Eu estive lá! (Crónica de uma viagem ao inferno)

| 24 Jul 2023

Ilustração alusiva aos fornos crematórios de Auschwitz, na Exposição “Auschwitz – No hace mucho. No muy lejos”, em Madrid (2018-2019); foto © Nair Alexandra

 

Quando aludia ao meu desejo de visitar esse lugar, ouvia quase sempre os mesmos comentários: “Eu não iria! Não teria coragem. Que horror, acho que morreria ao ver aquilo!”. Mas esse era um sonho antigo, meu e do meu marido, pois ele também gostaria de ter podido ir Lá. Então, fui. Sem ele, a não ser no pensamento. Era imperioso que fosse, que visse o que já sabia que ia ver, que ouvisse todos os gritos, que sentisse todos os silêncios, todos os medos, todos os horrores. Bem, eu sou utópica, assumo-o, mas neste caso nunca imaginei encontrar algo que não fosse dor, mágoa, sofrimento, humilhação. Eu sabia que ia encontrar o local onde a pessoa humana deixara de o ser, para gáudio daqueles que de humano nada possuíam. E deixara de o ser porque era esse o desejo dos “mandantes”: tirar tudo à pessoa humana, até a dignidade!

Começavam, logo no início e através de mentiras e subterfúgios torpes, por despojá-los de todos os seus bens materiais. Depois, das próprias roupas com que cobriam o corpo, substituindo-as por outras que os transformavam em espantalhos: ou demasiado pequenas para a sua medida, ou demasiado grandes, demasiado frescas para o duro inverno, demasiado quentes para o calor abrasador dos campos de trabalho. Faziam de propósito. Sabiam que, assim vestidos, jamais recuperariam a sua pose, aquilo que tinha feito deles homens, mulheres, meninos, meninas, com nome, sobrenome de família, enfim, gente. O intuito era sempre o mesmo: transformarem-nos em insignificâncias. E assim iniciavam a sua transformação em não-pessoas, em não-gente, metendo-os mais e mais ao ridículo para lhes retirarem quaisquer vislumbres de dignidade que muito lá no fundo ainda lhes restasse. E restava, acredito nisso! Havia entre eles, no meio de muitos anónimos (todos dignos, claro), grandes poetas, músicos, escritores, cientistas, filósofos, grandes mulheres que, com a sua arte, tinham tentado construir um Mundo melhor, um Mundo mais generoso, mais justo e honesto, um reino de amor que não convinha nada aos seus “mandantes” já que feriria a sua ferocidade e malvadez e não poderia coexistir com o deles. Por isso mesmo o aniquilavam aos poucos (é que, quanto mais fizessem “render” o seu sofrimento, melhor, porque crescia na mesma proporção o seu prazer, o seu ódio, o seu sarcasmo).

E por último desatavam o fio ténue que ainda prendia esses infelizes à vida. E para que o golpe desferido atingisse os píncaros do sadismo e da ferocidade animalesca que nenhum outro animal possui, mandavam-nos despir. As roupas de espantalho ainda teriam alguma serventia, eles é que não. E, nus como vieram ao mundo, empurravam-nos para as câmaras de gás. Depois, como lixo imundo, para uma vala que enchiam de terra e de mais lixo.

Então, sabendo tudo isto, que procurava eu? Por que era imperiosa, para mim, essa visita aos campos de extermínio? Lá e só Lá, eu tinha que ver, tinha que ouvir os seus lamentos, os seus gritos calados e surdos, tinha que sentir o que sentiram: o que sentiu a mãe quando lhe arrancaram do colo carinhoso o seu bebé, o que sentiu o marido, a esposa, quando, na sua frente, desfechavam um tiro de pistola no ente amado. E por muito fértil que seja a mente humana, só Lá se ouve, só Lá se sente e se vê a fila daqueles infelizes, alguns já meios mortos, porque esfomeados e desidratados, quase esqueletos ambulantes, saírem, perdidamente, daqueles vagões exíguos onde os tinham obrigado a entrar. Todos eles que, pouco tempo antes, tinham a sua casa com a sua família, eram homens e mulheres saudáveis e alegres. Só Lá eu poderia tentar encontrar, porque por Lá perdida, aquela dignidade que todos possuíam no momento da entrada. Mesmo que só por momentos, tiveram-na e por Lá foram obrigados a deixá-la. Não, a ferocidade dos monstros humanos, nem a dignidade permitiu que levassem para as câmaras de gás e fornos crematórios. Os sapatos, os cabelos, os objectos de higiene, enfim, os objectos pessoais de cada um, encontram-se Lá, amontoados, como não-coisas ou como coisas de ninguém. Mas eu procurava a dignidade de todos os milhões que ali pereceram. A dignidade que todo o ser humano possui e que, por ser imaterial, teria de estar ali. Nenhum monstro, por muito poderoso, poderia apropriar-se dela e muito menos enterrá-la, queimá-la ou gaseá-la. A dignidade humana não pactua com nada que não seja digno. Digno, simplesmente!

Pois essa dignidade que procurava, eu encontrei-a nas palavras e na postura da nossa Inês, a maravilhosa guia que nos tocou em sorte, falando um português quase impecável. Muito jovem, bonita, uma patriota de Varsóvia e de uma sensibilidade e doçura tais que conseguiu que víssemos, ouvíssemos, sentíssemos essa dignidade perdida daqueles milhões de seres humanos, gente como nós, que monstros sem coração, arbitrariamente, decidiram liquidar. Sempre com doçura e gentileza, pedia, ao entrarmos naquelas salas: “Por favor, em respeito e homenagem, não fotografem.”

Sim, eu estive Lá, em Auschwitz e Birkenau…

Que o Senhor dos Céus impeça que tais atrocidades se repitam!

 

Maria do Céu Nogueira é escritora

 

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