“Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a”
Johann Goethe
Quando uma pessoa ultrapassa adversidades, stress, e as suas consequências, cresce em vários níveis: valorização da vida, apreciação do simples “presente” de estar vivo, compreensão de que este presente é um privilégio, maior sentimento de união a quem sofre, até mesmo a estranhos, e aprofundamento da vida espiritual, tanto a nível pessoal, como comunitário, como relativo à adesão entre o Espírito e todos os elementos constituintes do Universo.
Tedeschi e Calhoun (1996) descreveram o crescimento relacionado com o stress como um conjunto de mudanças psicológicas positivas, decorrentes da superação de circunstâncias de vida extremamente desafiadoras e chocantes. Eles chamaram a atenção para o optimismo, a extroversão, a capacidade de lidar com as consequências do choque, de reconstruir e de fortalecer a imagem de si mesmo, dos outros e do significado dos acontecimentos. O amor à volta da pessoa, é na minha própria perspectiva, o factor imprescindível.
Tencerová e colaboradores (2024), dizem que a sobrevivência, é o nível básico, mas insuficiente para voltar ao nível anterior de funcionamento na vida. A pessoa que prospera com o seu sofrimento, cresce e desenvolve-se. Contudo, nunca devemos esquecer que este lado positivo, não pode ser visto apenas, como um precursor do crescimento, uma vez que aquela experiência é profundamente perturbadora e dolorosa. De valorizar, que o crescimento ocorre mais frequentemente por meio de uma maior apreciação da própria vida, uma maior ligação à família e aos amigos, uma valorização da vida quotidiana e uma mudança fundamental nas prioridades em relação ao que é realmente importante.
É possível que quanto mais difícil for a situação, mais os recursos internos de uma pessoa têm de ser mobilizados e maior tenha que ser a sua capacidade de transformar a tragédia numa oportunidade ou mesmo um presente. O amor à volta da pessoa, é na minha própria perspectiva, o factor imprescindível. Sei-o, por experiência própria. A melhoria foi perceptível e testemunhada por todos os que me rodeavam, aquando do nascimento das minhas netas.

“Minhas queridas netinhas, hoje, que sois quase mulheres adultas, eu tenho Esperança no Futuro.” Fajã de Santo Cristo, S. Jorge, Açores. Foto: Direitos Reservados
Amor
Não é isso
Que se canta
Não é isso
Que se celebra
Não é isso
Que se festeja
Não é isso
Que se planta
Nem é isso
Que se quebra
Nem nada
Que assim seja.
Amor
É muito profundo
Brota…
De um núcleo
Onde não conseguimos
Chegar,
De um núcleo
Que não conseguimos
Palpar,
De um núcleo
Que não conseguimos
Conhecer,
De um núcleo
Onde não conseguimos
Aceder
De um núcleo
Muito profundo
Muito profundo
Que está
Não sei onde
Muito mais profundo
Que o consciente
Muito mais profundo
Realmente
Muito mais profundo
E sempre presente
Muito mais profundo
E que vive ardente
Muito, muito vivo
Muito, muito real
Tão objectivo
E tão fulcral
Muito, muito íntimo
No mais íntimo
Do nosso íntimo.
Amor é o que sinto
Pelas minhas queridas
Netinhas
Hoje é o teu primeiro
Aniversário
Madalena pequenina
Parabéns!
Madalena pequenina
E Parabéns!
Matilde
Porque tu foste
A primeira netinha
E por vós
Eu ressuscitei
Por vós
Eu amei.
(In: PHILIA 2024.)

“Mais do que um livro, é um verdadeiro tesouro de histórias e memórias que atravessam gerações, despertando emoções e reflexões sobre os laços que nos ligam como família.”
Ser avó foi para mim, o auge da minha vida, talvez porque foi um prazer de que pude usufruir com maior disponibilidade e maturidade. Outros autores mencionaram que estes acontecimentos podem aliviar a solidão e promover uma maior integração social, incluindo relacionamentos não familiares, criando portanto uma rede de apoio mais ampla. Netos e avós interagem e apoiam-se mutuamente, trocando afecto, conhecimentos, e.g. informáticos e tantos outros, formando um enorme complexo inter-relacional que é um grande contributo para todos. E aqui faço uma referência ao Livro “Avós e Netos – Uma Viagem de Afetos” das professoras Aida Batista e Manuela Araújo, editado pela “almaletra” em 2024, e dele, não posso deixar de transcrever uma frase de Eduardo Bettencourt Pinto, com que me identifico plenamente: “O nosso apelido tem uma história e um percurso. Na linha enviesada da estirpe, somos a consequência de uma miríade de passos e vidas que nos antecederam”. Pessoalmente, o meu apelido foi herdado da minha avó.
No entanto, ser avô/a também pode ser exigente e limitar o tempo disponível para outras actividades e amizades, sendo de considerar que pode haver amigos a viver em diferentes circunstâncias de vida. No meu entender, quanto maior a actividade, maior o bem-estar e a satisfação pelas tarefas realizadas, desde que essa actividade seja compatível com as limitações e o envelhecimento dos idosos.
Um problema a levantar, são as razões que levam a que a ajuda dos avós seja solicitada. Por exemplo, sobrecarga de trabalho parental, apego familiar, ou ao contrário irresponsabilidade parental, sendo que este último sempre me foi alheio. Tais informações são valiosas para distinguir e entender melhor o papel desempenhado pelos avós dentro da família e a sobrecarga que vem com o envolvimento em múltiplos papéis.
Por fim, é importante observar que o cuidado dos avós pode ser vivenciado de forma diferente por homens e mulheres. Um estudo longitudinal de Quirke et al. na Alemanha, por exemplo, revelou que, embora cuidar dos netos possa ser percebido como uma oportunidade recreativa e de lazer para alguns avós, pode, pelo contrário, para as mulheres, ser visto como a sobrecarga adicional de tarefas físicas associadas ao seu papel contínuo como mães.
Não posso terminar sem deixar um alerta: uma vez que os netos crescem e se tornam mais independentes, relevo a importância do estabelecimento de vínculos íntimos desde o nascimento, essa cumplicidade cultivada desde o início é a que se mantém durante toda a vida.
Maria Aldina Brás é geneticista médica e Professora aposentada da UNL.










