Euromiopia

| 31 Mar 21

Cuidado com o eurocentrismo. Há mais mundo para lá da Europa, meus senhores. A bitola europeia não serve para avaliar a diversidade da casa comum da humanidade.

Culto

“Para conseguirmos ler o sentir de um povo temos que abandonar a nossa experiência e convicções…” Foto © Diana Polekhina / Unsplash

 

Um dos maiores erros do observador europeu quando olha para a realidade social, política e religiosa das Américas é partir sempre dos seus próprios pressupostos, seja em que dimensão for.

Acontece frequentemente que nós, portugueses, olhamos para a realidade religiosa do Brasil ou mesmo dos Estados Unidos e não entendemos nada do que se passa. No caso dos nossos irmãos de língua faz-nos confusão a extrema diversidade das religiões e espiritualidades, a sua afirmação e relevância na vida pública, a sua aceitação geral sem preconceitos, em suma, uma certa postura livre dos homens e mulheres de fé que não têm receio de partilhar publicamente as suas crenças religiosas ou a falta delas.

Relativamente aos Estados Unidos custa-nos a engolir que a religião influencie tanto a política e a sociedade, como durante o trumpismo e que os líderes religiosos assumam tal postura com frontalidade e até orgulho.

Por aqui, passámos do Portugal monolítico de há cem anos, em que poucos ousavam negar a sua filiação no catolicismo oficial, para um país que se apresenta largamente como católico mas apenas por tradição ou agnóstico, uma espécie de terra de ninguém e lugar de conveniência, como se fosse uma marca de Modernidade e uma afirmação europeísta.

A questão é que, se queremos entender o mundo temos que mudar de óculos. A Ásia, a África e o continente americano exprimem realidades sócio-religiosas muito diversas do que conhecemos neste canto ocidental da Europa. No fundo, a resistência à diversidade não passa duma questão de mentalidade. Não se pode esperar ampla aceitação do que é diferente num país que só desmantelou formalmente o sistema da Inquisição há umas quantas gerações, mesmo que os autos-de-fé já não se realizassem há muito. Em parte será isso que explicará o sucesso da PIDE e dos seus “bufos” durante o salazarismo-marcelismo. Todos sabemos que mudar leis é fácil, o que é difícil é aplicá-las e sobretudo mudar as mentalidades.

Como entender o crescimento exponencial dos grupos neopentecostais a partir do Brasil, quando surgem sem qualquer consistência teológica e transformados em empresas de exploração dos medos, da ignorância e da crendice no mercado da fé? Como entender que políticos sem convicção de fé pessoal que seja conhecida façam fila à porta das lideranças religiosas para lhes agradar? Como entender a troca de favores entre o campo religioso e o político? Como entender a já longa prática de líderes religiosos no activo que se candidatam a cargos electivos, correndo o risco de dividir o rebanho que pastoreiam? Como entender o sistema dos “currais eleitorais” nas igrejas onde os pastores se dispõem a manipular o sentido de voto das massas, em nome de ganhos pessoais ou de grupo?

Estas e muitas outras questões desafiam o princípio basilar do estado laico e de direito democrático que é tão caro aos europeus, mas que não é visto da mesma forma noutras sociedades.

Para conseguirmos ler o sentir de um povo temos que abandonar a nossa experiência e convicções para entender minimamente os fenómenos sociais que se nos deparam. Precisamos de arriscar uma incursão em território desconhecido.

No caso norte-americano verifica-se uma progressiva mudança estrutural de uma sociedade WASP (branca, anglo-saxónica e protestante) para um outro tipo de sociedade muito mais mesclada pelo crescimento dos hispânicos, asiáticos e negros, e na qual se prevê que a maioria branca deixe de o ser dentro de algum tempo. Tal mudança demográfica implica alterações significativas na identificação religiosa, além da queda do próprio protestantismo branco, cuja agenda política as novas gerações parecem não estar a acolher, segundo estudos recentes.

O caso brasileiro é ainda muito mais complexo em consequência do processo de construção daquela sociedade. O populismo encontrou desde sempre terreno fértil na América Latina e dá hoje corpo a um subtipo específico a que podemos chamar populismo religioso, tão bem interpretado pelos sectores religiosos que promovem o culto da personalidade dos seus líderes, em especial nas franjas neopentecostais.

Na prática, as sociedades dos novos mundos gozam de maior liberdade, sem as peias duma tradição secular, mas arriscam a emergência de grupos de oportunistas sem escrúpulos que apenas pretendem fazer uso do mercado religioso ao tirar partido da crendice popular e da fragilidade emocional e existencial das populações, em particular dos menos formados e informados.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde menos se espera, aí está Deus

Onde menos se espera, aí está Deus novidade

Por vezes Deus descontrola as nossas continuidades, provoca roturas, para que possamos crescer, destruir em nós uma ideia de Deus que é sempre redutora e substituí-la pela abertura à vida, onde Deus se encontra total e misteriosamente. É Ele, o seu espírito, que nos mostra o nosso nada e é a partir do nosso nada que podemos intuir e abrir-nos à imensidão de Deus, também nas suas criaturas, todas elas.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This