Maria Luísa Paiva Boléo (1941-2024)

Existiria catequese sem ela? Sim, mas… não seria a mesma coisa

| 29 Abr 2024

Maria Luísa Boléo. Foto Agência EcclesiaMC

Maria Luísa Boléo. “O que é dado na catequese às crianças marca-as profundamente. Acredito que vale a pena!”, afirmava. Foto © Agência Ecclesia/MC

Ser catequista começou como uma herança, que Maria Luísa Boléo recebeu demasiado cedo. Um dos últimos pedidos que a mãe lhe fez – poucos dias antes de falecer, muito jovem – foi que preparasse a irmã mais nova, então com três anos e meio, para a Primeira Comunhão e o Crisma. Maria Luísa levou o pedido a sério. Tão a sério que acabou por fazer dessa herança missão de vida. Colaborou durante mais de 60 anos com o Secretariado Diocesano da Catequese de Lisboa e prometeu que nunca se reformaria da catequese. Morreu este domingo, 28 de abril, aos 82 anos, numa altura em que se preparava para criar mais um módulo para o novo curso de formação de catequistas. Promessa cumprida.

“É grande a nossa gratidão pela fidelidade do seu testemunho, pela sabedoria do seu ensinamento e pela sua paixão pela catequese. Milhares de catequistas poderiam contar o que significou a presença assídua da Maria Luísa na vida da catequese diocesana e o modo como o seu testemunho pessoal de vida” teve impacto neles, escreve o padre Tiago Neto, diretor do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa, numa nota publicada esta segunda-feira.

Natural da paróquia da Sé, em Lisboa, Maria Luísa Paiva Boléo nasceu em 1941, no seio de uma família cristã. Foi a sua mãe que, recorrendo a manuais vindos de França, assegurou o seu “despertar religioso” e lhe deu “catequese familiar” até aos dez anos. Após a morte da mãe, e depois de ter sido catequista da irmã mais nova, Maria Luísa Boléo começou a dar catequese na paróquia de São João de Deus, a convite do pároco, tinha então 15 anos. Entusiasmada com esta missão, inscreveu-se nos primeiros cursos de catequistas do Patriarcado, e integrou o Secretariado Diocesano da Catequese em 1961. No ano seguinte, em julho, foi convidada a fazer primeiro curso para formadores de catequistas. De novo, disse “sim”. Em outubro desse mesmo ano, iniciava a atividade de catequista formadora, de Norte a Sul do país.

Seguiram-se uma experiência missionária em Angola, de 1972 a 1974, a colaboração com o Secretariado Nacional da Educação Cristã, de setembro de 1974 a março de 1981, e o regresso ao Secretariado Diocesano da Catequese de Lisboa, em setembro de 1981. Tudo isto enquanto abraçava outra grande missão, a da maternidade, com a adoção de três crianças: Margarida, orfã que trouxe consigo de Angola em 1974, a quem se juntaram Nuno, em 1976, e Paulo, em 1980. E sem esquecer a sua carreira como professora de Educação Moral e Religiosa Católica, que iniciou em 1968 e interrompeu em 1972, retomando depois de 1981 a 2006, ano em que se reformou – do ensino, leia-se, não da catequese.

“Fui catequista sempre!”, dizia orgulhosamente Maria Luísa Boléo em fevereiro do ano passado, durante uma homenagem que o Patriarcado de Lisboa lhe prestou, pelos seus mais de 60 anos de serviço. “Quando faço cursos (…) costumo sempre dizer que, na verdade, não há na Igreja nenhuma missão que se possa assumir que contribua tanto para a formação como esta – para nós, leigos; não estou a falar dos clérigos. Porque obriga-nos, se formos responsáveis, semanalmente, a refletir sobre um tema determinado da mensagem cristã, a aprofundá-lo e a interiorizá-lo para poder partilhá-lo. E depois, partilhamo-lo e, ao partilhá-lo, recebemos também algo. De maneira que isto [dar catequese] é um enriquecimento permanente”, sublinhou então, na presença de dezenas de familiares e amigos.

