Moçambicanos de Pemba

Falta de caril e mais um bocadinho

| 6 Ago 2023

Grupo de Pemba em Braga. Foto © Nuno Barbosa

 

Foi na passada segunda-feira, 31 de julho, que me encontrei com quatro jovens de Cabo Delgado, Moçambique, parte de um grupo de seis que veio desde lá para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Lisboa. Veio connosco uma amiga, a Andreia, que foi quem organizou este encontro e já conhecia bem dois deles, dos cerca de dois anos e meio que se dedicou à missão na Paróquia de Santa Cecília de Ocua, uma paróquia assegurada pastoralmente por esta missão, que inclui quase 100 comunidades e se estende por um território de mais de 100 Km para o interior, na diocese de Pemba.

Quando cheguei à Póvoa de Lanhoso, onde estavam hospedados, encontrei-os sorridentes, a cantar e dançar com a Mana Andreia, como carinhosamente lhe chamavam. Estavam ali o Ernesto, de Pemba, que estuda para ser economista e trabalha na Rádio Sem Fronteiras, uma rádio diocesana; o Rodrigues, natural da província do Niassa, que vive agora em Cabo Delgado, em Balama, onde dá aulas de matemática; o David, professor primário, e a Esménia, que estuda para ser enfermeira, ambos da aldeia de Mahipa, parte da Paróquia de Ocua, que fica a 200 Km de Pemba.

Tínhamos decidido levá-los ao Santuário de São Bento da Porta Aberta, local de peregrinação e destinatário de muitas promessas nesta região minhota. No caminho, fomos falando da semana que tinham passado em Braga (nessa mesma noite seguiam para Lisboa). “Já temos 13 páginas no nosso relatório… e a jornada ainda nem começou!”. Explicaram que estavam juntos a escrever um relatório sobre a sua experiência nas jornadas, para depois irem apresentar aos jovens das muitas paróquias e aldeias da diocese de Pemba, mas eram tantas as experiências, que não conseguiam resumir em menos de 13 páginas. Esta era mesmo a sua missão – eles foram escolhidos para participar na jornada, mas estavam aqui para representar muitos outros jovens, muitas outras histórias e para lhes levar de volta as experiências aqui vividas, para que fossem verdadeiramente de todos. Entrávamos nas estradas com mais curvas de chegada ao Gerês e impressionavam-se com o facto de não haver nem muitos buracos, nem muitos acidentes.

Ao chegar ao santuário, a primeira expressão de surpresa foi para um homem que cumpria uma promessa, dando voltas de joelhos ao santuário, ajudado por duas pessoas, que lhe seguravam os braços. Explicámos que era promessa, sendo esta forma de a fazer muito comum em Portugal, e particularmente neste santuário. A surpresa aumentou ao perceberem que, em redor do santuário, havia mesmo um caminho de chão mais liso feito propositadamente para ser mais fácil andar de joelhos. Contou-me a Andreia que lá, quando se cumprem as promessas, anunciam-no em frente à comunidade, normalmente oferecendo algo que é fruto do seu trabalho e com a alegria que lhes é tão característica. Talvez por isso lhes tenha sido tão estranha esta forma de prometer algum tipo de sofrimento físico sem uma intenção produtiva.

Também se espantaram com a quantidade de velas que ardia numa pequena capela ao lado do santuário. Ali também, cada um de nós colocou a sua vela e ficámos algum tempo em silêncio a olhar as chamas que se iam levantando. Estavam encantados com a vista sobre o rio e as montanhas e com tudo o que havia ali ao redor do santuário. Antes de partirmos, ainda subiram à imagem de São Bento, por trás do altar.

Fomos então almoçar, como havíamos prometido, uma comida muito típica do norte de Portugal: a francesinha. Perguntei-lhes o que gostariam de dizer ao Papa, se tivessem essa oportunidade. “Que rezasse muito pela nossa região e por todos nós, para que volte a paz.” Falámos então da situação em Cabo Delgado, que “está melhor, mais controlada, mas continua perigoso”. Nenhum dos quatro era de zonas que tivessem sido atacadas, mas todos conviveram muito de perto com tudo o que aconteceu, porque vieram muitos deslocados para as suas aldeias. Sobre o acolhimento aos deslocados, disseram: “Como a nossa zona é muito baseada na agricultura, todos receberam espaço para reconstruir a sua comunidade, machamba (terreno cultivável), sementes e instrumentos para poderem produzir o seu alimento.” Em algumas zonas foram feitos campos de reassentamento, onde todas as pessoas deslocadas também receberam machamba para cultivar. Disseram também que algumas pessoas já começavam a regressar às suas terras, à medida que a situação acalmava. Sobre o que os preocupava no seu país, falaram de muitas coisas – os salários, a instabilidade, a corrupção…

