Etiópia: catástrofe humanitária no Tigré afeta centenas de milhar de pessoas

| 15 Abr 2021

massacre tigre etiopia foto tigrai media house (1)

Os combates entre os exércitos etíope e eritreu agravaram-se nos últimos meses, tendo sido registados vários massacres. Foto: Tigrai Media House.

 

A região de Tigré, no Norte da Etiópia, junto da fronteira com a Eritreia, conhece desde há meses uma grave crise humanitária, que poderá já afetar um número superior a dois milhões de pessoas, entre deslocados internos e refugiados, nomeadamente no vizinho Sudão.

A razão próxima para esta tragédia, a que o 7MARGENS fez recentemente alusão, num texto do médico voluntário Tomás Sopas Bandeira, decorre do conflito militar surgido em 3 de novembro passado, entre o governo federal etíope, chefiado por Abiy Ahmed (Prémio Nobel da Paz 2019), e o governo regional de Tigré.

Addis Abeba enviou o exército para controlar a região, onde os responsáveis se tinham recusado a reconhecer a legitimidade do poder instalado na capital do país. Três semanas depois, as tropas fiéis a Ahmed, depois de bombardearem o território com aviões de guerra, controlaram a capital do Tigré, Mekele, e deram por “terminada” aquela a que chamaram “operação de restabelecimento da ordem interna”.

Os combates, porém, continuaram, sob a força de guerrilha, e de certo modo, até se agravaram, com a entrada em cena do exército da Eritreia, que no passado foi inimiga de Addis Abeba e se posiciona agora ao seu lado, por razões históricas e estratégicas ou simplesmente por vingança ou represália.

Nos últimos meses, com o exército etíope a sul e o eritreu a norte, os cerca de sete milhões de habitantes do Tigré, que vivem em boa parte da agricultura e da pastorícia, em muitos casos perderam os bens, viram as casas destruídas, familiares mortos e muitas mulheres violadas. Pontualmente, registaram-se mesmo massacres, como denunciou a Amnistia Internacional e outras organizações.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Eritreia negou que o exército do seu país tenha estado envolvido em violações de direitos humanos e até do direito internacional, recusando mesmo que tenha estado presente no Tigré. O governo de Abiy Ahmed, que também não reconhecia a presença de tropas e milícias eritreias em território etíope, acabou recentemente por admitir que tinham estado junto à fronteira, mas que estavam já a recuar.

A pressão internacional e das próprias Nações Unidas tornou-se intensa, responsabilizando tanto a Eritreia como o governo etíope e exigindo facilidade de acesso a inquiridores independentes. Ahmed acabou por aceitar designar uma comissão de inquérito, constituída pelas Nações Unidas e pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (indiretamente controlada pelo Governo, visto ser designada pela maioria do Parlamento que o apoia, e onde não está representado o povo tigré).

 

Igreja Católica: um papel ativo, mas questionado
cardeal Berhaneyesus Souraphiel

O comportamento do cardeal Berhaneyesus Souraphiel perante a crise tem sido fortemente criticado. Foto: Salt and Light Media.

 

O Papa Francisco tem estado atento a este conflito e à crise humanitária a ele associada, tendo alertado várias vezes para a situação, a partir da oração do Angelus de 8 de novembro. E na mensagem urbi et orbi do Domingo de Páscoa, no último dia 4, referiu expressamente o caso do Tigré, pedindo que “continuem os esforços para se encontrar soluções pacíficas para os conflitos, no respeito pelos direitos humanos e a sacralidade da vida, através dum diálogo fraterno e construtivo em espírito de reconciliação e operosa solidariedade”.

Num país maioritariamente cristão (os ortodoxos representam 44 por cento e os protestantes 18), a Igreja Católica é uma pequena minoria, com cerca de meio milhão de membros. É reconhecida, no entanto, como bastante ativa no plano da educação, da saúde e da ação social. Logo no início do conflito, pronunciou-se em comunicado: “Para que haja paz, este problema deve ser resolvido através do diálogo, porque o conflito armado só traz destruição. Com a guerra, todos somos derrotados.”

O cardeal Berhaneyesus Souraphiel, presidente da Conferência Episcopal (a qual abrange também a Eritreia), foi convidado pelo governo de Abiy Ahmed para presidir a uma Comissão de Reconciliação da Etiópia, em fevereiro de 2019, sinal de reconhecimento do papel da Igreja.

No entanto, numa carta enviada no mês passado a várias estruturas da Igreja e ao próprio Papa Francisco, um grupo de católicos tigré, radicados nos Estados Unidos da América, lamentou o papel parcial daquela Comissão e, sobretudo, verberou o comportamento do cardeal na presente crise.

No essencial, os autores da carta criticam duramente que, alguns dias depois do início do conflito, em novembro, perante um pedido de negociações apresentado pelas forças combatentes do Tigré, uma “Comissão presidida por um cardeal católico” tenha respondido que “o apelo para a negociação e paz não é aceitável”.

Acresce que, segundo a missiva, representantes da Igreja Católica etíope terão integrado a delegação do governo que fez uma visita ao Tigré, em 6 de fevereiro último, um ato entendido pelo povo de Tigré como forma de “encobrir os crimes de guerra das tropas da Etiópia e da Eritreia”.

Não foi possível, no entanto, confirmar alguns destes pormenores ou encontrar informação que exprima os pontos de vista do cardeal visado nesta carta.

 

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