
Assembleia sinodal em Outubro: um avanço no discernimento comunitário e eclesial. Foto © António Marujo/7MARGENS.
O último mês de outubro de 2023 marcou uma nova etapa do processo sinodal em curso, depois da auscultação do Povo de Deus, dos encontros locais, diocesanos e nacionais e das assembleias continentais que reuniram e continuaram o discernimento em redor da problemática sinodal: como assumir a identidade sinodal que a Igreja já comporta desde os tempos primitivos?
Os documentos finais das assembleias sinodais contribuíram significativamente para a construção do Instrumentum Laboris (IL) desta primeira sessão da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, realizada durante o mês de outubro. Foi um inédito conjunto de participantes sinodais que se encontrou em Roma, rezando juntos, dialogando e procurando encontrar algumas respostas às questões levantadas pelo IL.
Certamente que não terão encontrado respostas definitivas. Muito menos se podem esperar respostas que modifiquem o teor da mensagem da Igreja, que é a mensagem de Cristo. Poderão, contudo, ter avançado no discernimento comunitário e eclesial de como pode a Igreja Católica ser mais fiel à mensagem do Senhor, assumindo-se como comunidade de comunidades de discípulos missionários.
Da procura destas respostas, sublinharia duas questões essenciais.
- Concretização: encontrar aspectos que, de uma forma ou de outra, possam ressoar, na escuta de uns dos outros e do Espírito Santo, como mais fortes, mais unânimes ou revestidos de particular significado entre a diversidade. É claro que sinodalidade, autoridade, participação, etc., são temas teologicamente difíceis e culturalmente diversos. Importa, contudo, encontrar aspectos unificadores que nos ajudem, enquanto Igreja, a clarificar a nossa acção. Certamente que essa concretização passará pelo assumir da nossa missão evangelizadora, e deverá também trazer luz sobre os modos concretos de a levar por diante. Que estruturas servem e precisam ser criadas ou renovadas? Que metodologias já não se aplicam, são obsoletas e descabidas?
A título de exemplo podemos recordar algumas das estruturas cuja importância foi sublinhada pelo Concílio: os conselhos pastorais. É preciso que o Sínodo continue a acontecer a nível das comunidades! É fundamental rever o seu funcionamento e colocar em prática a sinodalidade, não só, mas também a este nível. Não podemos esperar que um bispo carregue isoladamente as problemáticas pastorais da diocese e que as possa superar apenas com a ajuda do seu clero. É preciso uma colaboração mais estreita, que não se resume à concretização de acções pastorais (tantas vezes apenas de manutenção ou de recreação) mas começa pelo discernimento conjunto – entre clero e leigos –, pelo cultivo das relações alicerçadas na oração, pela distribuição transparente de tarefas e consequente acompanhamento e avaliação.
- Ter a coragem de tomar decisões

Cardeal Hollerich: “Tomar decisões quando elas precisam de ser tomadas.” Foto © Vatican Media
Nas vésperas desta sessão da Assembleia Geral, e graças a uma iniciativa da Comunidade de Taizé e da Secretaria do Sínodo dos Bispos, tive a oportunidade de participar uma conferência e num debate com o cardeal Jean-Claude Hollerich, relator-geral desta Assembleia.
Quando questionado sobre a graça que desejava obter ao longo deste processo, pediu-nos que rezássemos para “ter a coragem de tomar decisões quando elas precisam de ser tomadas”. Esta noção acutilante e assertiva sobre o que esperamos deste Sínodo reforça o nosso desejo de que todo este processo não se fique pelas palavras elaboradas, pelas reuniões agradáveis e pelas iniciativas mais ou menos entusiasmantes. É preciso querer escutar o Espírito Santo e, com Ele, saber discernir e saber decidir, em conjunto! É preciso ter coragem de combater eficazmente a célebre posição “sempre se fez assim”, confundindo a Tradição Apostólica com tradicionalismo e com comodismo.
Faltam ainda 12 meses para a conclusão deste Sínodo. Que seja possível reformular aquilo que tem de ser reformulado, exigindo ainda mais deste processo sinodal. É preciso exigir, é preciso ousar no “caminhar juntos”. Que os próximos meses nos possam ser úteis para preparar a sessão da Assembleia Geral em Outubro de 2024.
Que este processo sinodal nos ajude a caminhar em Igreja, assembleia dos baptizados em Cristo e a dizer, em obediência ao Pai, “O Espírito Santo e nós decidimos…” (At 15, 28). Vamos em frente.
Rui Lourenço Teixeira é médico e foi um dos participantes portugueses no Sínodo sobre os Jovens, realizado em 2018.










