Experimentar o silêncio nos “ashrams” da Índia – um testemunho

| 23 Jan 20

Um dos lugares de meditação em torno de árvores, no Anjali Ashram, ashram católico em Mysore, Estado de Karnataka (Índia). Foto Rui Manuel Grácio das Neves

 

Um dos meus hábitos, que, felizmente, tenho podido praticar nos últimos tempos, é passar o mês de férias que me corresponde cada ano num ashram da Índia (depois de ter vivido lá durante três anos). Vou normalmente ao mesmo ashram, chamado Anjali Ashram, que é um ashram católico em Mysore, no Estado de Karnataka (Sul da Índia). Se posso, visito também algum outro ashram, de uma maneira breve, para aprender também lá outras coisas e complementar a aprendizagem.

Mas o que é um ashram?

A palavra ashram (ou ashrama), em sânscrito, significa algo como “esforço”, no sentido de uma prática espiritual continuada. Por extensão, ashram é um espaço espiritual, uma comunidade espiritual unida em torno a um guru (ou mestre), onde se facilita a prática comum da espiritualidade no aqui-e-agora, no quotidiano. A maioria são hindus, mas há também ashramas cristãos. Porém, hindu ou cristão, o princípio é o mesmo. Trata-se de fazer uma experiência de peregrinação interior, no silêncio, de auto-conhecimento e de descobrimento daquele/a/isso que está “mais-além-de-todo-o-Nome” (ambos os aspetos estão interligados).

A vida no ashram processa-se de uma maneira simples. É, aliás, uma vida simples e que procura a simplicidade. Normalmente, os ashrams estão rodeados de ou na própria Natureza, ainda que possam estar alguns deles situados nos arredores das cidades ou a escassos quilómetros delas, como é o caso deste que visito habitualmente. A melhor maneira de entender o que acontece lá dentro é conhecer o seu plano de atividades, segundo um horário exigente. Vejamo-lo.

Neste ashram de Mysore que frequento (Anjali Ashram), começamos as atividades do dia por volta das 5h30 horas (o ideal é levantar-se, portanto, às 4h30 ou 5h da manhã e fazer um pouco de yoga). Às 5h30, há uma meditação (pratah samdhya) de uma hora, em silêncio (só com uma breve introdução do guru, neste caso, um sacerdote católico totalmente dedicado à vida de ashram). Esta meditação (dhyana) é feita em torno de árvores (há vários tipos delas, cada uma com o seu lugar adequado). Para os indianos e indianas, a Natureza é sagrada, é a Criação de Deus, como se fosse o seu “Corpo”. É então interessante ver nascer o dia, passar da escuridão para o amanhecer, sentados/as, sem se mexer, em contemplação, silenciosamente. E tomar consciência dos barulhos dos animais e outros que começam a aparecer (e outros ainda que, pelo contrário, desaparecem), perto ou na cidade, um pouco mais distante. Evidentemente, o mais complicado não é tanto o silêncio do ambiente, mas o silêncio interior, ter a nossa habitual “mente de macaco” calada e serena, conscientes da Presença.

Segue-se a eucaristia matinal, por volta das 6h30, na capela do ashram. Uma eucaristia em estilo indiano (sentados no chão), com rito local, com elementos também da natureza, fogo, água, com ritos cheios de simbolismo litúrgico e espiritual-cósmico. Dura aproximadamente uma hora. Uma eucaristia inculturada. Depois vamos ao pequeno-almoço (7h30), sempre em silêncio, de novo sentados/as no chão, em conjunto. Comida muito simples, sempre vegetariana e indiana (um pouco picante para os nossos gostos ocidentais, mas não é tanto assim no ashram e, em todo o caso, vamo-nos acostumando a ela).

Segue-se a ida para o quarto, para a higiene pessoal e, logo a seguir, para o trabalho manual da manhã (ou seva, na tradição indiana: seva ashram): limpar as ervas, carregar água e regar as árvores e plantas do ashram, arranjar alguns jardins, lavar a própria roupa (isto é algo que fazemos praticamente todos os dias), e outros trabalhos práticos que sejam necessários.

O autor do texto na entrada da casa central do Anjali Ashram, onde está o símbolo deste ashram católico (fundado por fr. Amalorananda), em Mysore, Estado de Karnataka (Índia).

 

Quando se desenvolve o programa APA (Atma Purna Anubhava) há, em continuação, conferências espirituais segundo um programa de nove dias, chamadas Upadesa. Há sempre outras pessoas no ashram, além da equipa. Nestes programas, costuma haver até relativamente bastante gente, cerca de cinquenta pessoas: normalmente, noviços/as, estudantes de algumas ordens e congregações religiosas, leigos/as, buscadores/as, e até hindus e muçulmanos. Há conferências de manhã e à tarde, que desenvolvem diversos tópicos do programa.

Por volta do meio-dia, outra dhyana (meditação): Madhyan Samdhya. O almoço é às12h30, também em silêncio (depois de cantado um breve mantra), sentados/as no chão. Sesta e outra meditação por volta das 15h30. E depois do chá (16h), há de novo o ashram seva.

Na continuação, costuma haver hatha-yoga (17h), típico dos ashrams. Quando está em funcionamento o programa, há um upadesa (discurso espiritual) mais uma meditação de uma hora, na capela, por volta das 18h30 (saayam samdhya).

O jantar é às 19h30 horas. E, por volta das 20h15 vem o satsangh, que é um encontro comunitário onde cada um/a partilha as suas experiências do dia, com o comentário do Guru. A partir normalmente das 21h30, retiramo-nos para o quarto (quem quer, ainda faz algumas breves orações na capela), onde podemos estudar algo, mas o normal é entregar-nos logo ao sono, pois o dia foi intenso. A cama é simples, normalmente sem colchão. E assim durante nove dias. Às sextas-feiras é dia de silêncio e de jejum (normalmente jejum parcial, mas pode-se fazer também o jejum total) e ao domingo há algumas pequenas mudanças.

Este é o esquema normal.

Podemos dizer então que contemplação é a prática deste dia-a-dia feita com atenção plena (mindfulness), com seriedade e capacidade de serviço comunitário, com muita auto-observação e oferta do dia a Alguém que está dentro de nós e que nos permeia neste espaço do ashram, em plena natureza.

O importante, porém, é praticar um ashram dinâmico, onde quiser que estejamos, na Índia ou na Europa. Porque contemplação é, sobretudo, um estado de espírito, uma atitude interior, que pode ter este apoio institucional ou não, mas que permeia toda a nossa vida.

A contemplação tem mais a ver com o ser que com o fazer. Do ser ao fazer. De dentro para fora. De ver e “saborear” o sentido que as coisas têm, numa alegria plena e presente.

Para isso não é preciso ir à Índia.

Mas é preciso que a Índia venha até nós!

Jesus como “sad guru” ou verdadeiro guru indiano, em posição de meditação. Quadro no Anjali Ashram, ashram católico em Mysore, Estado de Karnataka (Índia). Foto Rui Manuel Grácio das Neves

 

Rui Manuel Grácio das Neves é frade dominicano, “Bodhisattva” da “Sangha” Zen de Lisboa e trabalha presentemente sobre a Espiritualidade Holística

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