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Celebrar o Tempo da Criação num país negro de fumo

Falta água, sobram poços

 

Aos missionários era pedido que abrissem poços de água para o povo. Entretanto o governo desse país negociava com outro país para abrir poços de petróleo. Vivi lá durante quatro anos. Abríamos a torneira do quintal porque tínhamos um poço.

 

Mais água, menos poços

Naquele país, os nossos vizinhos não tinham poço.
Quando a torneira dos frades esgotava os tanques de reserva, as pessoas tinham de procurar a água a vários quilómetros de distância, perto da uma estrada por onde passavam os materiais pesados que iam construir o terminal petrolífero.

Nós não tínhamos sido enviados para abrir poços de petróleo, nem sequer poços de água.
Essa missão era do governo: abrir poços e distribuir a água, cultivar a terra e alimentar a gente, construir hospitais, promover a ciência, a arte e a cultura, abrir fábricas e escolas.

Água potável em todas as dimensões e necessidades humanas, água mãe e irmã que São Francisco cantou no Cântico das Criaturas, útil, preciosa, limpa, humilde e casta.

 

Poços de outra água

Falta água do poço de Jacó, sobram poços de petróleo.

A água que a Samaritana pediu ao Mestre não era a do poço, essa foi a que o Mestre pediu a ela; a sede de Jesus pela água do poço foi devolvida à Samaritana na sede pela fonte da Outra água.

Na borda do poço de Jacó sentou-se uma mulher com um cântaro vazio à espera de alguém. Era a humanidade toda, com sede e à espera, com seu cântaro vazio.

Depois chegou Jesus, cansado e com sede; e o poço tornou-se o lugar do encontro, do diálogo e da partilha.

Pois na pessoa de Jesus, estavam presentes os peregrinos, os emigrantes e os refugiados de todos os desertos humanos.

Sem o “dom de Deus”, a água que Jesus ofereceu à Samaritana, nenhum “dom dos homens” poderá matar a sede humana.

Há, por todo o lado e em todas as pessoas, um poço com água abundante e de qualidade; mas é preciso um balde para a tirar e distribuir.

O missionário é o balde.

 

Frei Manuel Rito Dias, OFMCap , In Estradas da Memória, 2025

 

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