O jornal Religion Digital publicou, no início de fevereiro, uma interessante opinião sobre a sinodalidade. Num congresso realizado pela Rede Ecclesia in America, a teóloga Consuelo Vélez apelou “a realizar uma teologia intercultural para se poder falar, verdadeiramente, da Igreja sinodal” e aponta, decididamente, que “a sinodalidade, sem transformar o clericalismo, perpetua a estrutura”, porque “o clericalismo é uma realidade que continua a ameaçar a igualdade fundamental que todos nós temos através do batismo” e “a cultura clerical impediu-nos de viver essa dignidade batismal com todas as consequências”. Confiada nos frutos do Sínodo: “Embora a sala sinodal tenha uma riqueza de universalidade de origens, na hora da verdade pode-se ver a uniformidade do hábito que a Igreja se deu”, não deixa, porém, de colocar a questão na hierarquia da Igreja, como alterações de fundo – que “serão um milagre”, ou “não me parece fácil” – dado que ela, a hierarquia, é de facto quem possui os poderes. Aliás é evidente no nosso país, Portugal, que ou as aprovações sobre Sinodalidade, dizem, já existiam ou elas são elaboradas e aprovadas pelas entidades máximas do “pico da pirâmide”. Exemplos são: a aprovação de regulamentos dos Conselhos Pastorais Paroquiais ou que estes já representam a Sinodalidade, mesmo que os seus elementos o sejam há anos os mesmos ou não ouçam as assembleias paroquiais, que não existem. Aliás, os Conselhos Paroquiais, existiam, tantas vezes, porque assim os párocos entendiam necessários.

Consuelo Vélez durante a sua intervenção. Foto: site Reilgión Digital
É como refere a teóloga não se reconhece “o rosto do outro” e possuem uma prática em que “ser capaz de caminhar com os outros”, não existe. Existem simulacros, mas nem estes possuem as verdadeiras razões para uma igreja que tenha por rosto Jesus. Ou seja – digo eu –, tudo estava bem, até que surge uma palavra da sinodalidade do Povo de Deus. Possui toda a razão a teóloga porque o documento sinodal vai ser lido e interpretado sempre pelos “poderes” constituídos. E nem estes ainda perceberam o sentido do papa Francisco ao não fazer qualquer “exortação apostólica”, mas ao assumir como documento da Igreja o que o Sínodo aprovou, talvez o gesto mais profético existente em todo o processo sinodal.
Mas a teóloga continua: “Se não estamos interessados em transformar o clericalismo, a estrutura continua, mesmo que falemos de sinodalidade ativa e passiva”, é que “a cultura clerical nos impediu de viver essa dignidade batismal com todas as consequências” e coloca a chamada “questão das mulheres” transversal a todo o processo sinodal e esquecida no documento final. Conclui: “Temos de transformar o clericalismo, que não permite culturas diferentes. Existe uma cultura clerical, que divide aqueles que têm o Espírito Santo e outros, que parece que temos de obedecer.”
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










