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autores-antonio caseiro marques

Fadados para quê?

“Vem aí o Sínodo sobre a Caminhada Sinodal. Deseja-se que continue esta introspecção sobre o papel da Igreja para os cristãos e para o Mundo. O Papa colocou o dedo em muitas feridas; alertou para muitos problemas e apontou soluções. Esta análise tem de continuar. Temos de avançar, em diálogo com todos.”

 

Este foi, é e será sempre o nosso fado: Futebol. Fátima e Fado.

A questão é que eu também sou desses. Estou nesse grupo, constituído por milhões de portugueses que se reveem, senão nos nossos três elementos identitários, pelo menos em algum ou alguns deles.

Não por acaso, revejo-me nos três. Gosto dos três. E tenho a certeza de que a maioria dos portugueses alinha pelo mesmo diapasão identitário. Gostamos de fado, adoramos o futebol e vamos a Fátima. Sim, mesmo alguns que se dizem não praticantes ou que não acreditam gostam de ir a Fátima. E acrescentam que se sentem ali bem. Há realmente qualquer coisa de mágico, de energia profunda, que nos dá uma sensação de bem-estar. Porquê? Só Deus sabe. E a responsabilidade é da Mãe. Da Mãe de Cristo.

A Jornada Mundial da Juventude, que teve lugar nos primeiros dias de Agosto, veio confirmar tudo isso. E não estaremos assim tão errados como muitos possam pensar.

Começando pelo Fado, ele esteve presente na Jornada pela voz de Marisa, quando interpretou de forma extraordinária o célebre Fado de Amália Rodrigues intitulado FOI DEUS. A letra é fabulosa. E o fado continua a ser apreciado, cada vez mais, por quem nos visita. E mesmo as gerações mais novas continuam a gostar desta canção nacional. Por mais que certas correntes não apreciem. Dizem. Mas lá no fundo, no fundo, se calhar, no recôndito das suas casas, sem alarde e sem darem a conhecer, também escutam fadistas da moda.

Então não é que o Papa Francisco é um amante de Futebol. Ele e o seu San Lorenzo. Para muitos o Futebol constitui uma espécie de religião.

Quanto a Fátima, local de peregrinação permanente, em Portugal, ícone religioso do país, o maior local de culto católico, ponto de encontro de culturas e não só, continua a desempenhar o papel de elevação do moral das gentes cristãs e em particular do povo católico.

E os políticos também se aproveitam desse fenómeno religioso, pois, como dizem alguns, serve como calmante para manter o povo anestesiado, como alegadamente acontecia no Estado Novo. A verdade é que Fátima, apesar de tudo, é muito mais do que isso.

Contudo, depois da Jornada Mundial da Juventude, os olhos da Igreja em todo o Mundo e também em Portugal, têm de se virar para o Sínodo dos Bispos que vai acontecer em Roma a partir do próximo mês de Outubro. Ali vai estar muita coisa em causa sobre a actualidade e principalmente sobre o futuro da Igreja.

Depois da euforia da JMJ, é bom que todo o povo católico, a começar nos Bispos e nos Sacerdotes, se volte de novo um pouco para dentro para reflectirmos sobre os caminhos que nos foram propostos, sábia e certamente de forma inspirada, pelo Papa Francisco. E esses caminhos não vai ser fácil trilhá-los. Eles estão cheios de escolhos, de pedras escondidas.

Se isso não acontecer, o contributo da Igreja para o futuro do nosso país e das pessoas que teimam em aqui permanecer, não irá no rumo certo. Continuaremos a patinar, a plissar, arrastando-nos, preguiçosamente, em todos os aspectos como temos feito até aqui. Queremos também nós, católicos, prosseguir na máxima do Fado, Futebol e Fátima? Esta, principalmente, que por mais vivência religiosa que aparente, não deixa de representar para muitos, a religiosidade dos que entram numa igreja e se dirigem directamente ao mostruário das velas e saem porta fora sem uma genuflexão, uma simples mirada ao local mais sagrado que temos, o sacrário. Será isso que queremos?

Vem aí o Sínodo sobre a Caminhada Sinodal. Deseja-se que continue esta introspecção sobre o papel da Igreja para os cristãos e para o Mundo. O Papa colocou o dedo em muitas feridas; alertou para muitos problemas e apontou soluções. Esta análise tem de continuar. Temos de avançar, em diálogo com todos. Há muitos anos que muitos foram propondo novos caminhos para a Igreja. Não houve coragem. Houve medo. Medo que se descobrisse muita coisa que afinal andava escondida. O Concílio Vaticano II nunca chegou a ser posto em prática na totalidade. Ficou-se muito pela liturgia e pouco mais. Talvez seja altura de começar a pensar nisso. Em todas as dioceses. Por exemplo alguém perguntou aos que abandonaram a Igreja e passaram a ser fiéis de outras religiões ou a não praticar qualquer uma, porque o fizeram? Perguntar sem medo da resposta. Foi o Papa quem o disse.

Tudo no sentido de que, para os cristãos e para todo o povo português, não continuemos a guiar-nos pela simplista máxima: Fado, Futebol e Fátima.

 

António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural

 

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