Eu, gulosa, me confesso

| 11 Jan 2024

Giotto di Bondone, As Bodas de Caná

“Olhemos para Jesus. O seu primeiro milagre, nas bodas de Caná, revela a sua simpatia pelas alegrias humanas”, assinalou o Papa na catequese desta quarta-feira. Imagem: As Bodas de Caná, fresco realizado por Giotto di Bondone, entre 1302 e 1305.

 

Quando me perguntam se gosto de comer, apetece-me responder como os miúdos, quando começam a aprender as subtilezas da língua: “Eu não gosto… [Pausa dramática] Eu adoro comer!”. Se sou gulosa? Só um momento, enquanto verifico o que diz o dicionário: “Gu.lo.so: adjetivo, nome masculino; 1. Que ou aquele que gosta de gulodices; 2. que ou aquele que come em excesso, principalmente alimentos doces; comilão, glutão”. Sim, talvez caiba nesta definição. Embora também me perca por salgados.

Mas porque escrevo isto? Porque o Papa tem dedicado as suas catequeses semanais aos vícios e às virtudes. E a desta quarta-feira foi sobre – adivinhem – a gula, pois claro. Que não é considerada uma virtude.

“Estimados irmãos e irmãs, bom dia! Neste nosso caminho de catequeses que percorremos sobre os vícios e as virtudes, hoje meditemos sobre o vício da gula”, começou Francisco. E, naquela fração de silêncio que se seguiu, regressei mentalmente à minha sobremesa do jantar de sábado na Serra da Estrela: um pudim de abóbora absolutamente delicioso, que me fez sentir ainda mais perto do céu, mas ao mesmo tempo um bocadinho culpada.

Voltando a Roma (onde, por sinal, comi a melhor pasta da minha vida) e à catequese do Papa… Temia que o sentimento de culpa aumentasse com aquilo que ele diria a seguir. Mas estava curiosa e continuei a ouvir: “Olhemos para Jesus. O seu primeiro milagre, nas bodas de Caná, revela a sua simpatia pelas alegrias humanas: preocupa-se por que a festa acabe bem, oferecendo aos noivos uma grande quantidade de vinho excelente”.

Não pensei que Francisco fosse por aí, mas ali estava ele, a assinalar que, nos Evangelhos, encontramos muitas vezes Jesus à mesa, em comunhão com todos, incluindo os então ditos “pecadores”. E a lembrar que Jesus pôs fim à distinção entre alimentos puros e impuros. “Sobre isto Jesus diz claramente que o que faz a bondade ou a maldade, digamos assim, de um alimento, não é o alimento em si, mas a relação que tivermos com ele”, sublinhou o Papa, para a seguir defender: “A alimentação é a manifestação de algo interior: a predisposição para o equilíbrio, ou para o exagero; a capacidade de dar graças, ou a arrogante pretensão de autonomia; a empatia de quem sabe partilhar a comida com os necessitados, ou o egoísmo de quem acumula tudo para si. Esta questão é muito importante: diz-me como comes e dir-te-ei que alma tens”.

E neste ponto percebi que não valia a pena sentir culpa por causa de uma sobremesa. O que não queria dizer que estivesse ilibada… Até porque antevi que Francisco queria ir além do seu antecessor Gregório I, quando no ano 590 colocou a gula na lista de sete pecados capitais, lista essa que figura ainda, quase intacta, no número 1866 do Catecismo da Igreja Católica (e que inclui a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, e a preguiça… a qual – aproveito para assumir – de vez em quando também me assiste).

Mas voltando à gula. “Se a virmos de um ponto de vista social, talvez a gula seja o vício mais perigoso, que mata o planeta. Pois o pecado de quem cede diante de uma fatia de bolo, considerando bem, não causa grandes danos, mas a voracidade com que nos desencadeamos, desde há alguns séculos, sobre os bens do planeta compromete o futuro de todos”, alertou o Papa.

Confirmava-se: quanto à minha sobremesa de sábado à noite, podia ficar relativamente descansada. Mas e a quantidade de comida que ingeri (e a que sobrou!) da minha mesa de Natal e Ano Novo? Quanto bacalhau e peru, borrego, cabrito ou leitão terá sido vendido (e desperdiçado) nestas festas, em Portugal? Quantos doces foram cozinhados (ou encomendados dias antes na pastelaria preferida)? Quantas filhós, rabanadas, azevias, restos de Bolo Rei e tronco de Natal terão ido parar ao lixo? E, enquanto isso, quantos passaram fome? Alguns bem perto de nós.

