Experimentar a comunidade

Capa do livro “Padre Alberto – Testemunhos de uma voz incómoda”, editado pouco tempo depois da morte de Alberto Neto, recolhendo textos do próprio e testemunhos de quem o conhecera
“O bailado desagregador e subversivo da Festa”*
Não era só aos domingos que o meu coração batia de Alegria, também comecei a ir lá em algumas tardes da semana.
A porta era verde e não muito grande e estava quase sempre aberta. Durante a semana havia algumas atividades, mas era sobretudo a possibilidade de encontrar gente da minha idade e outros mais velhos, saboreando ideias e construindo teias de ajuda, que me fazia ir até lá.
“Ups… cheguei em cima da hora! Já não vou ter lugar sentada, mas hei de arranjar um lugar entre os amigos nas coxias e sentamo-nos no chão. Acho que vou gostar! …”
Tudo isto era a minha relação com a Capela do Rato, em Lisboa. Lá, o Padre Alberto Neto parecia não ter medo do que dizia e fazia. Dava um sentido claro e direto aos textos da Bíblia que íamos ouvindo, sabia acolher, agitar o nosso sono e fazer a Festa. Cantava-se e sentíamos como a arte andava por lá a cuidar de cada pequeno e grande detalhe.
Lá, ninguém ficava indiferente e cada um tinha o seu lugar.
A partir dali o sentido de comunidade criou em mim raízes e não mais me abandonou.
Era um lugar de encontro de jovens onde na minha envergonhada adolescência (entre 1968 e 1974) aprendi o sentido maior da pertença a uma comunidade.
Nas aulas de canto coral no liceu nunca me senti bem, mas cantar na Capela do Rato era algo que envolvia tudo e todos. Não me lembro de canção sem a participação da comunidade. De resto, toda a liturgia era cuidadosamente preparada em cada gesto para que em todos os momentos compreendêssemos o seu sentido.
As homilias, preparadas pelo Padre Alberto com um grupo de leigos falavam-nos dos textos sagrados cruzando com as realidades dos dias e iluminavam a nossa fé fazendo-a presente e atuante nas nossas vidas. A Alegria do encontro cruzava-se com a seriedade da Palavra que ouvíamos e nos chamava a atuar. Ficavam connosco palavras e gestos que falavam de um Jesus que nos acolhia, esperando sempre mais de nós.
E lembro-me como esses momentos ficavam comigo durante toda a semana como um alerta para me tornar mais atenta e responsável.
É desta Igreja e deste sentido de comunidade que sinto falta! A Igreja Católica revela hoje pouca capacidade para se renovar. Começa logo pela confiança que não sabe ter nem viver com quem a procura. Temos medo de quem? De quê?… Apesar de tudo também sou parte desta Igreja!
Mais do que nunca, precisamos hoje de uma Igreja que não ande por aí meio adormecida e que, ao contrário, esteja disponível para cuidar dos mais pobres, que não tenha medo de se questionar e de reinventar modos diversos de acolher.
O Padre Alberto foi morto quando ainda podia dar muito. A tristeza de sua falta não tem limites, mas fica a clara certeza da sua Ressurreição que sabemos presente pela sua herança nos imensos gestos de Amor que inspirou.
(*em carta de 1976 do Padre Alberto Neto)
Lisboa, 19 de março de 2019
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