
Uma das sete religiosas que permanece em Gaza para apoiar os refugiados cristãos, cuja situação é cada vez mais desesperada. Foto ACN
É cada vez mais difícil a situação da pequena comunidade cristã que permanece na Faixa de Gaza. Desde que os conflitos se intensificaram em outubro, 30 cristãos morreram na região: 17 vítimas de um ataque à paróquia ortodoxa grega onde se encontravam refugiados, duas mulheres assassinadas por franco-atiradores na paróquia católica da Sagrada Família, e 11 devido a doenças crónicas que não puderam ser devidamente tratadas. Com os cuidados médicos em níveis críticos, outros dez cristãos estão atualmente em risco de não sobreviver por falta de tratamento adequado, alerta a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
Hani Abu Daud, 48 anos, foi um dos que não resistiram. Com uma doença renal crónica, necessitava de diálise regular, mas como os hospitais da zona norte – onde se encontra a paróquia da Sagrada Família, que está a dar refúgio à maioria dos cristãos – tinham já deixado de funcionar, foi obrigado a deslocar-se para sul em busca de tratamento. No entanto, devido ao aumento do número de ataques, os hospitais dessa parte de Gaza também não puderam continuar a fornecer tratamentos, e Hanni morreu sozinho, longe da mulher e dos filhos. “Não lhe foi permitido regressar para se despedir da família e foi enterrado no sul, onde não há clero, nem sequer um cemitério cristão”, relata a fundação pontifícia, num ponto de situação divulgado esta sexta-feira, 16 de fevereiro.
“Apesar das dificuldades, um padre e sete religiosas de três congregações continuam a apoiar os cristãos que encontraram refúgio na paróquia católica da Sagrada Família”, informa a organização. Recordando que chegaram a estar 700 cristãos reunidos neste complexo, que pertence ao Patriarcado Latino de Jerusalém, a AIS assinala que o número diminuiu nas últimas semanas devido à migração e à morte. Atualmente, vivem no complexo paroquial 184 famílias – um total de 560 cristãos – católicos e ortodoxos, incluindo 140 crianças com menos de 18 anos – das quais 60 com deficiência – e 84 pessoas acima dos 65 anos.
“Que futuro têm os Cristãos neste país?”
Muitos dos cristãos residentes com uma segunda nacionalidade “optaram por deixar a Faixa de Gaza, procurando segurança em países como o Egito, o Canadá e a Jordânia. Embora no início tenham resistido a partir, a situação dos últimos quatro meses obrigou muitos a tomar essa decisão”, refere a AIS.
Quanto aos que permanecem refugiados, “podem sair do complexo, mas com precaução, pois a situação pode agravar-se a qualquer momento e é muito arriscada”, acrescenta a organização. “Qualquer movimento suspeito ou perigoso colocará a sua vida em risco e poderá ser o último. Depois de quatro meses sob cerco, estão cansados e muitos estão doentes”, explica George Akroush, diretor do Gabinete de Desenvolvimento de Projetos do Patriarcado Latino de Jerusalém, ouvido pela organização.
“A higiene tornou-se um problema grave, especialmente para as crianças, que estão a adoecer devido à falta de água e de produtos básicos, como farinha e fraldas”, sublinha Akroush, acrescentando que é também quase impossível obter energia: “20 litros de gasóleo custam 200 euros e só fornecem energia para os geradores durante duas horas”.
Face a este cenário, que se agrava a cada hora que passa, o responsável mostra-se apreensivo quanto ao futuro da comunidade na região: “Dizem que 62% das casas foram totalmente destruídas e que a reconstrução durará até 2093, de acordo com algumas agências internacionais e das Nações Unidas activas no terreno. Com tudo isto, há que perguntar que futuro têm os Cristãos neste país? O que é que vai acontecer? Ninguém sabe. Por favor, rezem por nós, não esqueçam o sofrimento dos Cristãos nesta parte do mundo”.









