Pandemia continua a alastrar no Brasil

Evangélicos perdem a fé… em Bolsonaro

| 27 Jul 21

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, está a perder apoiantes dentro das fileiras evangélicas. Foto © Alan Santos

 

À medida que a pandemia continua a deixar um rasto de infetados, internados e mortos, evangélicos de todo o Brasil lançaram nesta quinta-feira (22) um manifesto contra a “política de morte” do presidente Jair Bolsonaro.

O documento é assinado por 37 entidades religiosas. São grupos que resistem ao retrocesso que o país atravessa desde o processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016 – como a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito – e outros, que vêm aderindo à Coligação Evangélica contra Bolsonaro, na medida em que evolui a crise, sanitária, social, política e económica do país. “Bolsonaro não tem ideia do que o seu negacionismo causou na base da fé cristã, dos protestantes, o que deve ter acontecido com católicos e espíritas”, diz o pastor Ariovaldo Ramos, coordenador da Frente.

Bolsonaro, diz o texto, governa “à base de mentiras” e manipula o discurso do Evangelho. Ele “cria uma religiosidade mentirosa que nada tem a ver com o verdadeiro Evangelho, causando perversão e idolatria cega, além de uma ignorância negacionista, tanto da ciência como dos ensinamentos libertadores e verdadeiros de Jesus Cristo”. Jesus destacou a valorização da vida. Ele curou enfermos, multiplicou pães e peixes, deu vida e dignidade às pessoas, também aos excluídos e condenados pela sociedade. “Na contramão disso tudo vemos o (des)governo do presidente Jair Bolsonaro como um agir maligno, que já permitiu a morte desnecessária de mais de meio milhão de irmãos e irmãs de nosso querido Brasil”, pode ler-se no texto colocado no site da Unisinos.

A realidade associada à tragédia que já levou mais de 540 mil brasileiros à morte é impossível de ser negada. O combate de Bolsonaro a medidas simples, mas fundamentais, como uso de álcool em gel, máscaras de proteção, distanciamento social, e até mesmo às vacinas, foi seguido por milhões de evangélicos, e o resultado catastrófico se abateu sobre eles. “A proporção de evangélicos (entre 25% e 30% da população brasileira) que morreram é muito grande. Muitos pastores cooperaram com o negacionismo de Bolsonaro. As pessoas o apoiaram na prática, foram a movimentos, cultos, encontros. Mas então começaram a ser assaltadas pela realidade”, diz Ramos. “O tio, a avó, o avô, parentes começaram a morrer.”

Mas não apenas isso. Houve um templo, conta o religioso, que perdeu seus cinco pastores para a covid-19 de uma única vez. “As pessoas dormiram com cinco pastores liderando uma grande comunidade e acordaram com os cinco mortos. Isso causa um impacto emocional que não se mede por estatísticas, (isso) criou marcas profundas.” Segundo avaliação de Ramos, presbítero da Comunidade Cristã Reformada em São Paulo, após a explosão da pandemia e “a debacle nacional” – desemprego, crescimento da fome etc. – , os evangélicos começaram a abandonar o barco bolsonarista. “Começou no povo, e foi chegando aos pastores. A adesão de pastores (ao “Fora Bolsonaro”) é cada vez maior.”

Os efeitos perversos causados por Bolsonaro e o seu negacionismo transcendem a própria realidade concreta (e perversa). A aliança entre pastores e o presidente, a pregação de que as pessoas podiam desprezar máscaras e demais cuidados, porque “não vai acontecer nada”, provocou uma crise de fé.

Graças ao negacionismo, as mortes alastraram-se entre as comunidades evangélicas, e as pessoas começaram a perguntar-se: “’Por que aconteceu comigo, com o pastor, com meu tio? Nós não tivemos fé?’ Então, precisamos de dizer às pessoas que não tem nada a ver com fé, tem a ver com descuido, irresponsabilidade, pandemia, contaminação”, diz o pastor.

Por tudo isso, na opinião de Ariovaldo Ramos, a credibilidade de Bolsonaro entre os cristãos, e não apenas os evangélicos, não tem como ser recuperada. As informações de que ele não só não comprou a vacina, como trabalhou para disseminar o vírus e pela homicida tese da imunização de grupo tornaram-se reais pelos fatos em si, indesmentíveis.

Estatisticamente, cada família brasileira tem alguém próximo, senão dos círculos próximos, que veio a falecer, ou foi infectado gravemente, teve sequela etc. Esse impacto, por motivos óbvios, vem sendo devastador entre os religiosos que seguiram as “recomendações” do chefe de governo. “Duvido que Bolsonaro consiga convencer as pessoas do contrário do que já está claro. Um ou outro pode ser assaltado pela dúvida, mas um retorno em massa não vai acontecer”, avisa o religioso.

 

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[Segunda leitura]

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