“Faça-me o trabalhinho, que eu pago o que for necessário”

| 18 Jul 2023

O telefone tocou aflito. Do outro lado da linha, uma voz masculina angustiada, com sotaque do norte do país: “O senhor padre venha depressa que a minha mulher diz que vai morrer.”

Do lado de cá, ainda sem peso pastoral, respondeu-lhe o pároco substituto: “Nesse caso, talvez seja melhor chamar o médico.” Convenceram-me, entretanto, os argumentos do meu interlocutor incógnito.

Lá fui, noite dentro, uns 30 km de voo juvenil. Tinha na ocasião 26 anos. À porta de casa, de três pisos, cabisbaixo, o marido sussurrou-me, entretanto: “O senhor padre suba que a minha mulher está com o diabo”. Um resfriado, por mim abaixo. Avisei-o, de imediato, que não foi isso que me tinha dito, ao telefone. Subi.

 

Uma quinta, duas vacas e ela, por fim…

Cena do filme O Exorcista (1973), de William Friedkin

 

Um cenário de quase galhofa, quando entrei. Duas mulheres: uma sentada ao pé da cama, a outra, a doente, camisa de dormir e em grande conversa, com a que estava sentada, menos expressiva. As naturais saudações, à chegada, logo atropeladas pela voz de comando da doente a dizer: “Sente-se, senhor padre, que isto ou é do princípio ou não vale”.

Sempre em tom muito activo, a doente iniciou uma narrativa tão longa que o fim só chegaria pela uma da manhã e eu tinha chegado cerca das onze. A história resume-se em dois passos: os avós dela tinham uma quinta, lá na terra. Sabia-se à boca fechada que a honestidade não tinha morado naquele negócio de partilhas. Daí que o demónio tivesse tomado conta da situação. Estragos em toda a quinta, uvas apodrecidas, terrenos sem água corrente. Até um boi e uma vaca foram “amarrados” pelo diabo. Depois dos animais, foi a vez do pai e da mãe. Agora o diabo estava nela mesma. E a angústia subia, quando pensava que poderia estar grávida e com medo de que o diabo atingisse também a criança. Tinham casado, em Agosto anterior, na aldeia pequena do marido.

Terminava aqui a narrativa da doente. Exausto, disse, complacente, à senhora que se acalmasse e descansasse muito. Lembro-me de lhe ter dito ainda que os emigrantes trabalham demais. Chamei o marido, para lhes dizer, a ambos, que consultassem o médico. A situação era grave e não podiam deixar de a resolver.

 

O caos

De repente, quando me levantava para me despedir, de supetão, a doente agarrou-me pelos punhos e atirou-me por cima dela, para o outro lado da cama. E caí no chão todo assustado e com dores. A doente começou, então, numa voz de falsete insuportável, a insultar-me, a mim e à minha mãe, como nunca haveria sido. Entretanto, a senhora, que vi sentada na cadeira (mais que provável a bruxa convidada), soltou-se do lugar e começou, ela também, uma dança estranha, de terço na mão, a imitar os padres a incensar nas celebrações religiosas.

O ritual macabro prolongou-se por longo tempo até que a doente, quase desnudada, espetava no peito as unhas em sangue. E batia, desalmadamente, com os punhos fechados contra o crucifixo, que se mantinha sereno, na parede, por cima da cama. Recordo as palavras espumadas de raiva: “Quando esmagar o teu reino, não me vais dominar mais, ainda te vou f… os cornos!” Num instante, a doente caiu, exangue, por cima da cama. E quando tudo parecia ter amainado e eu ensaiava uma saída sem perigo, o marido que tinha estado a assistir a tudo, encostado à porta do quarto, lança-se aos meus pés e diz a frase chave, que mais tarde haveria de reconhecer em conversas sobre o assunto: “Faça-me o trabalhinho, que eu pago o que for necessário.” Instintivamente o sacudi e, quase zangado, disse-lhe que não tinha sido para aquela cena que me tinha chamado. E perguntava-lhe o que estava ali a fazer, a outra senhora, a incensar tudo e todos.

 

O primeiro “milagre” perdido

Hieronymus Bosch (c. 1450–1516), Tentação de Santo Antão (1495-1515), Museu Nacional de Arte Antiga

Hieronymus Bosch (c. 1450–1516), Tentação de Santo Antão (1495-1515), Museu Nacional de Arte Antiga

 

O carro voou de regresso, mais pesado. Foi o primeiro acto de um dito caso de “possessão demoníaca” que não terminaria ali. Na noite seguinte, à mesma hora, o mesmo toque aflito do telefone. À minha nega evidente, continuei, no entanto, a seguir o caso da mulher que dizia que ia morrer.

