Com a Páscoa como horizonte, um grupo de cristãos de diversas proveniências e trajetórias sediado em Jerusalém decidiu tomar a palavra.
É uma palavra que nos toca fundo e fazemos nossa, enviando-a a todas as pessoas que nos leem, com votos de um tempo de Páscoa (cuja data coincide este ano para todas as confissões cristãs), centrado no essencial da Vida.
Os subscritores assumem-se como “um testemunho ecuménico pela igualdade e por uma paz justa na Palestina e em Israel” e lançaram, no primeiro dia deste mês, um grito que poderia ser o de Jesus na cruz: “Pai, Pai, porque me abandonaste?” Inspirados na parábola do Bom Samaritano, dirigiram-se a três tipos de pessoas: aos habitantes massacrados de Gaza e da Cisjordânia; a todos nós que vemos, ouvimos e calamos; e aos cristãos e judeus que já foram convencidos de que é vontade de Deus a anexação da Palestina por Israel. Como afirma o grupo, “expulsar os palestinianos da sua terra natal não é apenas um ato de violência; é um sacrilégio”.
Com este apelo – diz um dos subscritores, em entrevista à revista America, dos Jesuítas dos Estados Unidos –, os proponentes dizem que “gostariam de tentar falar em nome” do seu povo, despertar os seus “líderes políticos e religiosos, tanto no país como no exterior, especialmente nos países poderosos do mundo”, e dirigir-se à comunidade internacional. “Queremos também ecoar as profundas preocupações que o Papa Francisco expressou em relação à nossa situação”.
Uma voz de Jerusalém pela justiça:
“Do fundo do abismo clamo por ti” (Salmo 130:1)

Caio Beltrão, O Bom Samaritano:”Somente o Bom Samaritano agiu para salvar a vida do homem ferido.”
Vivemos num momento de profunda crise. Escrevemos-vos hoje porque acreditamos que a nossa fé deve resplandecer em momentos como este.
Enquanto a guerra em Gaza continua, Israel lançou uma guerra na Cisjordânia, escondida dos olhos do mundo. O exército israelita está a levar a cabo o maior deslocamento de palestinianos das suas casas na Cisjordânia desde 1967. Segundo o OCHA [sigla inglesa para Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários], mais de 40.000 palestinianos já foram retirados e vivem atualmente sem abrigo, sem serviços essenciais nem assistência médica.
Neste contexto, vem-nos à mente a parábola que Jesus contou. Ela desenrola-se nestas mesmas terras. Um homem ferido jazia à beira da estrada. Jesus descreve aqueles que passaram por ele sem parar. O pastor Martin Luther King disse-nos que eles passaram por ele, cada qual com o seu temor: o que acontecerá comigo se eu parar? Luther King escreveu que o Bom Samaritano, em vez disso, fez a pergunta: o que acontecerá com ele se eu passar e seguir adiante? Somente o Bom Samaritano agiu para salvar a vida do homem ferido.
Recordando esta parábola, gostaríamos agora de nos dirigir a três grupos de pessoas.
Aos nossos irmãos e irmãs em Gaza, na cidade de Gaza, em Khan Younis e Rafah, e na Cisjordânia, em Nablus, Jenin e Tulkarm:
Recusamo-nos a simplesmente ignorar-vos. Não só não vos esquecemos como nos comprometemos a ser solidários convosco. Temos-vos presentes nas nossas orações. Choramos convosco. Procuramos fazer ouvir os vossos clamores num mundo que precisa de ser sacudido da sua complacência.
Às pessoas ao redor do mundo que veem as nossas feridas, mas se calam:
Reconhecemos o vosso medo e sabemos que os riscos de se manifestarem agora são altos. Talvez vocês, no vosso silêncio, ainda guardem a esperança de que alguém, ao longo do caminho, pare para ajudar. Já deveria estar claro que ninguém está a parar. Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que, em poucas semanas, fará anúncios vitais sobre o futuro da nossa pátria. Tememos que a anexação dos territórios palestinos por Israel esteja iminente. O uso crescente dos nomes “Judeia e Samaria” (em vez de Cisjordânia ocupada), explorando a terminologia bíblica para confundir as realidades políticas atuais, manifesta o desejo de varrer a Palestina e os palestinianos do mapa, alegando que não existimos. Agora é a hora de insistir que os palestinianos têm o direito de viver na sua pátria e de se juntar àqueles que clamam em todo o mundo por igualdade, justiça e paz para palestinianos e israelitas.
Finalmente, para aqueles judeus e cristãos que foram levados a acreditar que Deus quer que Israel anexe nossa terra natal:
Queremos deixar claro que vocês foram enganados. Todos, palestinianos e israelitas, foram criados à imagem e semelhança de Deus. Todos são iguais em dignidade e direitos. Além disso, o nosso Deus é um Deus de amor que abomina a violência e ama todos os Seus filhos. Os palestinianos são o vosso “próximo”. O mandamento inviolável da palavra de Deus que compartilhamos é este: “Ama o teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18, Mateus 22:39, Marcos 12:31, Lucas 10:27, Romanos 13:9). Expulsar os palestinianos da sua terra natal não é apenas um ato de violência; é um sacrilégio.
À medida que nos aproximamos da Páscoa, afirmamos uma vez mais que a luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram. “O que nele se fez era a vida, e a vida era a luz de todos as pessoas. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram.” (João 1:3-5)
Uma voz de Jerusalém pela justiça.
Os membros do grupo incluem:
- Michel Sabbah, patriarca latino de Jerusalém (emérito);
- Munib Younan, bispo luterano da Terra Santa (emérito);
- Yusef Daher, coordenador da delegação em Jerusalém do Conselho Mundial de Igrejas;
- Sawsan Bitar, doutorada em Direito e professora da Universidade Árabe Internacional;
- John Munayer, teólogo e especialista em diálogo inter-religioso;
- Samuel Munayer, teólogo palestiniano de Jerusalém;
- David Neuhaus S.J., padre católico alemão-israelita, superior da comunidade jesuíta no Instituto Bíblico Pontifício de Jerusalém;
- Frans Bouwen M.Afr., padre, especialista em igrejas orientais e diálogo católico-ortodoxo;
- Alessandro Barchi, padre e monge, vive entre a Palestina, Israel e a Jordânia.










