Evangélicos no poder: “pureza” ou escondimento?

| 12 Abr 2022

O ex-ministro da Educação do Brasil, Milton Ribeiro. Foto © Fabio Rodrigues-Pozzebom

O ex-ministro da Educação do Brasil, Milton Ribeiro. Foto © Fabio Rodrigues-Pozzebom.

 

Os evangélicos não são tão “irmãos em Cristo” como fazem crer; historicamente existem incontáveis conflitos e disputas teológicas internas. Lembremo-nos de uma mais antiga, mas que ainda hoje nutre muitas controvérsias dentro deste segmento; trata-se da polêmica doutrinária e política que conduziu o Sínodo de Dort no século XVII, tendo como principais agentes os calvinistas versus arminianos. O cerne da discussão repousava sobre a ordem dos decretos da salvação. Para os calvinistas, as relações comerciais que a classe mercantil mantinha com a Espanha ameaçavam a “pureza” da Igreja holandesa e, por essa razão, importava um documento que registrasse sua posição doutrinária. Esse documento, conhecido como Cânones de Dort, se opunha ao documento intitulado Remonstrantia, elaborado pelos arminianos. É importante dizer que os calvinistas não faziam parte da classe mercantil, enquanto que os arminianos eram apoiados por ela. Nesse contexto, é sempre válida a pergunta: estavam os calvinistas preocupados com a “pureza” da igreja ou ressentidos por não desfrutarem da prosperidade trazida pelo comércio com a Espanha?

Hoje localizamos a teologia arminiana no seio das igrejas pentecostais e neopentecostais, enquanto a teologia calvinista tem a adesão, entre outras denominações protestantes, principalmente das igrejas presbiterianas. 

Milton Ribeiro, o quarto ministro da Educação no governo Bolsonaro, é pastor na Igreja Presbiteriana Jardim de Oração de Santos, no litoral de São Paulo, mestre em Direito e doutor em Educação, tendo sido nomeado para o importante cargo estratégico em razão do seu enfoque profissional-acadêmico nas pautas religião, teologia e pedagogia. Milton Ribeiro defendeu sua tese de doutorado na USP, em 2006, com o título Calvinismo no Brasil e organização: o poder estruturador da educação. Também exerceu o cargo de reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a qual exaltou durante sua posse em 2020, afirmando:

“Como é de conhecimento público, tenho parte da minha história junto à Universidade Presbiteriana Mackenzie, que neste ano comemora seu sesquicentenário. Registro ainda que esta é a herança reformada pedagógica e inclusiva que eu trago […] conquanto tenho a formação religiosa, meu compromisso, que assumo hoje ao tomar posse, está bem firmado e bem localizado em valores constitucionais, da laicidade do Estado e do ensino público, assim, Deus me ajude, obrigado.”

Milton Ribeiro não foi o único calvinista a assumir uma área técnica do governo Bolsonaro; entre os calvinistas que integram ou integraram o governo podemos citar: André Mendonça, atual ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), ex-advogado-geral da União; Benedito Guimarães Aguiar Neto, ex-presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao Ministério da Educação); Carlos Decotelli, ex-ministro da Educação; Danilo Dupas, presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira); Guilherme de Carvalho, ex-diretor de Promoção de Educação em Direitos Humanos, ligado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Há pelo menos duas razões para essa constante calvinista no governo Bolsonaro, principalmente em quadros técnicos: o forte apelo moral dessa tradição religiosa e seu suporte intelectual – haja em vista a formação acadêmica dos seus adeptos e estreita relação com a Universidade Presbiteriana Mackenzie. Esperava-se que essa combinação pudesse surtir efeitos mais otimistas para o governo. Possivelmente, os calvinistas que historicamente orgulham-se de sua integridade teológica e moral, depositaram nas mãos desses representantes a esperança de “purificar” este país. Um manifesto redigido pela Frente Parlamentar Evangélica aos brasileiros em 2018, por exemplo, tinha como proposta combater a corrupção, solucionar os problemas de segurança jurídica, fiscal e revolucionar a educação, libertando-a de ideologias contrárias à moral cristã e aos valores da família. 

No dia 21 de março deste ano, no entanto, o jornal Folha de São Paulo revelou áudios em que Milton Ribeiro, ministro da Educação até aquele momento, afirmava dar prioridade a pastores na distribuição de verbas da pasta a pedido do Presidente Jair Bolsonaro. Milton Ribeiro, que no decorrer do seu mandato no MEC esteve envolvido em diversas polêmicas e agora também com corrupção, não viu outro caminho a não ser anunciar o seu pedido de exoneração do Ministério da Educação. Silas Malafaia, pastor arminiano da Assembleia de Deus, não perdeu tempo e reagiu: “Tem que ser demitido para nunca mais voltar!”. 

Assim, o ethos calvinista, como único capaz de salvaguardar os valores cristãos e colocar a nação nos trilhos mostra-se, entre tantas tentativas na história, novamente insuficiente. Talvez porque aqueles que se afirmam comprometidos com um retorno à “pureza” da mensagem cristã, sejam eles calvinistas ou arminianos, não estão, nem minimamente, comprometidos com o valor universal da honestidade e, em suas bocas, “valores constitucionais de laicidade” são meros artifícios para legitimar a ocupação de espaços que não deveriam ocupar enquanto se escondem atrás do nome de Deus. 

Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.

 

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