Sempre que a economia americana embate num recife,
os últimos a embarcar são habitualmente aqueles
que os políticos nacionalistas querem atirar borda fora.
Simon Schama

“Qualquer que seja o motivo, a fronteira política entre republicanos e democratas desenha-se, e estabelece-se firmemente, na década de 60 do séc. XIX, durante a guerra de Secessão.” Eleições nos EUA. Foto © C. D Keine
A última colectânea de artigos de John Steinbeck, A América e os americanos (1966)[1], fornece-nos um retrato expressivo do que, optimistas, chamámos outrora melting pot, nesse continente-recipiente em que, lançados homens e mulheres de todas as proveniências, se faziam americanos, mas não livres e iguais em dignidade e em direitos.
Para os menos atentos, a excepção americana era uma amálgama feliz e industriosa, com que a Nova Fronteira dos Kennedy, John e Robert, mais os direitos civis com L.B. Johnson e a demanda, bem-sucedida, da Lua nos convidavam sonhar. Isso e toda a música e toda a literatura e todo o cinema que educaram uma parte dos urbanos universitários deste pequeno país atlântico, nos longínquos anos 70.

Fig. 1 – Eleição presidencial de 1800. Thomas Jefferson (democratas republicanos) vence John Adams (federalistas). Os EUA são ainda uma pequena fracção da América do Norte. Segundo Steinbeck, os colonizadores originais da costa Leste não se limitavam a não querer misturar-se com outros povos, mas «voltavam as suas armas contra qualquer um, inglês ou não, que não fosse exactamente como eles» Mapa em: https://www.270towin.com/1800_Election/
O autor d’ As Vinhas da Ira, obra admiravelmente levada ao cinema por John Ford, fala-nos dos americanos com graça, ironia e benevolência, acentuando, porém, alguns dos paradoxos mais dolorosos de uma América demasiado grande em ambição e território.
Assim, quando fala da génese do «americano», chama a atenção para um facto essencial: a reunião, num só povo, do que chama «fragmentos dos povos do mundo» era contrária ao propósito dos colonizadores originais da costa Leste. Estes não se limitavam a não querer misturar-se com outros povos, mas «voltavam as suas armas contra qualquer um, inglês ou não, que não fosse exactamente como eles». E sucessivas vagas de emigrantes confrontavam-se com a hostilidade dos que os antecediam e juntavam-se, nas cidades, aos que partilhavam a mesma história, religião ou cultura: «Os pobres irlandeses […] juntavam-se com os outros irlandeses, e os judeus com os judeus. Na Costa Oeste os chineses formavam as suas comunidades chinesas.» E os bairros onde residiam e instalavam os seus negócios chamaram-se irishtown, chinatown, germantown, little italy, etc. A hostilidade transformava-se regularmente em confronto e a proximidade entre iguais era uma defesa.

