Está a ocorrer em Portugal “uma profunda reconfiguração dos fundamentos de valor da família, com implicações importantes para as políticas familiares e para a compreensão das dinâmicas familiares contemporâneas no contexto português”.
Esta é uma conclusão central da investigação feita pelos sociólogos Eduardo Duque, docente da Universidade Católica e investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, e José F. Durán Vázquez, docente e investigador da Universidade de Vigo, constante de um artigo acabado de sair na revista científica Religions [1] intitulado, em tradução portuguesa, A família ao espelho: valores e atitudes geracionais dos Portugueses relativamente à família.
Recorrendo a um inquérito junto de uma amostra de conveniência com 3634 respondentes (em Portugal), o artigo tem como objetivo analisar a família portuguesa contemporânea “através da lente das mudanças na transmissão de valores familiares, com um foco particular na esfera religiosa”.
Os autores do trabalho concluem que os valores atuais estão cada vez mais orientados para o individualismo, a emocionalidade, a expressividade e o empoderamento”. A religião deixou de ser o sustentáculo desses valores, conclui o estudo.
Transformações na instituição familiar
O artigo começa por contextualizar o estudo no quadro de transformações experimentadas pelas famílias, particularmente no espaço do Ocidente, aludindo a mudanças nos papeis de género, decréscimo dos casamentos, coabitação fora do casamento, crescimento dos divórcios e redução do número de filhos.
O que mudou na transição da família moderna para a da modernidade tardia, ocorrida nas últimas décadas, questionou a divisão tradicional de papeis entre esposos, acentuando-se a tendência para enfatizar a faceta afetiva. Partindo de um modelo piramidal, foi ganhando peso um modelo mais orientado para a comunidade (familiar), ainda que os dois modelos tenham coexistido.
O artigo salienta fenómenos como a erosão da autoridade paternal, a procura da autonomia das mulheres, através da progressão na escolaridade e da integração no mercado de trabalho e a afirmação do estatuto e expectativas da parte das crianças e jovens.
As mudanças verificadas, no entanto, não conduziram – notam os autores – “ao enfraquecimento da família como instituição”, porquanto ela “continua a ser uma das instituições mais valorizadas”, mesmo que os motivos para tal tenham mudado em décadas recentes.
Doravante, “as pessoas dão valor mais a motivos sentimentais, materiais e emocionais do que morais, associados a deveres intergeracionais”, os quais teriam passado a “um segundo plano”. Exemplificando, os atores chamam a atenção para o facto de serem hoje menos as pessoas que sentem o dever de cuidar da geração mais idosa ou que têm filhos ou de ter filhos para dar continuidade à família ou perpetuar a identidade coletiva”.

Importância da família na sociedade contemporânea (%). Fonte: Autores do inquérito “A família na sociedade contemporânea”, 2024.
Quanto aos resultados do inquérito, o artigo é abundante em dados e em questões por eles levantadas. A esmagadora maioria (86 por cento) dos respondentes valorizam a instituição familiar e apenas 4 por cento a valorizam pouco. As variações são mínimas quando consideradas as variáveis género, idade e nível de escolaridade (é pena não ter sido incluída a variável nível económico-social).
A transmissão de valores e o suporte emocional são as razões mais vincadas para a valorização da família, com 3,9 e 3,8 pontos, numa escala de zero a 4. No extremo oposto estão o suporte financeiro e a dimensão religiosa (uma formulação que nos pareceu um pouco vaga).
Uma questão colocada refere-se à frequência da prática de algumas atividades em família. Aqui, as refeições surgem à cabeça, com 30 por cento, seguidas de viagens e férias juntos (25 por cento) e atividades de exterior (15 por cento). Da lista restante, ver filmes ou séries é atividade preferida por 10 por cento – todas as restantes situam-se abaixo dessa percentagem (a participação em atos ou celebrações religiosas não vai além de 7 por cento).
Fé religiosa valorizada mas sem prática

Em que medida os seguintes valores familiares mudaram ao longo do tempo. Autores do inquérito “A família na sociedade contemporânea”, 2024.
A fé religiosa é um dos valores que segundo uma percentagem muito elevada de respondentes mais mudanças sofreu ao longo do tempo. Apesar disso a maior parte das pessoas consideram que a religião desempenha um papel ‘muito importante’ ou ‘importante’ no seio da família (39 e 42 por cento entre as mulheres e 43 e 39 por cento entre os homens, respetivamente).
O declínio religioso na esfera familiar tem acompanhado a erosão dos valores tradicionais, posicionais e hierárquicos – mesmo entre indivíduos com crenças religiosas nos quais o sentido de pertença se está a enfraquecer – favorecendo valores individualistas e expressivos relacionados com o trabalho, a educação e o lazer.
Os investigadores proporcionam vários dados que lhes permitem afirmar e ilustrar uma crescente secularização da sociedade portuguesa, com evidencias claras de impacto na família, afetando especialmente as faixas etárias abaixo dos 50 anos.
Comparando esse quadro com outros países europeus, o artigo considera que a situação em Portugal é menos pronunciada do que lá fora, configurando uma tipologia a que citando uma fonte científica, designam por “crença sem pertença” (believing without belonging). Em concreto: “embora a maioria reclame para si crenças religiosas, apenas uma minoria dá conta de frequentar regularmente atos religiosos”. Mais ainda: aqueles que acreditam tendem a fazê-lo de um modo cada vez mais individual, plural e flexível”.
[1] Duque, E.; Vázquez, J.F.D. The Family in the Mirror: Generational Values and Attitudes of the Portuguese Regarding the Family. Religions 2025, 16, 1151. https://doi.org/10.3390/rel16091151










