Ex-freira acusa padre de a ter violado e diz-se pronta a falar com o Papa, se a justiça não funcionar

| 24 Ago 2020

Claire Maximova. Abusos sexuais. Vida religiosa. Freira. Carmelita

Claire Maximova, então freira carmelita em França, que acusa um padre de a ter violado. Foto: Direitos reservados

 

Claire Maximova, ou irmã Virginie enquanto carmelita que foi durante dez anos, acusa um padre de a ter violado em várias ocasiões durante 16 meses enquanto estava no Carmelo. A sua história foi contada há dias pela revista francesa L’Obs, já depois de a própria ter publicado o livro La Tyrannie du Silence (“A tirania do silêncio”), em Janeiro de 2019.

De origem ucraniana, Claire viu-se sem amigos nem família em França. “O mundo eclesiástico, ao qual consagrei dez anos da minha vida, virou-me completamente as costas. Punida por ter ousado falar, quebrando a omertà das violações na Igreja”, acusa agora, depois de ter enviado nova queixa para um tribunal do Vaticano, manifestando-se disponível para se encontrar com o Papa.

A ex-carmelita diz que via o padre – identificado na reportagem como T.J. e a viver actualmente no Canadá – como um “irmão espiritual”, que a apoiava no quotidiano. Chegou a confessar a outro padre o seu receio de que T.J. se apaixonasse por ela. A prioreza soube e acusou-a de ser uma “tentadora” e ela sentiu-se cada vez mais excluída.

Em Maio de 2017, Claire falou com o superior dos carmelitas em França, Henri Dejean, responsável directo do presumido agressor, que ela alega ter alertado por escrito, várias vezes, em 2012. Na altura, o padre Dejean disse a Claire que a relação lhe dizia respeito apenas a ela. Diz o L’Obs que Henri Dejean não respondeu aos pedidos de entrevista, de acordo com o texto da reportagem, disponibilizado na íntegra em suporte digital no Il Sismografo.

 

Queixas nos tribunais civil e eclesiástico consideradas improcedentes

A ex-freira decidiu, então, apresentar queixa em tribunal civil e canónico. Em ambos os casos, acabariam consideradas improcedentes, em 2019. O procurador do Tribunal de Recurso de Aix-en-Provence invocou o facto de o acusado ter contestado qualquer acto de penetração e qualquer constrangimento sobre a queixosa. Ou seja, como explica Maître Honneger, advogado de Claire Maximova, “estamos na ‘zona cinzenta do consentimento’, muito difícil de provar em tribunal”, apesar de a então freira lhe ter sempre dito não, “como provam as muitas mensagens escritas trocadas” com T.J. – entre as quais, algumas onde este prometia não voltar a fazer mal a Claire e de corrigir o que estava errado.

O procurador invocava ainda o facto de a peritagem psicológica do inquérito canónico mostrar que T.J. não tinha consciência de forçar a irmã Claire a realizar actos aos quais só se prestava através da sua dependência emocional. Uma expressão complicada para dizer que ele era inocente porque não estava consciente de ser culpado, ironiza Maître Honneger, citado ainda pelo L’Obs.

Do lado canónico, a ex-religiosa diz que não lhe foi permitido consultar o seu dossiê e que lhe foi proposta uma indemnização de cinco mil euros. A advogada eclesiástica, Anne-Sophie de Jotemps não quis falar ao L’Obs “sobre este caso em particular”, argumentando com o segredo da instrução, tal como aconteceu com o padre Francis Waffelaert, juiz do tribunal eclesiástico encarregue do caso.

Trabalhando hoje como professora em Versailles, Claire voltou a apresentar queixa, que conduziu à abertura de um inquérito judicial. Ao mesmo tempo, recusou os cinco mil euros propostos pela instância eclesiástica e fez apelo da decisão à Rota Romana, um dos três tribunais superiores da Igreja Católica.

Foi precisamente este apelo que levou o padre Waffelaert a escrever para Il Sismografo, depois desta publicação ter reproduzido o texto do L’Obs. O oficial do tribunal eclesiástico provincial de Montpellier advoga que a causa foi aberta em Roma, o que significa que já não compete ao tribunal francês pronunciar-se sobre “as alegações unilaterais da senhora Maximova” enquanto a causa estiver aberta no tribunal da Santas Sé. Francis Waffelaert acrescenta que a Justiça civil “indeferiu a queixa de ‘violação’ da Sra. Maximova sem qualquer outra acção.” E faz notar que pode “processar por difamação de carácter aqueles que divulgam informações falsas”.

Assegura Claire Maximova ao L’Obs: “Escrevi para Roma, estou pronta para me encontrar com o Papa.”

 

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