Figura 2 – Eleição presidencial de 1860. Lincoln vence, contra dois candidatos democratas e um candidato da União Constitucional. Seguem-se declarações de secessão da Carolina do Sul e de outros estados esclavagistas. Os democratas (azuis) dominam no sul esclavagista. Lincoln é republicano. Fonte: https://www.270towin.com/1860_Election/
Tudo isto é sabido, mas o corolário deste processo, o que, no fundo, faz um americano e converte um mick (católico irlandês), um sheenie (judeu), um kraut (alemão) ou um dago (italiano ou espanhol), tudo epítetos depreciativos ou insultuosos, num americano é o momento em que, sugere Steinbeck, um grupo humano se torna «sólido, solvente, autodefensivo e economicamente anónimo».
Esta perspectiva tem manifesto potencial explicativo no respeitante ao comportamento eleitoral de segmentos da população cuja condição social e económica se aproxime ou esteja de acordo com a caracterização avançada, sendo certo que o que faz uma minoria, étnica ou de outro tipo, i.e., um grupo dominado e/ou excluído, não é somente o número. Lévi-Strauss explicava-o num ensaio de 1952, intitulado Raça e História:
«A humanidade acaba nas fronteiras da tribo, do grupo linguístico, por vezes mesmo, da aldeia; a tal ponto que um grande número de populações ditas primitivas se designam por um nome que significa os «homens» (ou por vezes, – digamos com mais discrição – os «bons», os “excelentes”, os “perfeitos”), implicando assim que as outras tribos, grupos ou aldeias não participem das virtudes – ou mesmo da natureza – humanas, mas são, quando muito, compostos por “maus”, “perversos”, “macacos de terra”, ou “ovos de piolho”.»
O etnólogo punha definitivamente em crise o termo ‘raça’, destituído de pertinência no campo científico, embora apontando diferenças reais e significativas do ponto de vista sociocultural. «A humanidade acaba nas fronteiras da tribo» – e com ela a benevolência, a solidariedade, a compaixão, a cidadania, o reconhecimento. Claro que não são só as «populações ditas primitivas» que assim respondem à proximidade do outro, «macaco da terra», especialmente quando esta se torna numericamente manifesta, ostensiva, protegida por lei (e as regras da urbanidade), como nas grandes metrópoles contemporâneas do hemisfério norte.
Na verdade, na génese dos EUA, a homogeneidade relativa das populações dos 13 estados (ver fig. 1) estava estreitamente associada ao ideário político dos pais fundadores. Benjamin Franklin, diz-nos Simon Schama, «via a América essencialmente como uma Grã-Bretanha transoceânica, e talvez ainda de forma mais restrita, uma nova Inglaterra»[2] «Pai fundador da paranóia americana», Franklin tornou-se uma espécie de talismã dos mais virulentos autores anti-emigração contemporâneos, que não perdem uma ocasião para o citar.
Por outro lado, se uma parte da razão do repúdio do Norte pela escravatura reside nesta preferência pela homogeneidade racial e cultural de matriz anglo-saxónica, a outra relaciona-se, segundo Steinbeck, com as condições geomorfológicas dos territórios do nordeste, ao passo que, ainda Franklin, uma objecção mais poderosa vai relacionar-se com o que poderíamos chamar a preservação do «núcleo racial Anglo-Saxónico». Schama resume: «… as tentações da posse de escravos sapa[riam] as reservas de confiança e energia do norte, e substitui[riam] esse vigor por uma indolência degenerada. Isso podia convir às raças ibéricas…»
Qualquer que seja o motivo, a fronteira política entre republicanos e democratas desenha-se, e estabelece-se firmemente, na década de 60 do séc. XIX, durante a guerra de Secessão. Com uma consequência notável: se a guerra anti-esclavagista e pela unidade dos EUA é conduzida por um republicano, o partido democrático rapidamente se converte no partido do sul esclavagista (ver figuras 2 e 3). Mas na raiz da ‘questão racial’, da obsessão classificatória dos norte-americanos e, enfim, da paranóia frankliniana, encontra-se, porventura, uma sucessão de eventos de enorme consequência na reconfiguração territorial dos EUA, que lhe confere dimensão continental: a compra da Louisiana em 1803, que lhe dá dimensão continental, as subsequentes expansões territoriais em direcção ao México (Texas e Califórnia) e a compra do Alasca (ver fig. 4).

Fig. 3 – Eleição presidencial de 1864. O republicano Abraham Lincoln vence. Os estados secessionistas não participam. A polaridade vai inverter-se e os democratas substituem os republicanos doravante. Fonte: https://www.270towin.com/1864_Election/
Os Estados Unidos tornam-se uma nação multirracial independentemente do afluxo de emigrantes, por conquista, compra ou cedência de territórios a sul e oeste, e o trânsito transfronteiriço no sul, é, em larga medida, parte integrante do movimento espontâneo das populações autóctones, ao longo de séculos.
Por isso, o presente renascimento de um virulento discurso de exclusão e supressão de direitos e pessoas, que aprendemos com a ascensão do nazismo e seus antecessores e émulos nos países que valentemente combateram Hitler (nomeadamente nos EUA e no Reino Unido, onde parte significativa das elites perfilhava as teses eugenistas dos nazis), vem lembrar-nos que as ideias mais perversas não deixam de fazer caminho na história, e que, na sombra por um tempo, podem ganhar ímpeto inusitado, por força do que, a uma primeira vista, aparentava ser um epifenómeno sem futuro.

