“Isso não é desporto para meninas!”
“Com essa roupa, esperavas o quê?”
“Uma mulher decente não anda na rua a essa hora!”
“Não podes ser assim, os homens não gostam de mulheres mandonas!”
“Não te armes em esperta, não tens capacidade, isto é para homens!”
“O que tens é falta de um homem lá em casa!”
Frases como estas estão enraizadas no quotidiano e são uma constante na vida das mulheres. Habituámo-nos a ouvi-las. Infiltraram‑se, moldaram expectativas. Este tipo de comentários, e aquilo que representam, justifica e evidencia o quanto ainda faz sentido falar de feminismo e da existência de movimentos que defendem a Mulher, lutando pelos seus direitos. Mas recuemos um pouco, para podermos compreender melhor onde surge o feminismo e porquê.
O movimento feminista nasceu de séculos de silêncio, de exclusão e de resistência. Mary Wollstonecraft, escritora e filósofa inglesa do século XVIII, é considerada a “mãe” do movimento feminista, defendeu que as mulheres mereciam educação e autonomia: uma ideia simples, mas que, de tão revolucionária, quase foi apagada da História. No final do século XIX e início do século XX, surgiu nos Estados Unidos e Reino Unido o Movimento As Sufragistas, que enfrentou violência e humilhação para que as mulheres conquistassem o direito ao voto.
Durante demasiado tempo, as mulheres foram ensinadas a caber em espaços pequenos: a casa, o recato, a obediência. Quando finalmente puderam estudar, disseram‑lhes que certas áreas não eram para elas. Quando começaram a trabalhar, pagaram‑lhes menos. Quando quiseram decidir sobre o próprio corpo, chamaram‑lhes radicais. Cada conquista foi arrancada a uma sociedade que resistiu até ao último momento.
Há quem veja o feminismo como exagero, como ameaça, como moda. Há quem prefira ridicularizar em vez de tentar compreender. E há quem, simplesmente, se sinta desconfortável com a ideia de que o mundo pode – e deve – mudar para ser mais justo, defendendo que o feminismo já cumpriu a sua função. Será?
Todos os anos, quando chega o 8 de março – Dia Internacional da Mulher – repete‑se o mesmo ritual: jantares à luz das velas, mensagens bonitas e lamechas, flores, hipocrisia e cinismo, tudo para fazer cumprir o calendário. E a inevitável pergunta: “Então, e o dia do Homem?”. A resposta é simples: o Dia da Mulher não se celebra, assinala-se. Não existe para festejar o facto de as mulheres serem mulheres, existe para lembrar tudo o que ainda falta conquistar em termos de defesa e direitos, e do lugar que esta deve ocupar na sociedade em que se insere. Mulheres e homens, deixem a espuma do dia e mergulhem naquilo que ele representa: trata-se de um dia de memória e luta, não é de mimos e romantismo, pois, se assim fosse, não faria qualquer sentido. Mas enquanto houver desigualdade, violência, silenciamento e retrocessos, este dia continua a ser necessário. Não para excluir os homens, mas para expor o ainda existente desequilíbrio estrutural da sociedade.
Ouvem-se cada vez mais vozes a defender que o papel da mulher está “desvirtuado”, pois esta nasceu para ser mãe, esposa, cuidadora, como se a biologia fosse uma sentença. Estas correntes ideológicas, embrulhadas em moralidade e tradição, insistem em reduzir a mulher a funções que servem a sociedade, esquecendo a própria. Dizem que é “natural”, mas, na verdade, é apenas conveniente. A maternidade é maravilhosa, mas não é uma obrigação; a vida doméstica é um caminho digno, mas não o único; e o que está verdadeiramente desvirtuado não é o papel da mulher, é a ideia de que ela deve caber num molde pré‑fabricado, enquanto o homem permanece livre de qualquer expectativa equivalente.
O feminismo é hoje mais necessário do que nunca. A misoginia não desapareceu, só mudou de tom. Esconde‑se em piadas, em comentários “inocentes”, em discursos políticos que tentam reverter direitos conquistados. Cresce nas redes sociais, onde o ódio encontra eco fácil, e manifesta‑se todos os dias na vida real: na violência doméstica, na desigualdade salarial, no julgamento constante sobre como uma mulher deve ser, falar, vestir ou existir.
O feminismo incomoda! Recusa a normalização e lembra que a igualdade não é negociável. Mas é esse incómodo que o torna necessário, pois enquanto houver quem queira encolher o espaço da Mulher, o feminismo vai ter de continuar a alargá‑lo.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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