Na véspera da reunião da Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, o 7MARGENS convida os seus leitores a dizerem o que esperam deste importante acontecimento. Todos são chamados a expressarem-se. Divulgamos hoje o quinto texto (ver textos já publicados).

Não diretamente envolvido em qualquer dinâmica sinodal e portador de uma história que não tendo passado pelos movimentos da Ação Católica foi, contudo, marcada, de forma positiva, por cinco anos de seminário. Foi ainda marcada pela primeira catequista, a “tia Rosalina”, uma mulher de aldeia, porventura um pouco beata, mas de uma bondade inesquecível e tendo uma forma de lidar com as crianças que me ficou na memória. Da catequese não tenho lembranças, mas ficou-me esse amor pelo que fazia e, sobretudo, no trato connosco, que, imagino eu, devíamos ser uns malvados diabretes. Recordo ainda a minha tia Lurdes que servindo em Lisboa, foi militante da JOC. Recordo finalmente a avó Zecas, avó materna, mulher de fé profunda e nada beata que quando eu lhe atenazava a cabeça com perguntas e dúvidas me chamava de herege ou que simplesmente me atirava: Ah, filho, se fosse pelos padres há muito que tinha perdido a fé. Neste meu caminho fui conhecendo pessoas que me desafiaram, que interpelaram o meu modo de ser cristão e que me acolheram na sua caminhada sem fazerem perguntas. Passamos a caminhar juntos, mesmo se diferentes na forma de entender a fé e de olhar a Igreja. Passaram a ser a minha comunidade. Fui passando por grupos ou movimentos (Libertar, Centro de Reflexão Cristã, Metanoia e Viragem) onde mais do que a instituição ou grupo foram as pessoas com quem me cruzei que me despertaram para uma procura permanente entre a exigência da fé e a vida. Compreendo porém que sem essas instituições nunca teria conhecido as pessoas que foram decisivas no rumo que, quase sem o perceber, foi tomando a minha vida. E isso não deixa de ser importante.
Que tem isto a ver com o Sínodo? Talvez muito pouco ou nada, porque tem na sua essência a ver com pessoas. Ou seja, a minha caminhada enquanto católico e cristão tem muito mais a ver com pessoas do que com instituições, é muito mais testemunhal do que doutrinal ou catequética. Mas talvez o mesmo tenha acontecido com muitos e muitas de vós. Isto tem a vantagem de criar algum distanciamento natural, sem esforço, em relação à Igreja instituição.
Para responder à pergunta que espero eu do Sínodo, há talvez que fazer uma destrinça entre o que são expetativas, aquilo que se espera no imediato face ao caminho sinodal até aqui percorrido e às muitas interrogações que persistem, e aquilo que é a nossa esperança, ou seja, o que vai para além dos próximos tempos, o longo caminho a percorrer enquanto povo de Deus, independentemente das decisões, mas com a memória do caminho já percorrido. No que toca às expetativas imagino que muitos gostariam que o sopro do Espírito fosse mais um vendaval do que um leve sopro. Mas serão poucos os que acreditam nisso, pois o Espírito é perito em testar a nossa atenção e disponibilidade, soprando muito, muito suavemente. Assim, o que eu espero é que não haja interditos e todos os assuntos que apoquentam a Igreja sejam discutidos: a discriminação da mulher na Igreja; a sexualidade; a catequese; sustentabilidade desta casa comum como caminho para a paz; as estruturas de poder no seio da Igreja; a relação institucional com os marginalizados, os que vivem nas margens e a quem não é permitido navegar no mesmo rio; o celibato dos sacerdotes; a voz da Igreja próxima dos que sofrem, sem desculpas ou subterfúgios, tantas vezes forma cúmplice de interesses dúbios causadores de sofrimento… E o mais do muito que haverá para discutir. Espero ainda que que se clarifiquem algumas questões não fechando as portas, em nome de dogmas ou verdades inquestionáveis, à reflexão e à partilha de quem no quotidiano se vê confrontado com a realidade e as suas circunstâncias. Gostaria – é um desejo – que quem no Sínodo tem assento e decide tivesse a preocupação de se tornar próximo e não a de alguém que tem poder. Quando falamos de transformação da Igreja, estamos a falar de conversão e isso já seria um começo. A conversão (transformação) da Igreja, espaço de desamor e de pecado, deve assentar nos seguintes pilares: acolher, cuidar, ir ao encontro, escutar, ver, partilhar e transformar…
Falemos agora não de expetativas, mas de esperança. Desse outro futuro que sendo promessa é também cuidado pelo presente. Entendendo eu que não existe verdadeira esperança sem a exigência do cuidado, sem a preocupação de sermos cuidadores do legado que esse “sonhador”, vagabundeando entre os rejeitados, nos deixou há pouco mais de dois mil anos… talvez ela germine à margem da instituição. As sementes da verdadeira esperança, invisíveis aos olhos durante o seu período de germinação (que é diferenciado), foram lançadas quando o nosso irmão Francisco, em outubro de 2021, nos desafiou a fazermos caminho. Acredito que quem participará no Sínodo não será indiferente ao caminho até aqui calcorreado e às questões que se foram levantando, mas a verdadeira esperança germina no coração dos homens e das mulheres que ao longo destes meses foram fazendo caminho apesar das incertezas, contradições, incoerências, medos e até insucessos. As instituições, pela sua complexa engrenagem e pelos laços radicados no poder e interesses que se entrecruzam, independentemente das pessoas de boa vontade, são pouco atreitas à mudança, sobretudo quando em sobressaltos. A transformação é sempre lenta. Basta lembrarmo-nos das reações às propostas do Papa Francisco.
Aos que se identificam com a mensagem cristã, aconselho a que percam alguns minutos a refletirem sobre a relação de Jesus com a lei do seu tempo. São vários os exemplos nos Evangelhos. A lei – entenda-se os normativos religiosos da época – é importante, mas o fundamental – e é aí que radica a esperança – é a caminhada que todos vamos fazendo, tentando construir relações entre irmãos e irmãs, sem nos perguntarmos quem são ou de onde vêm, mas apenas acolhendo e cuidando.
Afirmar uma Igreja como realidade outra, mais consentânea com os valores evangélicos e com o tempo presente, passa também pela atualização e afirmação de uma linguagem nova (na transmissão da mensagem, na liturgia, nas relações institucionais…). Linguagem que suporte uma participação fraterna – não hierárquica e de poder – nas decisões a todos os níveis. Não uma instituição burocrática e hierárquica, fundamentada em relações de poder, mas uma Igreja mais igual que seja uma verdadeira comunidade de irmãos e irmãs.
A Igreja, mais do que fazer as pazes com a pós-modernidade, tem de fazer as pazes com o mundo e com todos os seres que nele habitam, ou seja, com a criação. Não será esse o desígnio do crente, independentemente da fé que professe? Não será isso que nos une? Talvez mais do que Igreja necessitemos de uma verdadeira comunidade de irmãos e irmãs. E a forma como fazemos caminho depende de nós peregrinos da esperança. Assim saiba a Instituição tornar-se numa grande tenda que a todos acolha.
José Centeio










