Euforia, esperança ou amnésia coletiva

| 19 Jan 21

“O ano que passou ficou na História pelos piores motivos, mas acabou com esperança.” Foto: José Centeio

 

O ano 2021 ainda é novo. Simbolicamente ficaram para trás pouco menos de 300 dias muito duros, em que os planos de quase todos se viram alterados, em que muitas famílias foram marcadas pela morte, a doença física ou o medo dela, em que tantos se viram mentalmente perturbados por quadros de ansiedade e/ou depressão insuportáveis e claramente incapacitantes.

O ano que passou ficou na História pelos piores motivos, mas acabou com esperança. A tão almejada vacina chegou. Com muitas incertezas, escassa em número para as necessidades, mas chegou. Muitos arriscam por terem de ser exemplo; outros recuam porque temem a imprevisibilidade que resulta da rapidez com que todo este processo de produção ocorreu.

A grande maioria da população ficou eufórica com esta possibilidade, sonhando de novo com a liberdade de ser e de estar, com a necessidade de voltar a viver, com a oportunidade de retomar planos e de concretizar sonhos antes sonhados e atualmente interrompidos.

2020 foi um ano em que, em boa parte, nos perdemos. Alguns arriscaram, mas, perante as consequências do destemor inicial, recuaram e reposicionaram a sua forma de vida. Outros não aprenderam nada e exibiram-se heróis, como se os riscos comprovados não existissem, como se as ameaças fossem coisa de fracos e de gente fora de moda.

Pois é mesmo disso que tenho medo – de uma amnésia coletiva. Há que assumir que só conseguimos aprender se não nos esquecermos; se não deixarmos no recôndito de cada um aquilo por que passámos; se olharmos para cada outro como a possibilidade de podermos ter sido nós; se não fecharmos os olhos aos erros cometidos; se conservarmos a determinação de ficarmos mais sábios e não apenas mais conhecedores.

Precisamos de esperança e de fé mas, para isso, não podemos fazer continuamente coisas de que nos arrependemos face ao passado, porque nos preocupamos com elas ou com as suas consequências face ao futuro. A culpa não cura ninguém, destrói, isso sim, a nossa saúde mental.

Mário A. Puig, médico e neurocientista, fala-nos de seis motivações fundamentais para o ser humano. Claro que podia mencionar muitas outras abordagens, por demais conhecidas e ainda atuais, mas escolhi esta, talvez porque abarca várias e toca-nos especialmente neste tempo das nossas vidas; porque nos vira para o que temos de fazer; porque nos anima a sermos agentes do futuro próximo que urge, para que superemos as lacunas que o passado recente rasgou em nós. São elas:

  • Sentir segurança, ter a perceção de poder controlar o que se passa;
  • Ser alvo de reconhecimento;
  • Sentir pertença ao grupo;
  • Ter desafios e objetivos a alcançar;
  • Crescer, melhorar e progredir;
  • E, por fim, ter um propósito e contribuir para o bem-estar dos outros. Não esqueçamos que a primeira vocação do ser humano é a solidariedade.

Se analisarmos a realidade atual à luz destas reflexões, percebemos que podemos estar a ponto de recuperar algumas das motivações perdidas ou fragilizadas. Não sei se as vacinas resolverão tudo, mas contribuirão, decerto, para alcançar este objetivo. Ficaremos mais seguros, poderemos ser mais pertença, pensaremos em novos desafios, progrediremos sem medo e poderemos ajudar quem de nós precisa, sem restrições relevantes.

Importa não dramatizar o que vivemos, mas é também imprescindível olhar a realidade de uma forma responsável, para que, como diz a sabedoria popular, não se deitem foguetes antes da festa, como parece que algumas pessoas estão a fazer.

O mundo parou e não vai ficar igual ao que estava antes, quando voltar a arrancar. É preciso que saibamos isto; que aceitemos as nossas vulnerabilidades como desafios de superação; que entendamos que a serenidade que precisamos de readquirir nos edificará de um modo melhor. Será este estado que oferecerá à humanidade a capacidade de investir no presente e de acreditar genuinamente naquilo que, convencionalmente, se chama futuro, mas que acontece, segundo a segundo, diante de todos nós.

Podemos e devemos continuar a sonhar. Apesar disso, o momento atual tem de ser perspetivado com a inabalável consciência da sua gravidade, se queremos edificar-nos como resilientes e, oxalá, daqui a pouco como verdadeiros vencedores.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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