Fala Correcta

| 7 Jun 20

“A comunicação parece estar bloqueada. Os pais não conseguem falar com os filhos; os maridos com as mulheres (ou os ex-maridos com as ex-mulheres, acrescento) e os sócios com os seus parceiros.”

Estas palavras foram ditas por um mestre budista vietnamita, muito conhecido, Thich Nhat Hanh, há alguns anos. Se visse agora… infelizmente, esta “fala bloqueada” faz parte das nossas vidas. É este o primeiro passo para outros mais perigosos, cada vez mais à beira do precipício e que podem, finalmente, assassinar/matar.

Continua o mestre zen que o enunciado clássico da “fala correcta” é:
1. Falar sempre a verdade. Só a verdade.
 2. Não falar de um modo contraditório: dizer a um, uma coisa; a outro, outra coisa diferente (sobre o mesmo assunto).
 3. Não falar com crueldade: não gritar; não caluniar; não amaldiçoar. Não provocar sofrimento nem gerar ódio.
 4. Não exagerar: não dramatizar excessivamente os factos. Torná-los piores ou mais urgentes. (Se alguém está irritado, não dizemos que está furioso.)”

Mesmo as pessoas com boas intenções, ao iniciar uma discussão, mesmo não querendo ferir o outro, começam por falar alto, se houver alguma tensão. Depois, gritam… Deixam-se “cegar”. Sem ter consciência disso, esse facto vai-se repetindo maquinalmente.

Diz T. Nhat Hanh que “carregamos sementes” do bem e do mal. Por isso, antes de falar, devemos pensar no que vamos dizer. Há sofrimento e raivas acumulados que explodem. Expressamos essa dor, gritando, vociferando, passando depois à agressão física, podendo esta levar à morte.

“As palavras são muito poderosas. É preciso não esquecer isso”, insiste. Poderão gerar na pessoa que as recebe ou escuta, um complexo; torná-la amarga, sem vontade de viver. Mas há também silêncios como chumbo – quando não há diálogo – e têm o mesmo efeito.

Dizer as coisas pensadas antes, com calma. E ouvir também com atenção, até ao fim; sem interromper. “Olhar e ouvir com os olhos e ouvidos de compaixão.”

Podemos pensar: “Mas eu só disse a verdade…” Pode ser, mas o modo como é dita/ escrita pode causar sofrimento. “Antes de falar, compreender a pessoa com quem se fala.” Considerar cada palavra, cuidadosamente. Até o tom de voz, o momento.

Uma palavra pode mudar o mundo: para melhor ou para pior. Cada um de nós, no seu círculo, seja ele o mundo inteiro, um país, uma família ou um só interlocutor, é responsável por uma fala correcta.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

 

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