Farei música e compreenderei em caminho

| 20 Fev 2024

[Lausperene Quaresmal – sábado depois das cinzas ─ vésperas do Santíssimo Sacramento]

[anterior paisagem / ó perda que nos salva ─ / grandioso mosaico! © fotografia e haiku: Joaquim Félix] Foto: Custódia eucarística na tribuna da igreja de S. Paulo. 

 

1. Estamos no final da ‘semana das cinzas’,
e, nos ouvidos, ressoará ainda a sentença da passada quarta-feira:
«Lembra-te que és pó e ao pó voltarás» (Gn 3,19).
Todavia, por nada desejo que sejamos pó de lamentação.
Bem sabemos quanto o Pe. António Vieira, em 1672,
─ na igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma ─,
interpelou, e continua a interpelar, no Sermão de Quarta-feira de Cinzas,
ao insistir: «Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído:
os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz: Hic jacet».
Sim, mas na arte de viver, até tendo presentes as dores,
misturamos «a luz com as cinzas» (Eddie Vedder).
Misturemos, pois, o pó levantado, o pó que somos,
com a luz que do alto camarim eucarístico nos incendeia,
e experimentaremos algo que nos aponta o sentido do lausperene:
somos pó levantado, sim, mas pó que louva cantando!

2. Poderá a nossa alegria ser como um livro de música aberto,
a ressoar salmos e hinos sobre hinos,
em contínuo desdobramento de ações de graças?
E podemos fazê-lo num cântico ininterrupto (cf. Paulo VI, Laudis Canticum)?
É para este horizonte que a todos convoco,
colocando os olhos no Senhor que se alegra com os nossos cantares.
Compreendamos porque o salmista nos convida a imitá-lo, quando canta:
«Farei música e compreenderei em caminho irrepreensível» (Sl 100,2).
Ou, ainda, noutro salmo: «Entrai diante d’Ele com regozijo» (Sl 99,2).
Oh! seguramente estamos a bem-dizer o seu Nome,
porque o convite do lausperene é mesmo este:
«Entrai pelos portões d’Ele com louvor;
<Entrai> pelos átrios d’Ele com hinos» (Sl 99,4) (trad. F. Lourenço).

3. Mas, em qual dos hinos vamos?
Boa pergunta, porque o que ouvimos na leitura não é o primeiro.
Sim, o primeiro foi «Canta, Igreja, o Rei do Mundo»,
que corresponde à tradução do hino latino «Pange Lingua»,
escrito, no século XIII, por Santo Tomás de Aquino,
para a solenidade do Corpus Christi:

Com ele, numa poética teológica, louvamos o mistério da Eucaristia,
da encarnação ao mistério da transubstanciação;
mistério para o qual a fé é convocada a fim de ver «tão nova realidade»,
a ponto de cantarmos: «Faz-se carne realmente / o que deixa de ser pão».

4. Passámos depois ao hino cristológico da epístola aos Efésios (Ef 1,3-10).
Não o cantamos, é verdade, mas a sua leitura,
─ no ritmo que o estilo literário requer ─,
soou nesta casa de oração com imensos motivos de louvor.
Este hino é tão importante e solene que, todas as semanas,
a Igreja o propõe e canta na liturgia de Vésperas.
Na audiência geral de 23 de novembro de 2005,
o Papa Bento XVI demorou-se a comentar este hino,
a partir de «três verbos» que ele interpreta como «principais»,
e socorrendo-se de palavras de Santo Ireneu,
dizendo que este hino nos coloca
«diante de um mosaico grandioso da história da criação e da salvação».
Tendo-nos escolhido em Cristo,
cumulou-nos abundantemente com bênçãos espirituais,
para «sermos santos e irrepreensíveis, em caridade na sua presença» (Ef 1,4).
Como seus filhos, reconhecemos a abundância de graça e remissão,
que corresponde à sua vontade de recapitular tudo e todos em Cristo.
E, por isso, cantamos com este hino a nossa gratidão.

5. Porém, não haverá palavras outras para cantar este mistério admirável,
traduzindo a linguagem das bênçãos (berakot) judaicas,
ou da filosofia aristotélica adotada na teologia escolástica,
para cantar a poética da nossa fé num hino contemporâneo?
Há, sim, e que belo hino!
Foi composto para o V Congresso Eucarístico Nacional,
que vai decorrer, em Braga, de 31 maio a 2 junho deste ano.
Quem o compôs foi o poeta vimaranense Carlos Poças Falcão.
Saberemos que foi já competentemente interpretado
pela Escola Arquidiocesana de Música Litúrgica – São Frutuoso:

A música foi composta por Eurico Carrapatoso,
estrofe a estrofe, com um refrão muito belo e acessível,
que convinha aprender para dilatar o nosso louvor eucarístico.

6. Ah, mas como é bela a linguagem teológica deste hino,
que passo a declamar, ainda sem a divisão estrófica, nem o refrão!
Assim, ele o ditou e mo enviou, no dia 16 de novembro de 2023:
«Sabemos da alegria anterior à alegria,
provamos que o Pão faz a seara e que a luz
concebe em nós a lâmpada. Sabemos que o sal
é anterior ao mar e que a Palavra estava antes
de haver sopro. Olhamos com espanto para a Face,
pois ela é a paisagem que está antes da paisagem,
semente luminosa no escuro do seu fruto.
Conter já não podemos a alegria por mais tempo,
o júbilo da graça, o testemunho do amor,
encontro que nos acha quando ainda procuramos.
Que assim é a alegria: a de nada possuirmos
senão por esse bem, por essa dádiva primeira
que é Pão primordial e alimento para sempre.
Tomando, abençoando, todo Ele se reparte
e assim nos dá a vida e faz seara e cria lâmpada
e quer-nos vinculados à partilha e à esperança,
memórias do Seu gesto e presenças do Seu rosto,
por recepção do Alto, na urgente obediência
de amar até ao fim, pelo concreto e pelo duro
das bem-aventuranças, pela perda que nos salva,
em comunhão de irmãos no Corpo e Sangue de Jesus» (Carlos Poças Falcão).

7. Sem dúvida, a sua linguagem é de uma frescura que nos inebria,
e faz-nos desejar estas paisagens divinas, a vontade de Deus cumprida em Jesus,
traduzindo o mistério para o gerúndio presencial e ininterrupto.
Oh, e aquele «antes da criação do mundo», da epístola aos Efésios,
para o «anterior», que, aqui e agora, no faz louvar continuamente,
inclusive com hinos que vamos ainda cantar nesta hora de adoração!

retábulo na capela-mor da igreja de S. Paulo

Panorâmica do grandioso retábulo na capela-mor da igreja de S. Paulo, obra do entalhador Tomé Araújo (1722), durante o Lausperene (2024). Foto © Joaquim Félix.

 

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia no contexto do Lausperene Quaresmal – sábado depois das cinzas ─ vésperas do Santíssimo Sacramento proferida na  igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga. Lausperene na Cidade de Braga, tradição criada pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, em 1710. Tradição, note-se, jamais interrompida ao longo dos séculos.

 

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