Fig. 4 – New York Public Library Digital Collections. ‘How We Grow’, mapa de carácter ostensivamente propagandístico, impresso em 1898, a coincidir com a guerra hispano-americana (legenda de Cuba: ‘why not?’). https://digitalcollections.nypl.org/items/ffd993d0-84cb-0134-c50c-00505686a51c
Para muitos, tudo começou quando um WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), demagogo multimilionário de duvidoso talento e ainda mais duvidosa capacidade empresarial, começou a interpelar o presidente dos EUA, pondo em dúvida a sua nacionalidade, logo, a licitude da sua eleição. Não era a nacionalidade, como sabemos, que o atormentava: era o negro presidente, era o atrevimento do non-white, de todos os non-whites ou hiper-whites (a elite pedófila do deep state, segundo os neonazis e outros teóricos da conspiração) em que se converteram os democratas de 2008 que elegeram Obama.
Na altura muitos entenderam – o autor destas linhas incluído – que essa vitória, essa ruptura com uma tradição, ferreamente estabelecida, de subalternidade política e cívica dos cidadãos negros era mais importante do que seria a eleição de uma mulher. É que, segundo a Constituição dos pais fundadores, um negro valia, para efeitos de recenseamento e eleição para a câmara dos representantes, 3/5 de um branco (a chamada three fifths clause), e mesmo com todo o progresso havido em matéria de direitos civis, o simples acesso à cabine de voto é sistematicamente vedado ou contrariado, por toda a espécie de astúcias, nos estados e circunscrições eleitorais mais conservadores, precisamente aos cidadãos que historicamente são remetidos para a periferia dos sistema político: os negros (que só conquistam o direito de voto nos anos 60), os pobres, os menos instruídos. Por exemplo, nos primeiros dias de Outubro, o Departamento de Justiça promoveu uma acção judicial contra a Virgínia. Este estado lançou «um programa […] que visa remover eleitores de suas listas eleitorais antes da eleição de 2024 se os registos do DMV [Division of Motor Vehicles] não indicarem a cidadania norte-americana».[3]
A lei obriga a que os cadernos eleitorais estejam fechados 90 dias antes das eleições, e por isso o Departamento de Justiça procura assegurar a «capacidade dos eleitores elegíveis afectados de votarem sem impedimentos no dia das eleições». O mesmo se passa, por estes dias, no Alabama, no que parece uma iniciativa concertada para assegurar o disenfranchisement (privação do direito de voto) de segmentos da população eventualmente avessos ao candidato favorito do partido republicano.
Voltando a Steinbeck, e à sua «teoria da solvência», o resultado da mudança de condição do que fora agredido e excluído é que ele agora se junta aos que antes o vitimaram para «se entregarem à prática aceite entre as castas superiores, a do rebaixamento de um qualquer grupo mais recente». Ora, se tão singela teoria se revelar acertada (e o princípio de parcimónia deve inspirar-nos), talvez ajude a explicar a relutância de parte dos eleitores negros e «latinos» em votar numa americana de 1ª geração que, forçada a confinar-se a uma raça [4], por força do costume e da irreprimível pulsão identitária que contamina a ultra-direita nacionalista e a ultra-esquerda internacionalista, poderá, na sua juventude, ter-se sobressaltado com esta reflexão, tão dura como esperançada: «Não ultrapassaremos o trauma que a escravatura deixou na nossa sociedade […] enquanto conseguirmos lembrar-nos se o homem com quem acabámos de falar na rua era branco ou negro».
Steinbeck tem razão. A guerra civil consolidou e cristalizou uma oposição entre o norte republicano e o sul democrata que se deveu, em primeiríssimo lugar ao anti-esclavagismo dos republicanos. Com o tempo, a natureza e o programa dos partidos foi-se alterando, e passamos a ver um mapa eleitoral que inverte a situação de 1860 (confrontar, p.f., fig. 2 com fig. 4), com a agravante de se ter suprimido entretanto o espírito de colaboração interpartidária nas grandes questões da governação do sistema político.
Mas agora assistimos a um processo bem mais complexo: os mais prósperos e os homens de todas as cores e raças, não querem, dizem os mais cépticos, uma mulher na Casa Branca. Falta-lhe, aparentemente, a energia macho man de Trump. E a sua lisura de carácter.
Não se cumpriu, portanto, ainda o sonho de Thomas Paine. A América de Trump não tem sido nem será «o asilo dos amantes da liberdade civil e religiosa perseguidos». E também não será, para os americanos que por estes dias escolhem o próximo presidente, a morada pacífica desses valores.

Fig. 5 – Eleição presidencial 2024. Previsão assente na ponderação de múltiplas sondagens. 2024 Presidential Election Interactive Map, 15.10.24. Extraído de https://www.270towin.com/map-images/consensus-2024-presidential-election-forecast
[1] Seguimos a tradução portuguesa da edição comemorativa dos 100 anos do nascimento de JS, A américa e os americanos e outros textos, Livros do Brasil, 2007.
[2] Todas as citações que seguem, excepto menção em contrário, são extraídas de Schama, S. (2008), The American Future. A History, cap. III What is an American?, The Bodley Head, London.
[3] Fonte: https://abc11.com/post/doj-sues-virginia-allegedly-purging-voters-close-2024-election-system-implemented-gov-glenn-youngkin/15421677/
[4] Ver Standards for Maintaining, Collecting, and Presenting Federal Data on Race and Ethnicity [Normas para a manutenção, recolha e apresentação de dados federais sobre raça e etnia], U.S. Department of the Interior, https://www.doi.gov/pmb/eeo/directives/race-data. A auto-atribuição de raça e etnia reporta-se às seguintes categorias: Raça – Índio americano ou nativo do Alasca, Asiático, Negro ou afro-americano, Nativo do Havai ou de outras ilhas do Pacífico, Branco; Etnia – Hispânico ou latino; Não hispânico ou latino.
João Santos é professor.










