Eutanásia: Para que os que não vêem, vejam…

| 18 Fev 20

Mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira

 

Foi elucidativo e frutuoso o diálogo entre a deputada Isabel Moreira, constitucionalista, e o padre José Nuno, porta-voz do Grupo Inter-Religioso Religiões-Saúde, levado a cabo pela TVI24, quinta-feira, 13 de Fevereiro, no Jornal das 8 (aqui um pequeno excerto; até às 20h do próximo dia 20 ainda é possível, para quem tem operador de televisão digital, ver o debate na íntegra).

Isabel Moreira limitou-se a esclarecer que esta iniciativa legislativa pretende aperfeiçoar e alargar os direitos contidos na legislação já existente, sempre no respeito pelo quadro constitucional vigente, pelo que esta iniciativa inclui um muito elevado número de “salvaguardas”, o que cria as condições para a aprovação de um dos textos mais restritivos de entre toda a legislação já aprovada em outros países.

O padre José Nuno – e retomo apenas algumas das suas últimas palavras, ditas a concluir o diálogo – enfatizou o oferecimento do sacrifício da dor (mesmo a dor atroz, insuportável) como bem civilizacional e educacional para as gerações vindouras, pois foi isso que todos herdámos da civilização humana que nos antecedeu e foi isso que nos constituiu como seres moralmente superiores (estas palavras não são citação).

José Nuno, ao cabo e ao resto, retomou o conceito de sacrifício (de cariz religioso da Antiguidade), mas como herança e legado civilizacional inegociável (porém, referendável!). Por isso, para ele, a eutanásia é um retrocesso, uma fortíssima machadada civilizacional, uma espécie de suicídio civilizacional… (Nota: estas palavras expressam apenas a forma como eu “li” e “recebi a mensagem” do padre José Nuno)

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira

Teologia “estreitamente focada”

No plano teológico, considero que esta perspectiva se situa dentro do “contexto mais limitado” do próprio Antigo Testamento (AT). Nem os profetas do AT, que eram na verdade críticos de muitas práticas religiosas (“sacrifícios de vítimas inocentes aos deuses”), eram tão “estreitamente focados” na sua teologia: não criticavam apenas o culto sacrificial nos altares (a religião pela religião), mas criticavam a oferta, de vítimas expiatórias, desligada da justiça social e desligada ou indiferente à imoralidade dos comportamentos quotidianos mais banais (Oseias 6,4-11; Os 4, 8-14.18s; 6,9s; 8,5.11-14; 9,1; Amós 2,6-14). Para os Profetas, aquilo que tu fazes dentro de casa, no campo ou nas relações contratuais com os estrangeiros ou com os vencidos da guerra vale moralmente tanto como aquilo que tu realizas no “espaço sagrado” à volta dos altares… ou dentro dos templos.

Esta ideia acaba por sublinhar enfaticamente, sobretudo, o carácter expiatório e salutar do sofrimento esquecendo que foi precisamente contra a característica de “purificação” e de “reparação” sacrificial em termos abstractos, teóricos e desligada da vida relacional (social e política ou quotidiana), que Jesus se expôs e deu a sua vida. Para Jesus, muito mais do que a dimensão cultual (o “culto” que, precisamente para Jesus, ficará completamente na sombra … e que, por isso, lhe custará o epíteto de “blasfemo”; João 10, 36), ‒ previamente a tudo o que é ritual, p. ex. a Oração e o Culto (Missa e Oferendas; “os sacrifícios”) ‒ prevalece a compreensão do próximo no concreto da sua vida e a “reconciliação com o próximo” (Mateus 5, 23), ‘decretando’, assim, o relativismo total dos sacrifícios cultualistas do Templo (ao contrário daquilo que, precisamente ainda hoje, se pratica nos templos das igrejas católicas…).

Indo contra o exemplo de Jesus, São Paulo também considera o derramamento de sangue (de Cristo) ‒ ou seja, o “culto” em si ‒ um “sacrifício redencional e expiatório” (cf. Romanos 5,8; Efésios 1,7 e 2,13; Colossenses 1,20; 1Pedro 1,2.19). São Paulo prega ‒ o que, para mim, é chocante! ‒ que Cristo, pela sua morte, é a vítima imolada cujo sangue funda a Nova Aliança (1 Coríntios 11, 25), sangue através do qual são expiados todos os pecados e pelo qual (sangue) os homens se reconciliam com Deus… Esta formulação teológica, para mim, é inadmissível!

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira

 

Tanto mais que Jesus diz: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito.” (João 3, 5-6). A própria Eucaristia é-nos, domingo após domingo, apresentada como “sacrifício”, memorial vetero-testamentário, de costas completamente voltadas para o verdadeiro culto que só pode ser Amor Espiritual, e que, nos escritos joânicos, quer dizer: Vida Plena, Realização Plena da Vida que há em Nós todos, Felicidade Plena, Entrega Amorosa Plena, Espírito Pleno, Combate Pleno por causas Eternas: solidariedade, compaixão, partilha de tempo e de bens … até ao fim das nossas forças, dos nossos bens e do tempo da nossa passagem por esta Terra.

 

“Eu vim para que tenham vida…”

Em suma: para um católico (como eu) o que está em causa com o meu apoio ao “sim à descriminalização” é a realização plena de um Projecto de Vida não exclusivamente biológico, e nunca ‒ mas nunca, mesmo ‒ um esticar da “corda corporal” ao máximo, até bater todos os rankings estúpidos de resistência ao sofrimento, projecto próprio de uma mente doentia, autoflageladora, “sacrificial”… (recordo o chocante que, para mim, foi aquilo que chegaram a exigir ao quase moribundo Papa João Paulo II, arrastando-o até à janela vaticana com quilos e quilos de paramentos bordados a oiro e prata aos ombros…)

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10, 10) – disse Jesus de Nazaré (não disse: “Vão até ao fim! Aguentem-se o melhor que puderem que depois vos compensarei…”).

Quanto aos que valorizam, sobretudo, a Vida em Cristo como “vitalidade orgânica e biológica” (um coração que ainda bate, um “EEG vivo”) ou como “princípio ontológico” (uma teoria escolástica desligada dos avanços médicos, técnicos e humanistas), aceito que se sintam desconcertados diante da eventualidade de vir a ser aprovada legislação descriminalizadora da morte assistida. O mesmo terão sentido aqueles a quem Jesus disse: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares.” (Mateus 10, 34-36) ou “Eu vim para proceder a um juízo de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.” (João 9, 39)

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira

 

Paulo Bateira é médico e leigo católico no Porto

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