morte» (Lucas 1, 79).
Olhar os pobres como a pessoa de Cristo

Frei Bartolomeu dos Mártires “não olhava aos pobres como pobres, mas à pessoa de Cristo, a quem representavam, e assim nunca se importunava com eles”. Ilustração: Direitos reservados.
São Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga, escreveu no tão atual Stimulus Pastorum: «três coisas se requerem no prelado: primeira – pureza de intenção, que consiste nisto: desejar mais servir que presidir; procurar em tudo não a honra, não a própria comodidade, mas a pura vontade de Deus e a salvação das almas; segunda – conversão santa e irrepreensível, para que de nenhum modo se possa objetar-lhe: médico, cura-te a ti mesmo; terceira – humildade interior e sincera, para que não presuma interiormente ou se glorie da própria santidade, como usurpador e ladrão da glória que só a Deus é devida, em quem deve confiar e de quem deve depender». É um programa para todos que abre à coragem da esperança.
A caridade e o zelo do arcebispo fizeram dele um servidor da ternura e da misericórdia: «há feridas, cuja cura se não consegue lancetando-as, mas curam-se untando-as com bálsamo de azeite». O santo arcebispo não só ajudava os pobres, mas amava os pobres: «recordando-se do que o Salvador disse: “o que fizerdes a qualquer destes pequenos meus irmãos, é a mim que o fazeis” (Mateus 25, 40), por isso não olhava aos pobres como pobres, mas à pessoa de Cristo, a quem representavam, e assim nunca se importunava com eles, como muitos fazem». Para ele, há uma regra decisiva: primeiro a prática e só depois a teoria.
A partir do dom e da santidade de Bartolomeu dos Mártires, «um grande evangelizador e pastor do seu povo» (Papa Francisco), somos interpelados a cuidar o Bem do próximo (= aquele que precisa de mim) é não viver «uns ao lado dos outros, mas uns com os outros» (Tonino Bello). O Bem é uma atitude de serviço, nunca um servilismo, segundo o mandamento novo do serviço.
A cruz florida da Páscoa renove a todos e a cada um de nós na fé da Esperança que irradia o amor luminoso e confiante nos caminhos da justiça e da paz.
Do Compêndio da Doutrina Social da Igreja
CAPÍTULO IV
OS PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
- SIGNIFICADO E UNIDADE DOS PRINCÍPIOS
- O PRINCÍPIO DO BEM COMUM
- a)Significado e principais implicações
b)A responsabilidade de todos pelo bem comum
c) As tarefas da comunidade políticaIII. A DESTINAÇÃO UNIVERSAL DOS BENS
- a)Origem e significado
b)Destinação universal dos bens e propriedade privada
c) Destinação universal dos bens e opção preferencial pelos pobres- O PRINCÍPIO DE SUBSIDIARIEDADE
- a)Origem e significado
b)Indicações concretas- A PARTICIPAÇÃO
- a)Significado e valor
b)Participação e democracia- O PRINCÍPIO DE SOLIDARIEDADE
- a)Significado e valor
b)A solidariedade como princípio social e como virtude moral
c) Solidariedade e crescimento comum dos homens
d) A solidariedade na vida e na mensagem de Jesus CristoVII. OS VALORES FUNDAMENTAIS DA VIDA SOCIAL
VIII. A VIA DA CARIDADE
- d) A justiça
201 A justiça é um valor, que acompanha o exercício da correspondente virtude moral cardeal [441] . Segundo a sua formulação mais clássica, «ela consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido» [442] . Do ponto de vista subjetivo a justiça se traduz na atitude determinada pela vontade de reconhecer o outro como pessoa, ao passo que, do ponto de vista objetivo, essa constitui o critério determinante da moralidade no âmbito inter-subjetivo e social [443] .
O Magistério social evoca a respeito das formas clássicas da justiça: a comutativa, a distributiva, a legal [444] . Um relevo cada vez maior no Magistério tem adquirido a justiça social [445] , que representa um verdadeiro e próprio desenvolvimento da justiça geral, reguladora dos relações sociais com base no critério da observância da lei. A justiça social, exigência conexa com a questão social, que hoje se manifesta em uma dimensão mundial, diz respeito aos aspectos sociais, políticos e econômicos e, sobretudo, à dimensão estrutural dos problemas e das respectivas soluções [446] .
202 A justiça mostra-se particularmente importante no contexto atual, em que o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, a despeito das proclamações de intentos, é seriamente ameaçado pela generalizada tendência a recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade e do ter. Também a justiça, com base nestes critérios, é considerada de modo redutivo, ao passo que adquire um significado mais pleno e autêntico na antropologia cristã. A justiça, com efeito, não é uma simples convenção humana, porque o que é «justo» não é originariamente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano [447] .
203 A plena verdade sobre o homem permite superar a visão contratualista da justiça, que é visão limitada, e abrir também para a justiça o horizonte da solidariedade e do amor: «A justiça sozinha não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor» [448] . Ao valor da justiça a doutrina social da Igreja acosta o da solidariedade, enquanto via privilegiada da paz. Se a paz é fruto da justiça, «hoje poder-se-ia dizer, com a mesma justeza e com a mesma força de inspiração bíblica (cf. Is 32, 17; Tg 3, 18), Opus solidarietatis pax: a paz é o fruto da solidariedade» [449] . A meta da paz, com efeito, «será certamente alcançada com a realização da justiça social e internacional; mas contar-se-á também com a prática das virtudes que favorecem a convivência e nos ensinam a viver unidos, a fim de, unidos, construirmos dando e recebendo, uma sociedade nova e um mundo melhor» [450] .











