[O flagelo que não acaba – VII]

Falamos de abusos na vida religiosa?

| 19 Abr 2023

“O abuso de poder, e lembremo-nos que é a origem de todo tipo de abuso, está na vida religiosa.” Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

Só porque algo não é falado não significa que não exista. A cultura da impunidade não só nasceu e se instalou nos seminários, como também estendeu os seus tentáculos à vida religiosa. Não deve surpreender-nos porque o abuso de poder impregnou todas e cada uma das estruturas da Igreja, e a vida religiosa é uma delas.

Antes de continuar creio ser necessário expor um fenómeno que, espero, a psicologia nos ajude a explicar. Para que nos possamos entender em linguagem comum, falarei de leigos e religiosos, sabendo que todo aquele que não é ordenado é leigo.

O fenómeno a que me refiro é este: entre os leigos, os homens denunciam mais abusos do que as mulheres; na vida religiosa, as religiosas denunciam mais abusos do que os religiosos. Destaco este facto porque vou referir-me mais aos abusos entre as religiosas, já que quase não há dados sobre o que acontece – porque acontece – entre os religiosos, sobretudo como abuso de poder e de consciência.

Na vida religiosa seguiu-se a mesma horrível estratégia de esconder a verdade, porque era mais importante a boa imagem da instituição do que a vida das mulheres. Porque, por estranho que pareça para alguns, as religiosas são mulheres.

O abuso de poder, e lembremo-nos que é a origem de todo tipo de abuso, está na vida religiosa. Há também, é claro, o abuso sexual por parte, na maioria das vezes, de capelães e/ou confessores – recordemos o caso Rupnik, por certo, ainda sacerdote e jesuíta – e, na maioria das vezes, com o conhecimento das prioresas, sobretudo na vida contemplativa, que não acreditam na vítima ou, pior ainda, acreditam que o agressor tem esse “direito”.

Que ninguém pense que estamos perante casos isolados de determinadas congregações. Estamos perante uma realidade a nível estrutural e mundial, onde a cultura também desempenha o seu papel e as mulheres, educadas na submissão, se encontram ainda em pior situação. Um exemplo? As religiosas africanas que têm quatro frentes abertas:

A. Começarei com uma pergunta: será que as religiosas que vêm de África – e inclusivamente de outros continentes – para colmatar a falta de vocações nas nossas congregações ou ordens de vida contemplativa, são bem tratadas e têm todas as garantias como cidadãs e membros dessa congregação?

B.  As religiosas que chegam a Roma para estudar, enviadas pelas suas congregações, e que acabam – mais bem cedo que tarde – como empregadas domésticas sem ordenado, ou seja, exploradas, ao serviço de cardeais, com o conhecimento das superioras da sua congregação que continuam enviando outras religiosas nas mesmas condições e que acabarão da mesma forma.

C.  As religiosas abusadas por parte de um clero que vê o celibato como algo contrário à sua cultura e também abusadas por alguns bispos que, não entendendo também o celibato, acrescentam, ao abusar das mulheres, a segurança de saber que as religiosas não estão infectadas com SIDA.

D.  As duas versões de um mesmo drama. Por um lado, o das religiosas que engravidam e que lhes é oferecida a possibilidade de abortar – não há maior incoerência e desprezo do que obrigá-las a cometer um dos maiores pecados segundo a própria Doutrina da Igreja – e, se não aceitam essa opção, são expulsas da congregação, e que procurem encontrar uma vida em África com o estigma que carregam e, por outro lado, o drama das mulheres – não religiosas – que têm filhos de sacerdotes que não são reconhecidos por eles e que não têm maneira de sobreviver nem elas nem os seus filhos.

A este drama desumano e sangrento, acrescenta-se outro que também não é muito divulgado e que serve, mais uma vez, para demonstrar o “amor” à instituição que está acima das pessoas. Este outro drama é a quantidade de sacerdotes africanos que se suicidam após serem infectados com SIDA, por não serem capazes de suportar que se torne pública a sua doença. Não esqueçamos que em África não há recursos para pagar o tratamento e quase nem há hospitais onde se possa fazê-lo.

