O contraste foi gritante: nesta quinta-feira, 26 de março, dia em que a Igreja Católica de Myanmar se uniu em oração e jejum pela reconciliação no país, pelo menos 27 civis foram massacrados em ataques aéreos na região de Sagaing, e dezenas de outros ficaram feridos, denuncia a UCA News.
Esta data havia sido designada pelo cardeal Charles Maung Bo e pelo bispo Noel Saw Naw Aye como um “dia especial de fervorosa oração e jejum pela Birmânia”. Em carta aberta, os prelados evocavam o amor e a compaixão como pilares da paz. Contudo, a realidade no terreno esteve muito longe do desejado pelos líderes religiosos.
Só na última semana, houve mais três ataques na mesma região. Um deles visou o mosteiro budista de Katha, que abrigava mais de 100 deslocados internos, tendo resultado em pelo menos 17 mortos e 20 feridos. Também em Myaung, três ataques deixaram na passada terça-feira quatro mortos, um número que irá provavelmente aumentar, dado que várias pessoas permanecem ainda presas sob os escombros de 40 casas destruídas. E em Ayardaw e Kani, outras dez pessoas perderam a vida, quando mais um mosteiro e uma escola foram reduzidos a cinzas.
Relatos citados pela UCA News indicam uma possível “mudança sombria” na doutrina da junta militar. Recentemente, um bombardeamento matou 116 prisioneiros de guerra do próprio exército que estavam sob custódia do Exército Arakan (AA). Especula-se que a junta tenha adotado uma política de tolerância zero para tropas que se rendam.
A oposição, representada pelas Forças de Defesa Popular (PDF), afirma que o recurso sistemático ao poder aéreo é uma resposta à incapacidade dos militares em recuperar território perdido nos últimos três anos. O uso de caças russos recém-adquiridos e de combustível de aviação fornecido pelo Irão — cuja exportação não foi interrompida apesar de conflitos geopolíticos noutras regiões — tem sustentado esta ofensiva.
Enquanto isso, em Genebra, o relator especial da ONU, Tom Andrews, reforçou os apelos dos líderes religiosos. Andrews alertou que, embora as sanções internacionais tenham mostrado eficácia em debilitar a junta, há sinais de que a determinação global está a diminuir.
“A diminuição da pressão internacional e a redução do financiamento humanitário podem ter consequências devastadoras”, afirmou Andrews, sublinhando que o atual clima geopolítico global está a dificultar o avanço dos direitos humanos em Myanmar.