O casal de emigrantes regressou a Portugal, aconselhado pelos informadores habituais. Naquele tempo eram os taxistas da zona que tudo sabiam sobre este tema silenciado. A visita a um bruxo de boa fama foi a porta de saída para este casal. O bruxo escolhido tinha, curiosamente, ligações a um “padre exorcista” do concelho de Barcelos que, sistematicamente, resolvia o problema com uma carga de pancada na vítima, um banho frio pela cabeça abaixo e mil escudos, ao tempo, de taxa “aduaneira”…

E fiquei eu a pensar como tinha perdido a hipótese de ter ali feito o meu primeiro “milagre” com o mafarrico, com espectáculo e tudo.

 

Ciência e religião de mãos dadas

Ainda recentemente, a opinião pública portuguesa foi sacudida por uma operação de exorcismos, praticados num hotel de Fátima. A diocese de Leiria-Fátima apressou-se a apresentar um comunicado sobre o embuste, que incluía personagens alegadamente ligadas ao Vaticano.

Também em reflexões oportunas sobre o assunto, li o padre Anselmo Borges, numa sua crónica de domingo, no DN (17-05-2023), defender a melhor convivência entre a ciência e a religião, na troca de experiências entre padres e psiquiatras. Eles devem procurar-se, mutuamente, de modo sereno, aconselhava o autor, padre e professor de filosofia. Não duvido hoje que os emigrantes portugueses que encontrei na Alemanha nos idos de 1975, estavam a sofrer de grave doença psíquica.

Apesar de “inconstitucional”, é urgente pedir a “pena de morte” para este distinto chefe de fila, conhecido pelas suas diabruras, que tantas vidas consome ainda.

 

O submundo sem controlo

Duccio di Boninsegna, Tentação de Cristo, pintura, arte

Duccio di Boninsegna (1255-1319), A Tentação de Cristo na montanha Predelle, nas costas da Maesta (óleo sobre madeira). 

Apesar da delicadeza da matéria, desde sempre, a religião católica se viu, directa ou indirectamente, envolvida com o demónio, tendo um lugar de especial reserva no Antigo e Novo Testamento. O próprio fundador do cristianismo se viu envolvido em situações pouco serenas. Não foi, no entanto, nunca resolvida esta questão que arrasta milhões de vítimas. De carácter espiritual, moral, social e económico, sem controlo.

A tentar uma solução, a Igreja Católica permanece, desde o séc. III, com a prática de exorcismos.

Na liturgia das ordenações, mesmo depois do Vaticano II, a Igreja incluía a ordem menor de exorcista, ao lado de acólito, leitor e hostiário. O Papa Paulo VI, em 1972, suprimiu, por motu proprio, o subdiaconado, a tonsura e as ordens menores. A instituição de exorcista ficou confiada ao Direito Canónico, que obriga (ainda) a que cada diocese tenha nomeado um exorcista oficial. Soube-se, recentemente, que apenas três dioceses portuguesas cumpriam com esta determinação. São sórdidas muitas histórias (algumas na atualidade) que comprometem o nome da Igreja em negócios menos transparentes.

No século XX, o Vaticano guardou, no seu interior, um dos mais temidos exorcistas da diocese de Roma, o padre Gabriele Amorth. Ordenado padre na Pia Sociedade de São Paulo (Paulistas), licenciou-se em direito, foi escritor e jornalista e combateu na II Guerra Mundial. Morreu, em 2016, com 90 anos. Mundialmente conhecido, terá feito durante a sua vida mais de setenta mil exorcismos.

 

“Uns são mudos outros gritam e outros cospem”

É curioso que o jornal electrónico espanhol Religión Digital tenha publicado, em 29-10-2013, uma notícia intitulada “Carlos Mancuso, o exorcista argentino de Bergoglio”. A notícia revelava, substancialmente, que o arcebispo de Buenos Aires (futuro Papa Francisco) resolvia os problemas de exorcismo, na sua diocese, com a “coragem” de Carlos Mancuso. Durante trinta anos, este padre foi o exorcista único em Buenos Aires, que nunca revelou ter medo durante os exorcismos sobre os actos demoníacos que executava: “Os demónios, de acordo com a minha experiência, uns são mudos, outros gritam, outros cospem. O que é preciso é tratá-los com dureza.”

Esta é a clássica posição da Igreja, de olhar de fora para o “touro enraivecido”. É, sobretudo, um combate de poderes. Foi com esta complacência histórica que a Igreja nunca mais se livrou do alegado demónio e tem-no à porta sempre que queira ultrapassar a ciência. E o que não existe, não existe. Nem que custe ao mafarrico.

 

Manuel Vilas Boas é padre e jornalista.

 

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