O seu livro O Catequista – Ponte entre Deus e a criança, apresentado nesse dia, conta com um prefácio assinado pelo então patriarca, cardeal Manuel Clemente, no qual este manifesta “muita gratidão e estima pela autora e o seu precioso trabalho catequético”. E sublinha: “As considerações que faz são sempre baseadas na experiência pessoal, em longos anos de transmissão doutrinal e prática da mensagem cristã. Ganham, por isso mesmo, uma especial vitalidade e oportunidade.”  Também presente na homenagem, Manuel Clemente teve oportunidade de reiterar pessoalmente esse agradecimento: “Maria Luísa, muito obrigado porque é assim a vida da Igreja: é nós partilharmos, uns com os outros, os nossos percursos cristãos com aquilo que a vida nos foi trazendo e a Igreja nos foi pedindo”.

O mesmo reconhece o padre Tiago Neto. Na mensagem publicada esta segunda-feira, este responsável sublinha que um dos aspetos que sempre o impressionou em Maria Luísa Boléo foi “o facto de associar à formação da fé a sua experiência pessoal”. “A relação que estabelecia entre as suas histórias de família e de vida e as histórias sagradas era algo de natural e fascinante. Para ela a catequese era uma paixão de tal modo enraizada que não estava separada da sua vida e da sua história”, refere o presbítero.

Licenciada em Ciências Religiosas (1988), com uma pós-graduação em Desenvolvimento Pessoal e Social, um mestrado em Ciências da Educação e outro em Teologia pelo Instituto S. Tomás de Aquino (Toulouse, França), Maria Luísa fez parte de uma das cinco equipas criadas no final da década de 1980 para elaborar os então novos catecismos. “O nosso patriarca, senhor D. José Policarpo, na altura bispo auxiliar de Lisboa, era presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e durante dois anos lançou o trabalho de aprovação do programa de catequese e da elaboração dos catecismos decorrentes desse programa. Foi um trabalho muito bem organizado, muito bem coordenado pela irmã que estava na altura à frente do secretariado e que permitiu que em dois anos, de Outubro de 1991 a Outubro de 1993, tivéssemos publicados os dez catecismos, que se mantiveram até agora, uma vez que o último a ‘desaparecer’, desapareceu este ano”, recordava numa entrevista ao jornal Voz da Verdade, em 2012.

Questionada sobre a importância da catequese na formação humana, em especial das crianças, Maria Luísa afirmava então: “A catequese é algo de primordial na Igreja, e não sei se muitas vezes é entendida como tal”. E defendia a catequese familiar não tão distante assim daquela que recebeu da sua mãe como um dos possíveis caminhos futuros para a catequese. “Essa é que é a grande falha das catequeses: não envolver mais os pais na educação cristã dos filhos, porque se a criança não tiver enquadramento familiar é muito difícil que participe na Eucaristia”, apontava. De qualquer forma, não tinha dúvidas: “O que é dado na catequese às crianças marca-as profundamente. Acredito que vale a pena!”.

Já na sua intervenção durante a homenagem de há pouco mais de um ano, ia ainda mais longe: “A alegria de ser catequista antecipa nesta terra a alegria plena da eternidade. E por isso posso dizer, por tudo quanto tenho vivido e podido partilhar, que dou graças ao Senhor. É a Ele que se deve dar graças, realmente”.

Foram “a sua força de viver e resiliência que permitiram que nunca deixasse de trabalhar na catequese. Nos últimos anos, nas reuniões da equipa diocesana de coordenação, cuja presença bem-humorada nos deixa saudade, e na formação de catequistas que fazia de modo remoto”, assinala o padre Tiago Neto. E partilha ainda: “Há uns meses, quando começou a sentir que a saúde estava a fraquejar, confidenciou-me que eu ‘teria de começar a deixar de contar com os seus préstimos’, ao que eu lhe respondi: ‘Continue o módulo bíblico e vamos vendo como avança a situação.’ Infelizmente já não pode iniciar o módulo sobre história da Igreja que estava prestes a começar. As circunstâncias do seu internamento e o agravamento do seu estado de saúde não o permitiram. O seu último telefonema foi a dar-me conta desta situação e da preocupação que tinha com o arranque do curso.”

O velório será esta terça-feira, a partir das 17h, na igreja paroquial de Caneças (Odivelas), onde haverá missa às 19h, e a vigília de oração “Ser catequista: uma paixão”, às 21h30. O cortejo fúnebre sairá de Caneças para a igreja paroquial de Casal de Cambra (Sintra) na quarta-feira, 1 de maio, às 11h, onde será celebrada a missa exequial, às 15h, presidida pelo patriarca Rui Valério. O funeral seguirá depois para o Cemitério de Caneças.

 

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