 

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Quantas filhós, rabanadas, azevias, restos de Bolo Rei e tronco de Natal terão ido parar ao lixo? E, enquanto isso, quantos passaram fome? Foto: Direitos reservados

 

O Papa continuava: “Abjuramos o nome de homens, para assumir outro, ‘consumidores’. (…) Fomos feitos para ser homens e mulheres ‘eucarísticos’, capazes de dar graças, discretos no uso da terra e, ao contrário, transformamo-nos, o perigo é de nos transformarmos em predadores”.

“Não nos teremos já transformado?”, pensei. Fui consultar os dados mais recentes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e os números impressionam: estima-se que, do total de alimentos produzidos para consumo humano, cerca de 14% sejam perdidos e 17% desperdiçados. Segundo o mesmo programa, essa quantidade seria suficiente para alimentar cerca de mil milhões de pessoas no mundo. Mais do que os cerca de 735 milhões de pessoas que se estima tenham passado fome em 2022.

Quanto à União Europeia, todos os anos contabilizam-se, em média, 59 milhões de toneladas de desperdício alimentar, e Portugal é “só” o quarto país onde mais se deita comida fora: 184 quilos por habitante, de acordo com dados do Eurostat, citados pelo jornal Público em setembro do ano passado.

Por outro lado – e já que esta semana se tornou oficial que 2023 foi o ano mais quente desde que há registo – quais as emissões de gases com efeito de estufa associadas aos alimentos que desperdiçamos? As respostas continuam a impressionar:

“Se o desperdício alimentar fosse um Estado-membro, seria o quinto emissor de gases da União Europeia”, afirmava no início de julho Frans Timmermans, então vice-presidente da Comissão Europeia dedicado ao Pacto Ecológico Europeu. E não pensemos que isto não nos diz respeito: de acordo com o Eurostat, 53% do desperdício vem dos agregados familiares.

Quanto ao que efetivamente comemos, que também não restem dúvidas a todos aqueles que não optaram por uma consoada vegana (eu incluída): a pecuária é responsável por cerca de 14,5% dos gases com efeito de estufa, mais do que o combustível de todo o sistema de transporte mundial em conjunto, e reconhecida pela ONU como um dos maiores responsáveis pelos mais graves problemas ecológicos.

Deveríamos então tornar-nos veganos? O jornal The New York Times preparou um dossier interativo que ajuda a chegar à resposta, e que até inclui um teste para avaliar de que forma é que a nossa dieta contribui para as alterações climáticas.

E em particular os cristãos, para quem – como escreveu o Papa na encíclica Laudato Si’ – “viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário, mas parte essencial duma existência virtuosa”, devem sentir-se interpelados a adotar uma dieta mais sóbria e baseada nas plantas? A resposta só pode ser “sim”.

O Papa Francisco partilhou o almoço com 1300 pessoas carenciadas da Diocese de Roma. Foto © Vatican Media

O Papa Francisco partilha o almoço com 1.300 pessoas carenciadas da Diocese de Roma, no Dia Mundial dos Pobres de 2022. Foto © Vatican Media

 

Já houve quem desafiasse o próprio Papa a mudar para um regime alimentar mais amigo do Planeta. Consciente do que essa mudança representaria, Genesis Butler, uma jovem ativista de 12 anos, escreveu-lhe no início da Quaresma de 2019 e convidou-o a adotar, pelo menos durante o período de preparação para a Páscoa (que é, tradicionalmente, um tempo de jejum) um estilo de vida vegano, renunciando a alimentos de origem animal. Como é seu hábito, o Papa respondeu: agradeceu-lhe por ela ter escrito, encorajou a sua preocupação com o Planeta, ofereceu-lhe as suas orações… mas não disse absolutamente nada sobre o desafio que ela lhe havia colocado. Talvez por ser fã assumido de uma boa carne argentina e de frango no forno…

Uma coisa é certa: o Papa é guloso como eu. De resto, ele próprio confessou que uma das melhores recordações que levou de Lisboa foram os pastéis de nata “muito bons”.  (Ai, se ele tivesse provado o pudim de abóbora que eu comi no sábado…)

Mas também é verdade que se preocupa com a redução do desperdício, pede sempre que não seja preparada muita comida (e, nas viagens, que não lhe sejam servidas “extravagâncias”) e privilegia a “cozinha dos restos”. No livro “À mesa com o Papa Francisco – A comida na vida de Jorge Mario Bergoglio”, o italiano Roberto Alborghetti conta um episódio curioso: certa vez, Francisco foi até à cozinha da Casa Santa Marta e disse às cozinheiras: “Por favor, não deitem fora a água de cozer a chicória. Eu bebo-a com gosto. É boa e faz bem”.

Seja como for, todos (e aqui é que é mesmo “todos, todos, todos”) deveríamos procurar por em prática o que ele sugeriu na catequese desta quarta-feira: seguir “no caminho da sobriedade” e esforçarmo-nos para que “os vários tipos de gula não se apoderem da nossa vida”. E não hipotequem a vida dos outros.

 

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