Europeias 2019: Não nos tires as tentações

| 16 Mai 19

A Europa vista de satélite. Foto NASA

 

Em 1995, Carl Sagan escreveu assim, em Um Mundo Infestado de Demónios: “A sociedade de hoje é uma civilização global em que os elementos fundamentais – transportes, comunicações, indústrias, agricultura, medicina, educação, divertimento, ambiente, e até a instituição democrática fundamental das eleições – depende profundamente da ciência e tecnologia. Contudo, as coisas estão organizadas de tal forma que quase ninguém as entende, e isto é a receita para a catástrofe. Mais cedo ou mais tarde, esta mistura explosiva de ignorância e poder vai rebentar-nos na cara.”

Em 2018, a premonição de Sagan parecia já mais real do que nunca. Em novembro, o Eurobarómetro indicava que menos de metade dos portugueses (46%) se afirmava capaz de identificar notícias falsas ou deturpadoras da realidade (a média na UE é de 58%). Descartes ficaria aterrorizado, certamente, ao perceber que a sociedade científica e racionalista que batizou (ironicamente na ânsia de se libertar do teocentrismo) daria origem a uma realidade onde a verdade é altamente questionável.

No ano em que se realizam no país três atos eleitorais em território nacional, a situação é preocupante. E Portugal é um caso: apesar de os portugueses acusarem uma “quebra de confiança nos partidos políticos, no Governo e no Parlamento”, continuam a acreditar na União Europeia, ao contrário de vários países europeus. Só que, apesar disso, apenas 3% dos jovens portugueses diz ser “extremamente provável” ir votar nas eleições para o Parlamento Europeu. Desculpem-me a pergunta, mas: em que ficamos, gente?

Bertrand Russel responderia (já em 1949) que, quando um indivíduo não entende a sociedade onde vive, tende a dois tipos de fuga: a alienação ou a radicalização. Portugal parece ter optado pela primeira enquanto se generaliza pela Europa uma onda de populismo, que procura certezas desenfreadamente. (A reflexão sobre a atitude lusa fica para outra altura.)

Há dois anos, o Papa Francisco disse aos líderes da União Eeuropeia, reunidos no Vaticano por ocasião do 60º aniversário do Tratado de Roma, que a Europa “corria o risco de morrer” se não reencontrasse os seus ideais fundadores. O antigo vice-presidente da Comissão Europeia, Étienne Davignon, salientou que o debate europeu estava confuso, minado de dúvidas, medo e desencanto. Parece que, em 2019, o diagnóstico se complicou mais um pouco.

Vivemos eleições históricas. E sem querer tirar mérito às legislativas: é Portugal que vai responder aos perigos das alterações climáticas? Da Inteligência Artificial e proteção de dados? Aos desafios da engenharia genética? Aos riscos de uma guerra nuclear? “Coletes” amarelos, Brexit’s e Viktor Orbán’s? Como pode um projeto visionário, que levantou a Europa após a II Guerra Mundial, passar por tempos tão difíceis?

Arrisco-me a dizer que seja porque há muita gente com crises existenciais (o que é legítimo). O populismo é uma facada na democracia, como a guerra o é no coração da humanidade. Enquanto o sangue marca a pele, a tolerância, a cooperação, a abertura de fronteiras parecem sempre a melhor ideia. No entanto, parece que o mundo tem memória curta e se recusa a aprender que, apesar de ser o mais difícil, dar as mãos é o mais simples e eficaz.

Estamos em crise, sim. Coisa que millennialde respeito, como eu, não se atreveria a viver sem. Afinal, não sabemos o que é crescer sem ela. A questão é que isso não é necessariamente mau, por muito que o fado português insista. Na etimologia grega, temos uma Europa em “luz e oportunidade”. E se há oportunidade para a Europa, há oportunidade para nós porque nós somos a Europa.

Estamos em crise, sim. Que bom. Porque é tempo de escolher e definir caminhos. Ao que parece, a última braçada de bruços perdeu balanço e é a nossa vez de dar o próximo impulso. Com a liberdade de questionar o inquestionável, herdámos o peso da responsabilidade. Mas desde quando desligar o automático é mau? (Só quando não há literacia política, cultura científica e educação para os media – fica a dica).

É que tudo isto não é sobre “tira-nos as tentações”, mas sim sobre o “não nos deixes cair em tentação”. Porque momentos destes testam fortalezas. E isso é um privilégio que temos de honrar nas mesas de voto.

 

Mónica Ribau é jornalista e doutoranda em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável no Instituto de Ciências Sociais da Univ. Lisboa. Especialista em incerteza e problemas complexos, a religião e a ciência são parceiros antigos no caminho pela verdade; foto da autora: © Diana Tinoco

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