Grupo de Pemba em Braga. Foto © Nuno Barbosa

Perguntámos então o que os tinha impressionado mais em Portugal. As coisas que gostavam eram muitas, mas apontaram logo que a comida era muito seca, “não tem caril, não anima” (diz a Andreia que eles chamam caril ao molho que acompanha a refeição, seja ele de que tipo for, e lá a comida tem sempre muito caril). E o que acham das missas em Portugal? Aí a resposta foi mais contida, ficaram um bocado a pensar e um deles arriscou: “Acho que as missas aqui são muito frias… não sei se é bem a palavra… muito rígidas.” Falaram de como lá eram muito mais animadas, com mais alegria, sempre a dançar e a cantar. “Portanto, as missas cá em Portugal são como a comida, não têm caril, não animam”, concluí. Riram-se. Não deixaram de notar que, quando entraram a tocar batuque na missa na Póvoa de Lanhoso, as pessoas ao princípio estranharam, mas rapidamente alinharam, com muita alegria, nas suas músicas. Acrescentaram também que gostavam particularmente da beleza das igrejas, “só tínhamos visto coisa assim na televisão”. Aliás, mandaram fotografias para Moçambique e ninguém acreditava que “são assim, mesmo de verdade”.

Entretanto, chegou a francesinha. Ficaram logo satisfeitos porque tinha muito caril. A Esménia foi a primeira a começar. “Esta anima!” Gostaram da francesinha e do “caril”, “este caril é muito bom, com chima ficava um sonho”. Chima, explicou a Andreia, é a base de alimentação lá, feita com farinha de milho e usada para molhar no caril.

Ainda falámos sobre o que esperavam levar desta jornada para Cabo Delgado. “Viemos cá para sentir um bocadinho de todo o mundo”, porque cada um dos muitos jovens que andam por Lisboa traz um mundo diferente, uma história só sua, “e nós queremos levar tudo isso connosco para partilhar com os jovens de lá”. Quando perguntei o que traziam para oferecer, falaram logo da alegria, da celebração, da música. “Vão trazer caril para as jornadas, é assim?”, perguntei, “e se nos arranjarem batuque, como fizeram cá, ainda vai ser melhor”, respondeu um deles.

Antes de irmos para casa, fomos ver o Estádio do Braga, “ouvimos falar destas equipas, mas é tudo bem distante… ver assim é um sonho tornado realidade”. No regresso, cantaram as músicas com que normalmente animam a liturgia, em macua, um dos dialectos de Cabo Delgado, explicando sempre a letra e os momentos em que a cantavam. Uma particularmente bonita dizia “T’orera murima Apwiya”, que quer dizer “tens de ter um coração bonito para falar a Deus”.

Já na casa onde eram acolhidos, fomos recebidos com um sorriso contagiante e um abraço de uma outra integrante do grupo, que tinha ficado em casa porque estava muito cansada dos dias anteriores: a Marta Luís tinha estado a preparar o jantar para toda a família e dos olhos radiava uma alegria que escondia certamente um sofrimento profundo.

A Marta é de Muidumbe, uma das zonas que sofreu os mais severos ataques terroristas, de onde fugiu para Nampula, onde está como deslocada e veio a Portugal para nos contar a sua história. Não sei muito do que tem para contar, sei que não há como ficar indiferente à alegria que transporta no olhar, essa alegria como modo de estar que encontrei em todos eles, e que, disseram os outros, quando ela fala, diz “tudo e mais um bocadinho!”. E que falta nos faz ouvir esse bocadinho…

 

[Este texto foi escrito antes da vigília de sábado à noite; o testemunho de Marta Luís nessa ocasião pode ser lido noutro texto no 7MARGENS.]

 

Luís Nuno Barbosa é activista pelos direitos humanos, presidente da associação de defesa dos direitos humanos Civitas Braga e membro da direcção da Associação Virar a Página – Cozinha solidária

 

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