Fórum sobre Interculturalidade

Evangélicos vão mais ao culto dominical do que antes da pandemia

e | 14 Abr 2023

Forum EvangélicoEm mais de metade das comunidades evangélicas, a assistência às celebrações dominicais cresceu em relação ao período de pré-pandemia – sendo que em outros 17% dos casos a assistência manteve-se inalterada. A conclusão é retirada de um estudo que está a ser realizado pela Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), que neste sábado, 15, promove o Fórum Evangélico.

A iniciativa decorre na Faculdade de Medicina Dentária, em Lisboa, entre as 9h30 e as 18h30, sob o tema Interculturalidade: na Terra como no Céu. Usha Reifsnider, britânica de origem gujarati, filha de pais hindus, casada com um norte-americano, é a principal oradora convidada. Mestre em Teologia Prática, com doutoramento na interseção entre Antropologia Cultural e Teologia Prática, Reifsnider integra também o Conselho da Aliança Evangélica Europeia e dirige o Centro para Missionários do Mundo Maioritário.

A segunda sessão plenária será apresentada por António Rodolpho, coordenador da AMIS, a rede de Missões da Aliança Evangélica Portuguesa. De origem brasileira, é pastor e missionário em Portugal há décadas, dirige a Cooperação Missionária Ibero-Americana para a Península Ibérica e é membro da direção da Missão Evangélica Intercultura, em Portugal. À tarde, há várias oficinas de debate. Uma ExpoEvangélica, patente durante todo o dia, a exposição sobre os 100 anos da AEP (1921-2021), uma “Sala de Oração” e o “Espaço Criança”, com atividades para os mais novos em diferentes horários, são outras atividades paralelas, cujo programa completo pode ser consultado na página da AEP.

Em entrevista ao 7MARGENS, o novo presidente da Aliança Evangélica, Timóteo Cavaco, fala do Fórum, da realidade multicultural presente nas comunidades evangélicas portuguesas e dos primeiros resultados do estudo que está a ser desenvolvido pela AEP.

 

7MARGENS – O Fórum Evangélico deste sábado propõe-se debater o tema da interculturalidade, tendo em conta o contexto atual; como define os objetivos do Fórum e esse contexto?

TIMÓTEO CAVACO – O Fórum Evangélico é uma das mais recentes iniciativas da Aliança Evangélica Portuguesa, tendo tido a sua primeira realização em 2019. Foi depois interrompido devido à situação de pandemia em que vivemos e retomado o ano passado. Tal como tem sido hábito nas edições anteriores, decorre no primeiro sábado a seguir à Pascoa.

Genericamente, o Fórum Evangélico tem por objetivo juntar os crentes evangélicos em Portugal, mobilizando as suas igrejas e organizações para estarem juntas neste evento durante um dia. Procura-se, assim, proporcionar um espaço de comunhão entre as famílias evangélicas, para partilha de experiências e também das iniciativas que cada uma está a realizar no âmbito das suas igrejas e organizações. Naturalmente será também mais uma vez um espaço de celebração conjunta a Deus.

 

7M – E o tema escolhido este ano é “Interculturalidade: na Terra como no Céu”. Porquê?

Esta escolha resulta precisamente da pertinência e atualidade desse tema no contexto em que vivemos, não só ao nível global, mas de uma forma muito concreta também no nosso país. Todos os dados disponíveis evidenciam que a sociedade portuguesa nunca foi tão diversa como hoje, com mais de 750 000 cidadãos estrangeiros a residir permanentemente em Portugal. Muitos outros milhares de pessoas já têm cidadania portuguesa, embora sejam também de origem estrangeira, pelo que cerca de 10% dos residentes têm diversas proveniências.

Sabe-se que os cidadãos brasileiros se mantêm como a principal comunidade estrangeira residente no país, mas acolhemos também pessoas de outros países lusófonos, com as quais partilhamos a mesma língua apesar de transportarmos experiências culturais diversas.

Mas assistimos depois a outras realidades: por exemplo, os indianos já são a quarta comunidade mais numerosa no país e os nepaleses passaram a ser incluídos nas dez maiores comunidades estrangeiras em Portugal. Ora, a larga maioria destas pessoas não transportam consigo apenas traços étnicos e culturais, mas também a sua própria experiência religiosa. Muitos são até cristãos e, concretamente, cristãos evangélicos.

