7Margens/Antena 1

Eugénia Quaresma: Todas as pessoas têm direito a migrar

| 14 Jun 2024

Eugénia Quaresma na gravação do podcast 7MARGENS, na Antena 1. Foto António Marujo

A maior parte das pessoas que são vítimas dos conflitos que grassam no mundo não quer sequer “vir para a Europa: querem uma vida melhor”, sublinha Eugénia Quaresma neste episódio do podcast 7MARGENS. Foto © António Marujo/7MARGENS

“É um problema que [os] partidos [da extrema-direita] continuem a querer assustar as pessoas”, diz a directora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), Eugénia Quaresma, em entrevista à última edição do programa 7MARGENS, da Antena 1, que pode ser ouvida na RTP Play. A também responsável do Secretariado Nacional da Mobilidade Humana, da Conferência Episcopal Portuguesa, considera ainda que “não podemos negar o direito” que todas as pessoas “têm a circular, a procurar uma vida melhor noutra parte do planeta, porque o planeta é a nossa casa comum”.

Eugénia Quaresma refere de um modo especial os conflitos que grassam pelo mundo: “Estamos a viver duas guerras que nos atingem muito de perto”, na Ucrânia e no Médio Oriente, mas “há outras no continente africano para as quais não estamos tão sensíveis”. A maior parte das pessoas que são vítimas desses conflitos não quer sequer “vir para a Europa: querem uma vida melhor, querem uma vida em paz; e se puder ser perto de casa, melhor”, afirma. A responsável comentava deste modo o livro Como Funciona Realmente a Migração, do académico neerlandês Hein de Haas, publicado há poucas semanas em Portugal (edição Temas e Debates) e que mostra com estatísticas das últimas décadas que apenas uma parte diminuta dos refugiados e migrantes do mundo vai para regiões longínquas da sua origem.

Acerca da actual situação em Portugal e das recentes medidas do Governo, Eugénia Quaresma diz que tem uma opinião positiva acerca da criação da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) para substituir o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), como já havia partilhado com o 7MARGENS. “Era uma reivindicação antiga separar a parte administrativa” do trabalho policial, bem como da actividade de integração.

Outra das medidas, o fim das manifestações de interesse, é vista com compreensão: “As manifestações de interesse foram criadas para que a pessoa, quando estivesse em território nacional, procurasse emprego. O que fomos percebendo é que houve um uso não sei se indevido, se abusivo desse instrumento”, também por causa de diversas falhas das entidades estatais. Agora, uma vez que a medida não funcionou, a responsável católica percebe que o Governo tenha criado uma equipa especial para resolver os processos pendentes. O risco, teme, é o de “não haver respostas e aumentar o número de expulsões”. Como a fiscalização pode aumentar, muitos migrantes que vieram por vias legais, podem agora ficar “numa situação irregular”.

O diálogo entre as organizações católicas e o Estado é outro dos temas da entrevista. Em alguns momentos, refere Eugénia Quaresma, pareceu que aquelas só eram chamadas “para tapar emergências”. Mas a responsável da OCPM diz que o Fórum das Organizações Católicas para as Migrações e Asilo (Forcim) tem forçado a que os governos ouçam aquelas estruturas. “Queremos fazer parte da solução” para os problemas, reivindica.

A directora do Secretariado da Mobilidade Humana refere-se ainda ao trabalho que é necessário para criar uma sociedade mais aberta à diferença: “Precisamos de ampliar os bons exemplos e os projectos que promovem a interculturalidade e a capacidade de nos encontrarmos uns com os outros”, afirma, citando o exemplo da Academia de Líderes Ubuntu. Esta “vem recordar quais são os valores que nos humanizam [e que] passam pela escuta, pela compaixão” ou ainda pela “empatia, resiliência e capacidade de servir”. Às vezes, diz a responsável católica das migrações, “o que falta em alguns líderes políticos é a formação na liderança servidora”, de modo a estar “ao serviço do outro, sem nos esquecermos de desenvolver as nossas competências e pormos tudo aquilo que somos ao serviço do bem comum”.

“É preciso investir na educação”, diz ainda Eugénia Quaresma, e na educação vista de “forma interligada: quem trabalha com crianças, tem de pensar num trabalho com famílias”, exemplifica, e os jovens precisam de ter “liberdade para procurar grupos de pertença”. O bom trabalho que se faz com as crianças mais pequenas tem de ser continuado “no ensino superior”, onde tantos estudantes estrangeiros se sentem discriminados, conclui.

A entrevista pode ser ouvida na íntegra em: https://www.rtp.pt/play/p12257/e774781/7-margens

Eugénia Quaresma na gravação do podcast 7MARGENS, na Antena 1. Foto António Marujo

A directora do Secretariado da Mobilidade Humana pede uma maior aposta em projectos que promovam a interculturalidade e o encontro. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

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