
Desenhada pelo Governo conservador de Theresa May, a limitação dos apoios sociais às famílias numerosas pobres respondia à visão ideológica de que os pobres têm filhos para beneficiarem de maiores apoios do Estado. Foto © Sean Warren.
Mais de metade das crianças de famílias numerosas (com mais de dois filhos) do Reino Unido continuarão a ser pobres em 2027, de acordo com o Child Poverty Action Group (CPAG), citado pelo The Guardian na sua edição de 6 de abril. Boa parte desta pobreza é provocada pela medida governamental de 2017 que limita aos dois primeiros filhos o pagamento de benefícios sociais às famílias pobres.
Desenhada pelo Governo conservador de Theresa May, a limitação dos apoios sociais às famílias numerosas pobres (com rendimentos inferiores a 3.570 euros/ano) respondia à visão ideológica de que os pobres têm filhos para beneficiarem de maiores apoios do Estado, nada fazendo para procurar emprego, ou outras fontes de rendimento. No discurso dos conservadores, era preciso ensinar aos “pais irresponsáveis” que “as crianças custam dinheiro” e limitar os efeitos perversos de um “estado-social demasiado generoso”. A medida teve como contraponto legislação que permite às famílias (mesmo às mais pobres) o acesso ao crédito.
Porém, “desde a sua introdução, há exatamente cinco anos, a taxa de fecundidade para o terceiro filho e posteriores nascidos de famílias mais pobres quase não caiu. Em vez disso, o principal impacto da política foi tornar-se o maior impulsionador da pobreza infantil”, sintetiza The Guardian no referido artigo que titula “A política de dois filhos não tornou as famílias do Reino Unido mais pequenas, apenas mais pobres”. Afinal, os “caçadores de subsídios sociais” não tinham filhos para obterem maiores apoios do Estado, pois continuaram a ter mais do que dois filhos, mesmo sem que isso determinasse qualquer ganho nas transferências por eles recebidas da Segurança Social.
O estudo sobre o real impacto daquela medida foi encomendado pela Nuffield Foundation e surge num momento em que várias estimativas apontam para o facto de 1,4 milhão de crianças de mais de 400.000 famílias no Reino Unido serem atualmente afetadas pela “política de dois filhos”. Por outro lado, calcula-se que a remoção desta política tiraria imediatamente 250.000 crianças da pobreza. Contudo, a decisão tomada este mês de abril pelo Governo de Boris Johnson de aumentar os apoios sociais às famílias em valores abaixo da inflação significa, ao contrário, que os núcleos familiares com três filhos e baixos recursos económicos vão ter um corte de 983 libras por mês (cerca de 1.700 euros) nos benefícios, com famílias maiores a sofrer cortes ainda maiores.
As estatísticas da pobreza infantil no Reino Unido são assustadoras. De acordo com o CPAG, 4,3 milhões de crianças vivem na pobreza, 75% das quais pertencem a famílias trabalhadoras. Metade (46%) das crianças de famílias negras e de outras minorias étnicas vivem na pobreza.