Por todas essas razões, temos a responsabilidade de saber acolher estas pessoas e ajudá-las a integrar-se na nossa sociedade. Ao mesmo tempo que reconhecemos que eles também nos ajudam a recompor a nossa própria forma de sermos portugueses, procurando estar mais atentos a essa diversidade cultural.

 

7M – Quais são os principais desafios quando se pensa em diversidade cultural, fé e comunidades evangélicas?

O cristianismo é, na sua matriz doutrinal e eclesial, bastante diverso e plural. Sob o ponto de vista histórico, essa diversidade fica desde logo evidenciada no primeiro século da sua existência e também ao longo dos séculos seguintes. A despeito de uma certa uniformização a que ficou sujeito com os processos de “oficialização” a que se assistiu a partir do século IV no contexto do Império Romano antigo, o cristianismo não deixou de representar e acolher diferentes percursos espirituais, tanto a nível individual como comunitário, com diferentes combinações institucionais, ou seja, eclesiais, que proliferaram particularmente nos territórios desse Império em desagregação política, na Europa, norte de África, Médio Oriente, etc.

Timóteo Cavaco, Aliança Evangélica Portuguesa

Timóteo Cavaco (dirª), numa conferência internacional sobre liberdade religiosa, em fevereiro, em Lisboa: “O cristianismo é, na sua matriz, diverso e plural.” Foto: Direitos reservados

 

7M – A partir do século XVI, através do movimento da Reforma Protestante, essa diversidade atinge um outro patamar…

Sim. Não só na Europa Ocidental é apresentada uma proposta alternativa ao modelo relativamente uniforme da Cristandade medieval, como também nos territórios dos “novos mundos” resultantes da expansão marítima, onde em grande parte estas populações não tinham sido antes expostas ao cristianismo.

A diferença substancial nos nossos dias, em bom rigor nos últimos séculos, mas de forma mais acutilante nas últimas décadas, é que enquanto nesses tempos nos habituámos a ver as várias alternativas cristãs basicamente acantonadas a certos territórios e a certas expressões étnicas e culturais, ao que agora assistimos, devido em grande medida a fatores de mobilidade, é a capacidade dessas alternativas interagirem no mesmo espaço no mesmo tempo.

 

7M – O que traz novos problemas…

Sim. Desde logo, essa realidade obriga naturalmente a uma reconfiguração dos padrões de vida em comunidade e nas comunidades. Talvez para as comunidades protestantes/evangélicas seja exigido um esforço suplementar neste processo de encontro entre culturas, uma vez que, pela sua própria natureza histórica e eclesial, elas são também mais diversas, mais fragmentadas, mais atomizadas dos que nas outras expressões cristãs.

Assim, importa refletir sobre em que medida o universo evangélico está preparado para acolher a diversidade cultural a que assistimos através das suas estruturas eclesiais, mas também em que medida pode ser de certo modo um fator de promoção dessa mesma interculturalidade. E fazê-lo sem transigir e sem colocar em causa a sua mensagem, os seus valores doutrinais e os seus princípios éticos.

A mensagem que atravessa todos os tempos, todos os territórios, todas as culturas, é aquela que o apóstolo Paulo deixou plasmada de forma muito clara na Primeira Carta aos Coríntios: “Quero recordar-vos, irmãos, a boa nova que vos anunciei… Cristo morreu pelos nossos pecados, conforme o que está na Sagrada Escritura. Foi sepultado e, no terceiro dia, ressuscitou, como também está na Sagrada Escritura” (15:1-4).

 

7M – Uma notícia recente do Diário de Notícias dava conta do aumento do número de comunidades evangélicas em Portugal. O perfil destas novas comunidades coincide com esse quadro que descreveu?

Essa pergunta é o pretexto para convidar os leitores do 7MARGENS e todos os interessados a acompanharem, em breve, a apresentação pública dos resultados de um inquérito coordenado pelo Gabinete de Estudos e Pesquisa da Aliança Evangélica Portuguesa.

