Camilo Martins de Oliveira (1942-2022)

Exemplar diplomata, grande amigo

| 28 Abr 2022

Recordo a presença de Camilo Martins de Oliveira ao longo de quase cinquenta anos, como exemplar diplomata no campo económico e cultural, e como grande amigo. Primeiro, encontrámo-nos em Bruxelas e foi sempre um inexcedível cicerone nas instituições comunitárias, num momento decisivo em que se preparava a entrada de Portugal, na sequência natural da democracia, da decisão consumada em 1959 de adesão à EFTA, bem como da nossa entrada na Europa como espaço de liberdade política, económica e social. Como católico democrata, defensor dos valores do Concílio Vaticano II e da importância dos sinais dos tempos de João XXIII, foi em 1965 um dos subscritores do importante Documento dos 101 contra a ditadura, sobre o qual António Alçada Baptista teve um papel fundamental, no sentido de evitar que a Igreja desautorizasse formalmente o grupo de católicos que então se manifestou. 

Ainda na Morais e em O Tempo e o Modo traduziu e publicou Teilhard de Chardin. Leiam-se as Cartas do Egipto. Depois de ter estado na Guiné como alferes, trabalhou, a partir de 1969, com Rogério Martins, então secretário de Estado da Indústria, tendo tido papel relevante no estudo e acompanhamento do processo que conduziu ao fim do condicionamento industrial e do protecionismo. Depois seguiu-se um percurso notável no exterior: como delegado na OCDE, diretor da Missão Comercial em Bruxelas, perito em missões das Nações Unidas, representante económico nos Estados Unidos e depois em Tóquio (1987-2001), com funções no Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia, sendo ainda Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão). Os jornalistas que acompanharam o certame recordam a importância da sua ajuda no enaltecimento e valorização da importância das relações culturais privilegiadas entre Portugal e o Japão, na linha de S. Francisco Xavier, Fernão Mendes Pinto, Wenceslau de Morais e António Martins Janeira. Fomos em Busca do Japão (Verbo, 2015) é uma obra fundamental para a compreensão dessa relação. 

Era um conversador extraordinário; num serão, começávamos por falar da história de um biombo Namban, continuávamos na reflexão sobre a arte contemporânea, muitas vezes com a presença discreta, mas agradabilíssima, do irmão Gaëtan Martins de Oliveira, e terminávamos discreteando sobre a economia, a política internacional, a integração europeia, e ainda história ou filosofia, tantas vezes em diálogo com António Sousa Franco, grande amigo comum. Além do mais, era um leitor insaciável, imbatível no conhecimento das últimas novidades literárias. Durante mais de dez anos manteve uma apreciada coluna, que chegou a ser bissemanal, no blog do Centro Nacional de Cultura, tendo na semana em que nos deixou preparado tudo para que não faltasse a habitual crónica, que na fase final pôde recordar alguns marcos fundamentais da sua reflexão. Cito o último texto publicado: 

…Não se pode falar de ocidentalização do Japão, para além da importação, adaptação, assimilação e eventual melhoramento de técnicas sistemas. A alma nipónica recebe e rejeita tudo isso, serve-se do que é instrumentalizável, mas não se converte. A era Meiji formou a matriz do pensamento e das reações japonesas no séc. XX até aos nossos dias. Diz-nos um escritor nosso contemporâneo: “Desde essa época e até hoje, a civilização ocidental, pelos nossos contactos e fricções com ela, foi-nos pródiga em benfeitorias e, simultaneamente, fez-nos sofrer. Mais precisamente, os sofrimentos do Japão – ou talvez mesmo da Ásia – começaram quando os ocidentais se tornaram, aos nossos olhos, mais belos do que os asiáticos. E essa mágoa ou, pelo menos, esse mal-estar permanece em mim, que aqui vivo, sem conseguir liquidá-la…” Não resisto a transcrever um trecho de uma entrevista que Shusaku Endo, escritor católico japonês, há anos deu à revista Kumo: “Fui batizado em criança, isto é, o meu catolicismo foi um pronto a vestir. Depois, tive de decidir se faria o fato adaptar-se ao meu corpo ou se o deitaria fora, para vestir outro. Muitas vezes senti que queria desfazer-me do meu catolicismo, mas finalmente fui incapaz de o fazer. Não foi só não deitá-lo fora, foi sentir-me incapaz de o deitar fora. A razão disto talvez seja ele ter acabado por se tornar parte de mim. O facto de ter penetrado tão profundamente em mim quando era jovem era um sinal de que, pelo menos em parte, se tornava numa coextensão minha. Mesmo assim, não conseguia desembaraçar-me do sentimento de tratar-se de algo emprestado, e comecei a perguntar-me o que seria o meu ‘ser eu mesmo’… Penso que isso é o pântano de lama japonês em mim. Desde que comecei a escrever romances até hoje, esta confrontação do meu ‘ser eu mesmo’ católico com o ‘ser eu mesmo’ que lhe está subjacente tem, como refrão repetido por um idiota, ecoado e voltado a ecoar no meu trabalho. Senti que tinha de encontrar maneira de reconciliar ambos.’ Endo fala de pântano japonês como metáfora de uma condição cultural que suga sentimentos e ideias e dentro de si os transforma. Qualquer processo de aculturação é necessariamente complexo e demorado. Quando ouço por aí o pregão de receitas de cura socioeconómica e financeira “à americana” lembro-me sempre de um chinês famoso que, há poucos anos atrás, respondeu assim à pergunta sobre quais teriam sido os efeitos da Revolução Francesa de 1789 na China: “Ainda é demasiado cedo para o dizer.”

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian; de Camilo Martins de Oliveira, o 7MARGENS publicou em Junho de 2020 o texto Interrogar a justeza e justiça dos modelos sociais e, em Novembro do mesmo ano, Vozes humanas que não escutamos e caminhos de esperança a percorrerà família e amigos de Camilo Martins de Oliveira o 7MARGENS endereça as condolências pela sua morte. 

 

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