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Eugénia Quaresma. Foto Agência Ecclesia

Manifestação contra o racismo

Eugénia Quaresma: “Preocupa-me o mal que se faz em nome do bem comum”

| 10/01/2025

“Os cidadãos, independentemente da sua proveniência, precisam de saber e sentir que a polícia existe para combater o crime, e os autóctones precisam de saber que ser imigrante não é crime”, defende a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), Eugénia Quaresma, a propósito da manifestação contra o racismo e a xenofobia, marcada para a tarde deste sábado em Lisboa, na sequência da operação policial que decorreu no Martim Moniz no passado dia 19 de dezembro.

Para Eugénia Quaresma, “é preciso conhecer e investigar as causas deste alarmante aparato”, o qual levou à circulação de imagens nas redes sociais em que podiam ver-se dezenas de pessoas encostadas à parede, de mãos no ar, para serem revistadas pela polícia.

“Quem passou naquela rua sentiu que as pessoas foram selecionadas e tinham em comum serem imigrantes. A polícia afirma que apenas dois portugueses foram detidos. Então porque circula a imagem dos imigrantes?”, questiona a também responsável do Secretariado Nacional da Mobilidade Humana, da Conferência Episcopal Portuguesa. “O senso comum diz-me que encosta-se à parede criminosos e/ou suspeitos de crime e/ou pessoas que desrespeitam a autoridade. Não sei o que fizeram aquelas pessoas para serem abordadas dessa forma. Mas preocupa-me o mal que se faz em nome do bem comum e creio que essa é a motivação da manifestação, que se intitula ‘Não nos encostem à parede'”, assinala.

Convicta de que “o crime não se determina pela proveniência” e de que “ser de uma cultura diferente também não é crime”, Eugénia Quaresma reconhece “o valor preventivo da fiscalização”, mas recorda que “é possível fiscalizar sem diminuir ou maltratar”.

“Há uma imagem que circula e indigna, porque sem querer ou propositadamente liga imigrantes ao crime. E também há imigrantes que são vítimas de crime e precisam de ser protegidos”, sublinha, concluindo que “a ação policial deve ser proporcional à ação criminosa e tem que ser fundamentada” e deixando um apelo: “Mais do que nunca precisamos de conhecer os factos, agir com base na realidade e não em conformidade com as percepções. Porque as aparências enganam”.

Operação policial no Martim Moniz, 19 dezembro 2024. Foto X JM_Jonet

“Há uma imagem que circula e indigna, porque sem querer ou propositadamente liga imigrantes ao crime”. Foto reproduzida a partir da conta de X @jm_jonet

No protesto deste sábado, está já confirmada a participação de inúmeras organizações antirracistas e de apoio a imigrantes, entre as quais a Solidariedade Imigrante, SOS Racismo e Vida Justa, associações como a Casa do Brasil de Lisboa e o Moinho da Juventude, e organizações locais da Mouraria e dos Anjos, como Bangladesh Coletivo, Beahmanbaria Community of Portugal, Cozinha Comunitária dos Anjos, Renovar a Mouraria e Sirigaita.

O apelo à manifestação, que contou com mais de 1.600 subscritores, foi assinado pelo Bloco de Esquerda, Juventude Comunista Portuguesa, Juventude Socialista e Livre.

Entre os subscritores, encontram-se as escritoras Alexandra Lucas Coelho e Ana Margarida Carvalho; os realizadores Cláudia Varejão, João Salaviza e Susana Sousa Dias; as cantoras Cristina Branco e Selma Uamusse e os músicos Luca Argel e Valete; a artista plástica Joana Villaverde; as atrizes Cláudia Semedo e Cucha Carvalheiro; as advogadas Carmo Afonso e Inês Ucha; o jurista Miguel Prata Roque; os jornalistas Anabela Mota Ribeiro e Daniel Oliveira; o humorista Diogo Faro; e historiadores como Ana Balona de Oliveira, Irene Flunser Pimentel, e Manuel Loff.

Os profissionais de saúde que recentemente enviaram uma carta aberta ao Presidente da República, ao parlamento e ao Governo, manifestando-se contra a exclusão do acesso de estrangeiros em situação irregular ao Serviço Nacional de Saúde também se juntaram à convocatória do protesto.

A ação está marcada para as 15 horas, com início na Alameda, local a partir de onde os manifestantes marcharão até ao Martim Moniz.

Foto de capa: Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações. © Agência Ecclesia

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