Para já, posso adiantar algumas considerações gerais, confirmadas por dados que já são públicos através, designadamente, dos Censos, em particular os referentes a 2021, e também de inquéritos sobre identidades religiosas em Portugal, coordenados pelo professor Alfredo Teixeira, da Universidade Católica Portuguesa.

 

7M – E que dizem essas primeiras análises?

Todos os estudos apontam e confirmam efetivamente o crescimento do número dos evangélicos em Portugal e das suas igrejas. Confirmam também que uma parte significativa – mais de metade – dos evangélicos residentes em Portugal têm origem estrangeira.

Dos 350 líderes evangélicos entrevistados recentemente no âmbito do estudo da AEP, 53% afirma que a assistência às celebrações dominicais cresceu em relação ao período de pré-pandemia, sendo que 17% dos inquiridos afirmou que a assistência permaneceu inalterada, enquanto 23% afirmaram que a assistência diminuiu; os restantes (apenas 7%) afirmaram que não tinham como fazer esta comparação.

Com base nesta pesquisa é possível também identificar que 45% das igrejas foram fundadas após o ano de 2000, sendo que 6% destas igrejas foram iniciadas nos últimos três anos. Mais de 75% das igrejas evangélicas em Portugal abrangidas por este estudo batizaram novas pessoas, o que indica que muitos dos que se agregaram não estavam antes integrados em nenhuma igreja evangélica.

 

Bíblias em diferentes línguas. Foto © Hanaala76

Bíblias em diferentes línguas: “Para os evangélicos que integram o universo da AEP, o batismo implica um ato voluntário do indivíduo,” Foto © Hanaala76

 

7M – Ou seja, há uma adesão individual?

Sim, é importante realçar que, para os evangélicos que integram o universo da AEP, o batismo implica um ato voluntário do indivíduo, pelo que aqui não estão incluídas muitas outras pessoas, como crianças, adolescentes, mesmo alguns jovens que frequentam as igrejas evangélicas e que estão plenamente integradas nessas comunidades, embora não sejam batizadas.

Verificámos também através do estudo que 47% dos respondentes refere que os portugueses nas suas comunidades representam até 50% dos fiéis. Por conseguinte, os outros 53% dos líderes responderam que nas suas igrejas os portugueses são entre 51% e 100% dos membros da comunidade.

Nesta mesma pesquisa identificámos que a maioria dos indivíduos que abraçaram a fé evangélica nos últimos três anos são millennials (geração Y), portugueses e ex-católicos não praticantes. A imigração também tem contribuído para o crescimento das igrejas evangélicas: 82% dos respondentes afirmou que a comunidade brasileira é a nacionalidade estrangeira mais representada nas suas igrejas. Mas as igrejas evangélicas não são apenas frequentadas por portugueses e brasileiros, pois existe uma boa representação de pessoas provenientes dos países lusófonos africanos, América do Norte (EUA e Canadá), países do Leste Europeu e de outras proveniências.

 

7M – Com esse quadro, o que se pode esperar do Fórum Evangélico?

Pretendemos não apenas refletir sobre o que é interculturalidade, mas também inspirar todos, os presentes e os que possam aceder aos conteúdos mais tarde, a sermos crentes e igrejas mais ativos e preparados para enfrentar a realidade que vivemos. Para nos ajudar neste processo ao longo do dia, convidámos um conjunto de pessoas muito habilitadas.

 

7M – Começam com um nome improvável…

Sim, Usha Reifsnider, alguém que, ao nível da sua própria família, experimenta diariamente o desafio da interculturalidade. Mas a doutora Reifsnider é também uma pessoa altamente preparada ao nível académico, estando atualmente direcionada na sua prática e na sua investigação para o trabalho com migrantes.

A segunda sessão plenária será apresentada pelo professor António Rodolpho, coordenador da AMIS, a rede de Missões da Aliança Evangélica Portuguesa. De origem brasileira, é pastor e missionário no nosso país há várias décadas. Da parte da tarde, entre as 14h30 e as 16h00, serão realizados também diversos seminários, à escolha de cada um dos participantes, com temáticas diversas, dirigidos por pessoas muito qualificadas dentro das respetivas temáticas.

 

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