Sim, mas isso acontece em África, pensarão alguns. É verdade, mas, será que na Europa não se passa nada com as religiosas relativamente à realidade dos abusos? Especificando um pouco mais, em França, Espanha, Itália ou Portugal não há abusos na vida religiosa, sobretudo feminina, por parte de mulheres das suas próprias congregações ou ordens?

Desde há alguns anos que existe um abandono mais do que significativo de religiosas que deixam as suas congregações sem que haja uma crise vocacional ou de idade. A que se deve então este abandono constante? Conheço congregações que num ano perderam quinze dos seus membros. Mulheres com estudos universitários – muitas delas doutoradas – com uma personalidade marcante e uma vida dedicada a viver um carisma numa congregação que abusou delas, tentando subjugar, em muitas ocasiões, as suas consciências ou tratando-as de forma infantilizada, quando não humilhando-as em privado e publicamente diante de outras irmãs da congregação.

Conheço também o caso de uma mulher que abandonou a ordem de vida contemplativa, na qual ingressou com vinte anos. Deixou-a depois de viver nela outros vinte e cinco, e depois de ter passado por três mosteiros aos quais a priora do primeiro enviava informações viciadas sobre ela e, de cada vez, a mesma história se repetia. Era tratada quase como uma demente conflitiva. Quando não aguentou mais, abandonou a ordem com aquilo que tinha vestido. Literalmente. Durante uma semana dormiu na rua porque não tinha dinheiro nem sabia onde pedir ajuda aos serviços sociais da cidade onde estava. Ligou para o bispado expondo a sua situação e não foi ouvida. Acudiu ao vigário geral da sua diocese e não foi ouvida porque “já não era freira e ele não podia fazer nada”. Até hoje, sem nenhuma qualificação académica ou profissional, vive de trabalhos esporádicos – alguns com poucas garantias legais – enquanto espera que o seu processo seja visto em Roma.

Não há relação entre o tratamento que se recebe e o abandono da congregação ou ordem? O abandono, e mais ainda por estas razões, não é um mar de rosas. Porquê abandonar a forma de vida escolhida num determinado momento em vez de denunciar? E quem disse que não o fazem?

Algumas não denunciam pelo calvário que isso implica; outras, que o fazem, acabam por constatar que os seus processos se perdem ou dormem eternamente nalguma gaveta do dicastério correspondente… Haverá maior revitimização da vítima, sem falar no desprezo, do que verificar a impossibilidade de que se faça justiça?

Nada do que eu conto aqui é inventado. A realidade supera a ficção que qualquer escritor pudesse criar. Isto acontece, está a acontecer hoje em dia. Poderemos ficar indiferentes? Espero que cada mulher que possa ler este artigo, seja freira, religiosa ou leiga, faça uma análise profunda da sua vida e veja quantas formas de abuso de poder subtil e quase imperceptível enfrentou sem estar ciente disso. Há formas de abuso tão interiorizadas que quase parecem uma lisonja.

E vocês, religiosos ou monges que também possais ler este artigo, não tenhais medo nem vergonha em denunciar. Ninguém nasce vítima. Chega-se a vítima por causa do tratamento que se recebe de outro ser humano. Assim como uma ferida precisa de desinfetante para evitar a infeção, o abuso precisa de ser verbalizado para que não acabe por gangrenar o coração.

Praticamente todos os movimentos e congregações nascidas no final dos anos oitenta e início dos anos noventa foram intervencionadas, quando não mesmo proibidas pelos efeitos causados pelo personalismo exagerado dos seus fundadores ou fundadoras, e que derivaram em autênticos abusos de poder. Aviso aos navegantes, quais são as características que têm alguns fundadores de movimentos recém-criados?

A Universidade de Friburgo, na Suíça, elaborou há uns anos um dicionário de colofones, que são aquelas últimas linhas que todo o escriba acrescentava ao finalizar a sua obra, pedindo orações e algo mais. Se eram monjas, costumavam pedir material – pergaminho, pena e tinta – para continuarem a trabalhar; se eram monges, o habitual é ler que pediam donzelas. Não é necessário explicar para que é que as queriam… Afinal de contas, não há nada de novo debaixo do sol, diz Qoheleth 1,9

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Tradução de Jorge Wemans e Júlio Martin.

 

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